
Foto tirada em 16 de junho de 2025 mostra pessoas visitando o Mercado de Porcelana em Iznik, Turquia. (Xinhua/Liu Lei)
Iznik, Turquia, 25 jul (Xinhua) -- Sentado em sua bancada de madeira, cercado por paredes adornadas com azulejos clássicos de cores vibrantes, Mehmet Aras pinta meticulosamente um prato de cerâmica. A cada traço preciso de seu pincel fino, seus pensamentos voltam à infância, na década de 1980, quando ele desenterrava cacos de cerâmica coloridos enquanto brincava nos jardins exuberantes de Iznik.
"No período otomano, as peças defeituosas eram enterradas no solo", recordou Aras, instrutor de Arte e Design de Azulejos na Escola Profissionalizante de Iznik. "Costumávamos encontrar esses fragmentos e brincar com eles, sem saber que faziam parte do nosso patrimônio cerâmico centenário".
No auge de sua produção, a cerâmica de Iznik era uma joia da coroa do Império Otomano, combinando influências chinesas com motivos tradicionais. No entanto, após a interrupção do ofício no século 17, a cidade já não contava com nenhuma oficina ativa na década de 1980. Embora as últimas décadas tenham trazido uma retomada, esse ressurgimento ocorreu de maneira desordenada, e o "DNA"químico exato das antigas obras-primas permanece perdido.

Foto tirada em 16 de junho de 2025 mostra peças de porcelana em exposição no Mercado de Porcelana em Iznik, Turquia. (Xinhua/Liu Lei)
A visão de Aras para recuperar esse patrimônio se consolidou durante uma visita recente a Jingdezhen, a renomada capital da porcelana na China.
Ele ficou muito impressionado com o Banco de Genes de Porcelana Antiga do Instituto do Forno Imperial de Jingdezhen, uma vasta instalação que analisa fragmentos de cerâmica antiga para decifrar sua composição química exata, as receitas de esmalte e as temperaturas de queima, mapeando o "DNA"da porcelana histórica chinesa.
A eficácia do modelo de preservação de Jingdezhen foi demonstrada ao mundo no sábado, quando a UNESCO incluiu oficialmente os Sítios da Indústria de Porcelana Artesanal de Jingdezhen em sua Lista do Patrimônio Mundial.
Essa experiência inspirou Aras a propor um "centro de referência"semelhante para proteger a histórica tradição de fabricação de azulejos de Iznik contra a crescente comercialização, ao mesmo tempo em que evidenciou a carência da cidade em termos de documentação de seu próprio patrimônio cerâmico.
"Ao longo dos cerca de 300 anos de história da cerâmica de Iznik, a argila, a barbotina e os esmaltes passaram por constantes transformações, desde o surgimento do ofício até seu declínio", disse Aras. "Em Jingdezhen, cada etapa dessa evolução está registrada. Mas aqui, os dados que temos são extremamente insuficientes. Por incrível que pareça, Iznik ainda não possui sequer um museu dedicado aos seus azulejos".

Um artesão pinta uma peça de porcelana bruta em Iznik, Turquia, em 9 de maio de 2025. (Xinhua/Liu Lei)
O apelo por uma preservação mais robusta encontra eco entre os artesãos locais. Asiye Caliskan, uma mestra artesã com 24 anos de experiência formada pelo sistema tradicional de aprendizado, disse que o renascimento dos azulejos de Iznik, iniciado na década de 1980, dependeu em grande parte de esforços individuais, resultando em um setor fragmentado.
"Na era otomana, esse ofício contava com o patrocínio real. Hoje, precisamos de uma política estatal abrangente", disse Caliskan à Xinhua.
Ela disse que apenas algumas poucas oficinas em Iznik ainda produzem cerâmica a partir de matérias-primas, enquanto a maioria simplesmente decora peças em biscoito fabricadas industrialmente.
Um centro apoiado pelo Estado, inspirado no modelo de Jingdezhen, poderia ajudar a preservar técnicas tradicionais, estabelecer padrões de qualidade e diferenciar os produtores autênticos dos fabricantes de lembranças comerciais, acrescentou ela.

Foto composta mostra peças de porcelana desenterradas no sítio dos fornos imperiais em Jingdezhen, na província de Jiangxi, leste da China. (Xinhua)
Reforçando essa necessidade urgente, a veterana artesã Rahime Aras, com quase quatro décadas de experiência, disse que dominar a produção autêntica de azulejos de Iznik exige anos de prática, não bastando apenas abrir uma oficina.
"É preciso haver um padrão adequado", alertou ela, observando que a produção descontrolada tem comprometido a verdadeira qualidade da cerâmica.
Já começam a surgir sinais de uma sinergia crescente entre Jingdezhen e Iznik. Um novo centro de porcelana e cerâmica tem inauguração prevista em Iznik para o final deste ano, marcando um passo concreto rumo à institucionalização desse ofício por meio de inspiração internacional.
Para Mehmet Aras, em última análise, o proposto "centro de referência"não visa apenas preservar o passado, mas garantir o futuro. Sem uma indústria estruturada, alertou ele, se torna cada vez mais difícil atrair jovens talentos que necessitam de uma fonte de renda segura.
"Se conseguirmos alicerçar esse ofício em bases sólidas e em uma política de Estado clara, como ocorre na China, seu futuro se tornará previsível", disse Aras. "Só então poderemos dar continuidade ao legado de Iznik com confiança".









