
Foto de arquivo tirada em 2018 mostra o Dragão do Milênio em desfile em Chinatown durante as comemorações da Festa da Primavera em Melbourne, Austrália. (Foto de Gui Qing/Xinhua)
Por Xiong Wenyuan e Xu Haijing
Melbourne, 19 fev (Xinhua) -- Em uma viela estreita perto de Chinatown, em Melbourne, o Museu de História dos Sino-australianos fica atrás de uma porta vermelha com uma argola de latão, discreto à primeira vista, mas abrangente em seu escopo histórico.
Em seu interior, biombos, dísticos da Festa da Primavera e o caractere chinês "fu" dividem espaço com exposições que traçam a longa e multifacetada jornada dos sino-australianos.
Para Mark Wang, diretor-executivo do museu, o lugar é tanto uma instituição pública quanto a missão de sua vida.
Australiano de ascendência chinesa de quinta geração, cujos ancestrais vieram da província de Guangdong, no sul da China, Wang ajudou a fundar o museu na década de 1980 e dedicou décadas a transformá-lo em um arquivo histórico e cultural.
O que começou como um esforço para abrigar um dragão gigante trazido de Foshan, Guangdong, evoluiu para uma narrativa multifacetada sobre migração, dificuldades, adaptação e contribuição.
Em uma visita guiada recente, Wang conduziu os visitantes pelas principais exposições do museu em sequência, de "Um Milhão de Histórias" no terceiro andar ao espaço imersivo "Em Busca do Ouro" no subsolo e, finalmente, à Galeria do Dragão no térreo, onde ritual, memória e vida comunitária convergem.
"Um Milhão de Histórias: Sino-australianos - 200 Anos" traça um amplo arco desde 1818, identificado pelo museu como o ano da primeira chegada de chineses à Austrália, até 2018, quando a população sino-australiana atingiu um milhão.
A exposição acompanha as principais fases da migração e do assentamento chinês. Segundo Wang, a demografia sino-australiana contemporânea foi moldada por três grandes ondas: as chegadas durante a corrida do ouro na década de 1850, a migração do Sudeste Asiático na década de 1970 e a migração ligada à reforma e abertura da China a partir da década de 1980.
A curadoria da exposição transita entre as forças históricas mais amplas e a experiência vivida. Objetos de arquivo, de vestimentas de época a móveis fabricados na China, mostram como os migrantes fizeram mais do que buscar trabalho: eles construíram famílias, negócios, redes sociais e uma cultura comunitária duradoura.
Wang descreveu o nome chinês de Melbourne, "Nova Montanha de Ouro", como um eco histórico da era da corrida do ouro, quando um grande número de mineiros chineses chegou em busca de oportunidades e muitos se estabeleceram permanentemente.
A galeria também aborda os capítulos mais difíceis: a discriminação contra chineses e as políticas de exclusão que lançaram longas sombras sociais e legais. Para Wang, isso é indispensável para a narrativa. Explica tanto as barreiras enfrentadas pelas comunidades chinesas quanto a resiliência que forjaram ao longo de gerações.
Ele observou que os australianos de origem chinesa contribuíram muito além das minas, por meio de pequenos negócios, agricultura, serviço militar, esportes e trabalho beneficente, e gradualmente se tornaram parte integrante da sociedade australiana.
Hoje, muitos australianos de origem chinesa ingressaram em profissões que seus antepassados dificilmente poderiam ter imaginado, à medida que os laços econômicos e culturais entre a Austrália e a China continuam se aprofundando.
O ano de 2025 marcou o 10º aniversário do Acordo de Livre Comércio China-Austrália, com o comércio bilateral ultrapassando 300 bilhões de dólares australianos. A China permanece como o maior parceiro comercial da Austrália há 16 anos consecutivos.
Do amplo arco histórico do terceiro andar, a visita guiada desce para "Em Busca do Ouro: Chineses nos Campos Auríferos da Austrália do Século 19", uma reconstrução imersiva da experiência dos primeiros imigrantes.
Começa com uma cena a bordo de um navio, retratando a viagem de Hong Kong para a Austrália. Wang disse que a jornada podia levar cerca de 60 dias, frequentemente em condições precárias, antes que os imigrantes chegassem à costa australiana.
Ele também observou que a Victoria colonial impôs encargos extras aos imigrantes chineses, incluindo um imposto de 10 libras. Para evitar a taxa, muitos desembarcaram na vizinha Austrália do Sul, onde a cobrança não se aplicava, e então viajaram longas distâncias por terra até os campos auríferos de Victoria.
Ferramentas de mineração, como bateias e berços, juntamente com demonstrações de métodos de canalização de água, revelam as técnicas práticas usadas pelos mineiros chineses. Wang disse que as equipes chinesas eram frequentemente muito organizadas e eficientes, uma produtividade que também gerava ressentimento em zonas de mineração extremamente competitivas.
O ambiente reconstruído dos campos auríferos também enfatiza a vida além da extração: os migrantes cultivavam vegetais e grãos, abriam lojas e restaurantes, estabeleciam espaços para clãs e templos, organizavam apresentações de ópera cantonesa e desenvolviam práticas sociais que sustentavam a vida comunitária em condições difíceis.

Foto de arquivo tirada em 2018 mostra o Dragão do Milênio de terceira geração em exibição no Museu de História Sino-Australiana em Melbourne, Austrália. (Foto de Gui Qin)
A última parada é a Galeria do Dragão, lar de um dos símbolos mais reconhecíveis do museu.
Um dragão de 63 metros serpenteia pelo salão de exposições. Três gerações de dragões aparecem na narrativa do museu: a mais antiga se aposentou, enquanto o Dragão do Milênio, da terceira geração, agora assume as funções de apresentação.
A cada Ano Novo Chinês, disse Wang, o dragão retorna às ruas do bairro chinês de Melbourne com grupos de dança do leão, grupos de lanternas e uma grande procissão com mais de 100 participantes.
Nessa tradição, o dragão simboliza água, renovação, bênção agrícola e novos começos. As imagens do desfile podem incluir criaturas míticas como a fênix, além de referências ao céu, à terra, ao sol e à lua, expressando um ideal de harmonia entre todos os seres.
Exposta nas proximidades, a cabeça do dragão combina características de vários animais. Para Wang, essa forma composta reflete a identidade multifacetada, e a integração gradual, das comunidades diaspóricas em sociedades multiculturais.
Para além dos muros do museu, essa longa história continua moldando os laços contemporâneos entre a Austrália e a China.
Em 2025, mais de 400 mil turistas chineses visitaram Victoria. Para muitos deles, esse museu da memória oferece não apenas uma melhor compreensão da história sino-australiana, mas também uma visão mais clara das comunidades que ajudam a moldar a Austrália contemporânea.
Em uma cidade onde Chinatown é frequentemente retratada em fotos de festivais, o museu convida a uma leitura mais atenta, uma leitura que contempla não apenas os símbolos, mas as pessoas, as histórias e as gerações por trás deles.
Por trás de uma porta discreta em um beco, essa longa história continua: não apenas como uma lembrança, mas como parte de uma relação em constante evolução entre comunidades, cidades e países.

