
Pessoas apreciam a vista do Kremlin e a paisagem do Rio Moscou a bordo de barcos em Moscou, Rússia, em 23 de julho de 2026. (Xinhua/Feng Kaihua)
Moscou, 14 ago (Xinhua) -- O presidente russo, Vladimir Putin, realizou na quinta-feira sua primeira visita às Ilhas Curilas do Sul, conhecidas no Japão como Territórios do Norte, e fez comentários contundentes sobre as relações entre a Rússia e o Japão.
O que Putin fez durante a visita? Quais considerações estão por trás de sua viagem? Como o Japão reagiu e o que a visita significa para o futuro dos laços russo-japoneses?
O QUE ACONTECEU
Putin está em uma viagem pelas regiões da Sibéria e do Extremo Oriente da Rússia. Na quarta-feira, ele embarcou no Varyag, o cruzador de mísseis capitânia da Frota do Pacífico, em Yuzhno-Sakhalinsk, no centro administrativo da região de Sacalina, onde acompanhou a etapa final dos exercícios da Frota do Pacífico e se reuniu com comandantes de alto escalão da frota.
Na quinta-feira, Putin desembarcou em Iturup, a maior das Ilhas Curilas do Sul. Ele visitou uma fábrica de processamento de pescado, uma escola local e um hospital. Imagens divulgadas pelo Kremlin mostram Putin conversando com moradores e comentando sobre o "bom tempo".
Durante uma reunião com o governador de Sacalina, Valery Limarenko, Putin analisou o desenvolvimento econômico da região, incluindo o impacto das flutuações na taxa de câmbio do rublo na economia local.
Segundo a agência russa de notícias TASS, a visita marca a primeira ida de Putin às ilhas. Outros presidentes e primeiros-ministros russos visitaram o arquipélago diversas vezes. Dmitry Medvedev realizou quatro visitas, uma como presidente e três como primeiro-ministro, enquanto o atual primeiro-ministro, Mikhail Mishustin, também visitou as ilhas.
MENSAGEM AO JAPÃO
A disputa territorial pelas Ilhas Curilas do Sul permanece como um dos principais pontos de atrito nas relações entre a Rússia e o Japão.
A disputa de longa data tem impedido Moscou e Tóquio de assinarem um tratado de paz pós-Segunda Guerra Mundial. As sanções do Japão contra Moscou devido à crise na Ucrânia paralisaram as negociações bilaterais sobre as ilhas.
Ao acompanhar exercícios militares em Yuzhno-Sakhalinsk, Putin relembrou que a Rússia já manteve um engajamento construtivo com líderes japoneses, incluindo o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, antes de Tóquio mudar sua política em relação a Moscou.
Durante a administração de Abe, os dois lados deixaram de lado as divergências territoriais para promover o comércio e a cooperação econômica, e Abe participou de várias edições do Fórum Econômico Oriental em Vladivostok.
Em seu recém-publicado Livro Branco de Defesa, o Japão classificou a Rússia como uma grande ameaça pela primeira vez, embora "nós não representemos uma ameaça ao Japão. Não temos absolutamente nenhuma reivindicação contra ele", disse Putin.
O Japão continua insistindo em reivindicações territoriais sobre as Ilhas Curilas do Sul, disse ele, observando que o status atual das Ilhas Curilas do Sul "está consagrado em documentos internacionais como uma realidade decorrente do desfecho da Segunda Guerra Mundial".
"Mas, mesmo assim, a Rússia estava preparada para buscar uma solução com o objetivo de concluir um tratado de paz com o Japão", disse ele.
Analistas dizem que a visita e as declarações de Putin combinam uma mensagem firme ao Japão com certo grau de abertura tática. Moscou parece interessada em manter abertos os canais de diálogo, ao mesmo tempo em que busca concessões japonesas quanto às sanções e uma possível retomada da cooperação econômica.

Pessoas caminham por uma rua em Tóquio, Japão, em 18 de maio de 2026. (Xinhua/Jia Haocheng)
REAÇÃO DO JAPÃO
Em uma coletiva de imprensa na quinta-feira, a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi "protestou veementemente" contra a visita de Putin às ilhas em disputa, a qual ela classificou como "absolutamente inaceitável".
A visita de Putin "é incompatível com a posição consistente do governo do Japão sobre os Territórios do Norte", disse Takaichi.
"Essa visita endureceu ainda mais o sentimento público em relação à Rússia no Japão e tornou mais difícil restaurar as relações entre Japão e Rússia a médio e longo prazo", acrescentou ela.
No mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores do Japão, Toshimitsu Motegi, convocou o embaixador russo em Tóquio para apresentar um protesto formal sobre a visita de Putin.
O governo japonês planeja avaliar contramedidas em relação à visita de Putin, informou a emissora pública do Japão, NHK, na manhã de sexta-feira, acrescentando que uma medida possível é o endurecimento das sanções que Tóquio já impôs a Moscou.
SEM PERSPECTIVAS DE UMA RÁPIDA NORMALIZAÇÃO
As relações entre a Rússia e o Japão sofreram uma deterioração acentuada desde 2022. O Japão impôs sanções abrangentes à Rússia devido à crise na Ucrânia. As conexões aéreas diretas foram interrompidas, e o comércio e os investimentos bilaterais sofreram uma forte retração.
Moscou protestou contra o fornecimento, pelo Japão, de assistência econômica e inteligência geoespacial a Kiev, contra o apoio japonês ao uso de ativos soberanos russos congelados em poder de países ocidentais para ajudar a Ucrânia, e contra a cooperação com a Ucrânia na área de drones.
Em 2022, suspendeu as negociações do tratado de paz com o Japão "porque é impossível discutir esse documento fundamental sobre as relações bilaterais com um Estado que adota uma postura explicitamente hostil e busca prejudicar os interesses do nosso país".
Também foi suspensa a isenção de visto para que ex-moradores japoneses das Ilhas Curilas do Sul pudessem visitar os locais onde viviam anteriormente.
Desde que assumiu o cargo, a pressão da administração Takaichi por uma maior remilitarização tem gerado preocupações de segurança para a Rússia.
No final de julho, o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Andrey Rudenko, argumentou que a postura beligerante das autoridades japonesas afeta negativamente a estabilidade na região da Ásia-Pacífico e compromete diretamente os interesses de segurança dos países vizinhos.
Quanto às relações entre Rússia e Japão, o diplomata disse que os dois países só poderão retomar o diálogo e a cooperação se o Japão der passos concretos para abandonar sua postura antirrussa.
Analistas dizem que as perspectivas de um avanço nas relações entre Rússia e Japão permanecem reduzidas. Nenhum dos lados parece ter muita margem para concessões na disputa territorial, ao passo que o alinhamento do Japão com o Ocidente em relação à crise na Ucrânia torna improvável um abrandamento significativo das sanções contra a Rússia.











