
Foto tirada em 23 de maio de 2025 mostra bandeiras da União Europeia na sede da Comissão Europeia em Bruxelas, Bélgica. (Xinhua/Zhao Dingzhe)
Por trás do progresso limitado da cúpula, havia três desafios urgentes: um orçamento difícil de definir, uma conta crescente com a segurança, complicada por tensões com Washington, e uma crise energética que testa a resiliência econômica da Europa.
Bruxelas, 17 out (Xinhua) -- A cúpula da União Europeia (UE), realizada ao longo de dois dias, terminou em Bruxelas na sexta-feira sem um avanço em relação ao orçamento de longo prazo do bloco. O aumento dos compromissos com a segurança e a disparada dos custos de energia evidenciaram um hiato cada vez maior entre as ambições da Europa e sua capacidade de concretizá-las.
Por trás do progresso limitado da cúpula, havia três desafios urgentes: um orçamento difícil de definir, uma conta crescente com a segurança, complicada por tensões com Washington, e uma crise energética que testa a resiliência econômica da Europa.
NEGOCIAÇÕES ORÇAMENTÁRIAS DIFÍCEIS
A Comissão Europeia propôs um orçamento de quase 2 trilhões de euros (2,24 trilhões de dólares americanos) para o período de 2028 a 2034, buscando ampliar os investimentos em competitividade, defesa e tecnologia.
A proposta de compromisso mais recente, apresentada pela presidência irlandesa, reduziria o montante sugerido pela Comissão em cerca de 141 bilhões de euros (158 bilhões de dólares). Contudo, o plano revisado enfrentou resistência de diferentes lados.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, alertou que esse compromisso reduziria a flexibilidade orçamentária pela metade, deixando 99,5% dos recursos com destinação predefinida.
"Essa proposta nos coloca em uma camisa de força", disse ela.

Foto tirada em 23 de maio de 2025 mostra bandeiras da União Europeia na sede da Comissão Europeia em Bruxelas, Bélgica. (Xinhua/Zhao Dingzhe)
Segundo o think tank Bruegel, sediado em Bruxelas, seis países fiscalmente conservadores, liderados pela Alemanha, defendem um orçamento menor, enquanto 17 nações que compõem o grupo "Amigos da Coesão", incluindo Itália e Espanha, buscam proteger os subsídios agrícolas e os fundos de desenvolvimento regional.
O think tank Bruegel argumentou que ambos os lados apoiam maiores investimentos em prioridades europeias comuns, mas priorizam os próprios interesses nacionais.
A organização classificou a proposta irlandesa como o "pior compromisso possível", alertando que ela poderia deixar prioridades emergentes, como a competitividade e a defesa, com financiamento severamente insuficiente, ao mesmo tempo em que preserva os gastos tradicionais.
Fabian Zuleeg, diretor-executivo e economista-chefe do Centro de Política Europeia, também argumentou que as crescentes necessidades de investimento da Europa não podem, de forma realista, ser financiadas apenas pelos orçamentos nacionais. Ele defende a adoção de mecanismos de financiamento inovadores, incluindo a possibilidade de novos empréstimos contraídos em conjunto.
Diante dessas divergências, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, enfrenta uma tarefa complexa em sua busca por um acordo orçamentário até o final do ano.
CUSTOS CRESCENTES COM SEGURANÇA
As pressões fiscais na Europa são agravadas por custos crescentes com segurança e por divergências com Washington em relação à Ucrânia.
Durante a cúpula, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse que a guerra custaria à Ucrânia 155 bilhões de euros (173 bilhões de dólares) em 2027 e solicitou pelo menos outros 70 bilhões de euros (78 bilhões de dólares) em assistência.
A União Europeia já aprovou um empréstimo de 90 bilhões de euros (100 bilhões de dólares) para o período de 2026-2027. Contudo, as necessidades adicionais de financiamento da Ucrânia ainda estão sob avaliação, com os líderes europeus aguardando mais análises da Comissão Europeia e de instituições financeiras internacionais.
Em suas conclusões finais, o Conselho Europeu expressou, de forma explícita, seu descontentamento com a decisão dos Estados Unidos de suspender temporariamente as sanções contra o diesel russo, uma medida que também foi criticada por Zelensky.
Paralelamente, restrições recentes ao serviço de comunicações via satélite Starshield, controlado pelos EUA, prejudicaram as operações militares ucranianas, evidenciando mais uma vulnerabilidade nas capacidades de segurança da Europa.
"O Starlink é essencial para a Ucrânia e, infelizmente, a Europa não consegue substituir essa capacidade no curto prazo", reconheceu Kaja Kallas, chefe da diplomacia da UE, na sexta-feira.
Analistas observaram que este episódio evidencia a dependência europeia de tecnologias militares críticas dos EUA, em um momento em que as divergências transatlânticas sobre a Ucrânia se tornam mais acentuadas.
Para a Europa, o dilema é cada vez mais evidente: maiores responsabilidades na área de segurança exigem recursos adicionais, ao passo que algumas das capacidades que sustentam esses compromissos permanecem fora de seu controle imediato.
DISPARADA DOS CUSTOS DE ENERGIA
A energia se tornou mais uma fonte de pressão financeira. Segundo von der Leyen, o conflito no Oriente Médio acrescentou 106 bilhões de euros (119 bilhões de dólares) à conta de importação de combustíveis fósseis da UE, evidenciando a vulnerabilidade da Europa a choques energéticos externos.
A Agência Internacional de Energia está acelerando a liberação de estoques emergenciais de petróleo, incluindo diesel, com planos de colocar mais 100 milhões de barris no mercado ao longo de quatro meses. Paralelamente, Bruxelas busca oferecer apoio temporário a indústrias de uso intensivo de energia, além de implementar medidas para aprimorar a capacidade de refino.
No entanto, a cúpula revelou divergências sobre até que ponto as políticas climáticas deveriam ser ajustadas para aliviar os custos imediatos.

Foto tirada em 31 de março de 2026 mostra um painel de preços em um posto de combustível em Roma, Itália. (Xinhua/Li Jing)
Itália, Grécia e os quatro países do Grupo de Visegrado defenderam o adiamento do segundo sistema de comércio de emissões da UE (ETS2), para 2030, argumentando que a precificação do carbono imporia ônus adicionais a famílias e empresas.
Contudo, os países nórdicos resistiram, preocupados com o fato de que um enfraquecimento do sistema poderia comprometer a segurança dos investimentos e os objetivos climáticos de longo prazo.
A cúpula terminou sem um acordo sobre um novo adiamento. Em vez disso, os líderes solicitaram uma avaliação atualizada sobre a estrutura, o impacto e as salvaguardas do ETS2.
Pesquisadores do Conselho Europeu das Relações Exteriores argumentaram que a transição verde da Europa enfrenta uma resistência política crescente, impulsionada pela insegurança econômica, por interesses nacionais conflitantes e pela forma como os custos são distribuídos.
A disputa reflete um dilema complexo: aliviar as pressões energéticas atuais pode enfraquecer os incentivos para investimentos de longo prazo, enquanto a manutenção de políticas climáticas ambiciosas traz o risco de aumentar o peso sobre empresas e famílias.
Para os líderes europeus, chegar a um consenso sobre metas comuns continua sendo mais fácil do que decidir quem deve arcar com os custos para alcançá-las.







