Vitória dos democratas reflete insatisfação dos eleitores americanos, mas dificilmente mudará a política de Trump para o Oriente Médio-Xinhua

Vitória dos democratas reflete insatisfação dos eleitores americanos, mas dificilmente mudará a política de Trump para o Oriente Médio

2026-11-07 09:44:35丨portuguese.xinhuanet.com

Foto tirada em 3 de novembro de 2026 mostra o Capitólio dos EUA em Washington, D.C., nos Estados Unidos. (Xinhua/Li Rui)

Por Mahmoud Fouly

Cairo, 5 nov (Xinhua) -- A vitória expressiva dos democratas nas eleições de meio de mandato nos EUA reflete a insatisfação generalizada com as políticas interna e externa do presidente Donald Trump, sobretudo em razão dos custos econômicos dessas políticas, mas dificilmente provocará mudanças fundamentais em sua política para o Oriente Médio, disseram especialistas políticos.

Nas eleições de terça-feira, os democratas conquistaram vitórias em estados tradicionalmente republicanos, incluindo Texas, Kansas e Carolina do Sul, e obtiveram maiorias tanto no Senado quanto na Câmara dos Representantes, encerrando o controle republicano sobre o Congresso.

A previsão é que o novo Congresso tome posse em janeiro.

INSATISFAÇÃO PROFUNDA

Maged Botros, professor de ciência política na Capital University, no Egito, descreveu o resultado como um "voto de punição" contra Trump. Segundo ele, os eleitores reagiram ao aumento do custo de vida, bem como à insatisfação com a condução da política externa, incluindo a guerra com o Irã.

"O fator determinante mais importante são as condições econômicas internas", disse Botros à Xinhua, acrescentando que os conflitos com outros países e os custos de intervenções militares no exterior agravaram a frustração dos eleitores.

Saeed Okasha, especialista político e pesquisador do Centro Al-Ahram de Estudos Políticos e Estratégicos, sediado no Cairo, disse que os resultados "não foram uma surpresa", dada a crescente pressão econômica interna e a queda na popularidade de Trump antes do pleito.

"O que move os eleitores americanos são os preços de bens e serviços", disse Okasha, acrescentando que "a indignação com as políticas externas de Trump transformou-se em descontentamento interno, afetando, consequentemente, os resultados das eleições para o Congresso".

Pesquisas de opinião pública destacaram o papel das preocupações econômicas e da oposição à guerra contra o Irã. Uma pesquisa da Reuters/Ipsos com 1.765 adultos americanos, realizada entre 29 de outubro e 2 de novembro, revelou que 48% dos eleitores registrados apontaram o custo de vida como a principal questão que influenciaria seu voto, em comparação com 26% que mencionaram a situação da democracia e 13% que citaram a imigração.

Uma mulher entra em um local de votação em Arlington, na Virgínia, nos Estados Unidos, em 3 de novembro de 2026. (Xinhua/Li Rui)

Uma pesquisa nacional de boca de urna da emissora americana NBC News, realizada na terça-feira, constatou que 63% dos eleitores acreditavam que os Estados Unidos tomaram a decisão errada ao realizar uma ação militar contra o Irã.

Resta saber, no entanto, se esse descontentamento se traduzirá em restrições ao processo de tomada de decisão militar dos EUA.

Okasha argumentou que as preocupações econômicas dos eleitores não significam, necessariamente, que eles se oporiam a uma ação militar contra o Irã, caso essa fosse considerada necessária. Botros, por sua vez, enfatizou o que descreveu como uma aversão de longa data dos americanos a intervenções militares dispendiosas no exterior.

IMPACTO LIMITADO NA POLÍTICA PARA O ORIENTE MÉDIO

Apesar do revés sofrido pelos republicanos, não é esperado que o controle democrata no Congresso resulte, automaticamente, em uma mudança significativa na política dos EUA para o Oriente Médio.

"A questão não é tão simples a ponto de dizer que vencer as eleições significa controlar o processo de tomada de decisão americano", disse Okasha. Ele apontou para a existência de interesses conflitantes, grupos de lobby poderosos e divisões dentro do Partido Democrata, especialmente no que diz respeito à segurança nacional e à política externa.

Laurel Rapp, diretora do Programa para os EUA e América do Norte no think tank Chatham House, sediado em Londres, disse à rede de televisão americana CNBC na quarta-feira que, embora Trump possa enfrentar maiores restrições devido à fiscalização e às investigações do Congresso, ele ainda manterá uma margem de manobra considerável na política externa.

Okasha observou que a ala progressista do Partido Democrata talvez defenda uma abordagem diferente para o Oriente Médio, mas os membros mais moderados não estão, necessariamente, inclinados a adotar políticas conciliatórias em questões de segurança nacional. Alguns democratas, acrescentou ele, ainda poderiam apoiar uma postura mais rígida em relação ao Irã.

Ele também mencionou que o próprio Trump parece preferir exercer pressão econômica sobre o Irã, em vez de recorrer a novas ações militares.

O presidente dos EUA, Donald Trump, fala à imprensa no gramado sul da Casa Branca, em Washington, D.C., nos Estados Unidos, em 1º de maio de 2026. (Foto de Li Yuanqing/Xinhua)

Botros observou que, embora o sistema constitucional dos EUA preveja mecanismos de freios e contrapesos ao poder presidencial, Trump ainda dispõe de amplos poderes por meio de ordens executivas e acordos, além de seu poder de veto sobre a legislação.

O controle de ambas as casas permitirá aos democratas bloquear projetos de lei, fiscalizar o governo e influenciar decisões sobre gastos e nomeações. No entanto, para derrubar um veto presidencial, é necessária uma maioria de dois terços em cada uma das casas, um patamar que, segundo especialistas, dificilmente será alcançado pelos democratas.

Uma análise da Brookings Institution, publicada no final de outubro, observou que, mesmo com uma nova maioria, seria improvável que os democratas obtivessem o apoio de dois terços necessário para derrubar um veto presidencial.

Ahmed Youssef, professor de ciência política na Universidade do Cairo, disse que a mudança no equilíbrio de poder no Congresso teria impacto, mas que uma alteração repentina nas políticas de uma grande potência seria improvável.

"Grandes potências baseiam suas políticas em considerações objetivas", disse Youssef, acrescentando que a postura de confronto de Trump e sua disposição em utilizar os poderes presidenciais poderiam levar a disputas recorrentes com os legisladores.

"Espero que os dois últimos anos do mandato de Trump sejam marcados por muitos confrontos entre a Presidência e o Legislativo", disse Youssef à Xinhua. "Confronto, mas não mudança fundamental".

Fale conosco. Envie dúvidas, críticas ou sugestões para a nossa equipe através dos contatos abaixo:

Telefone: 0086-10-8805-0795

Email: portuguese@xinhuanet.com