
Músico e professor voluntário Antônio da Silva (direita) dá aula para jovens da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, Brasil, em 25 de agosto. (Xinhua/Wang Tiancong)
Rio de Janeiro, 28 ago (Xinhua) -- Em um prédio da Cidade de Deus, bairro localizado na zona oeste do Rio de Janeiro, Márcio dos Santos, um menino de 15 anos, está praticando bateria sob a orientação do músico e professor voluntário Antônio da Silva.
O menino só começou a tocar bateria em fevereiro deste ano. Com cerca de meio ano apenas, ele já é capaz de tocar tanto o ritmo do rock, quanto o do samba. Trata-se apenas de mais um dia comum deste bairro carioca que ficou conhecido pela televisão, cinema e redes sociais como um dos mais violentos do Rio. Especialmente, os problemas da Cidade de Deus acabaram sendo conhecidos internacionalmente em razão do lançamento do filme indicado ao Oscar em 2002 que leva o mesmo nome.
Em agosto deste ano, foi divulgado em diversos veículos da imprensa brasileira que "Cidade de Deus", dirigido pelos cineastas Fernando Meirelles e Kátia Lund, tornou-se o segundo filme não proveniente dos EUA mais visto em todo o mundo, conforme um levantamento realizado por uma plataforma de aprendizagem de idiomas online que analisou as produções mais populares do IMDb, uma das bases de dados sobre cinema, TV, música e games mais conhecidas do mundo. Apesar da fama negativa, e do contexto repleto de contrastes e da violência, os moradores da Cidade de Deus hoje buscam transformar a realidade do local para melhor, mesmo sem ajuda governamental, privada, ou até de ONGs que muitas vezes relutam em estabelecer programas sociais na comunidade em razão de questões de segurança.
Não muito longe da aula de bateria de Márcio, há uma pequena praça onde os traficantes costumam fazer comércio à noite. Antes de entrar na Cidade de Deus, os repórteres da Xinhua foram orientados a não filmar aleatoriamente, e não andar à vontade, seguindo sempre o guia. Contudo, é também possível observar que este é apenas um lado da rotina dos habitantes. Ao final, muitas crianças esperam ir para a faculdade e melhorar de vida, o que levou as pessoas da comunidade a espontaneamente organizarem e estabelecerem vários projetos sociais.
No espaço público cedido pela prefeitura, mas totalmente administrado e custeado pelos moradores, funciona uma escola de música lecionada por voluntários.
No dia que a equipe da Xinhua visitou a comunidade, seis alunos, com entre 8 e 16 anos, praticavam bateria com Márcio que vem todas as quintas-feiras à tarde para uma lição de duas horas: "De manhã a gente faz um curso, à tarde faz uma aula de música para distrair a cabeça, e escolhi a bateria porque eu já tocava alguns instrumentos. Eu já toquei trompete, caixa, tamborim, e eu quis aprender agora a bateria...Já participei de algumas apresentações comunitárias noturnas, mas ainda não saí do Rio e adoraria visitar outros países no futuro."
As aulas de bateria fazem parte do projeto Toca o Som, onde o idealizador, filantropo e músico Sérgio Freitas também ensina violão. "Nosso objetivo é fazer com que as crianças da comunidade tenham como descobrir e desenvolver os seus talentos e, assim, possam ter mais oportunidades e uma vida melhor no futuro", afirmou.
Freitas também disse aos repórteres que as guitarras, bateria e outros instrumentos musicais da sala de aula foram doados e os professores são todos voluntários, de forma que mesmo com recursos escassos, o projeto pode continuar. "Quando iniciei este projeto, outras pessoas me procuraram querendo dar aulas de outras áreas: desenho, matemática para autistas, maquiagem, barbearia, cabeleireiro, massoterapia e há quem ofereça aulas para alfabetização. Estamos provendo oportunidades e cultura para uma localidade em que as condições ainda são precárias."
"Filantropia é paixão e com ações voluntárias é possível construir um mundo melhor, já que não se está preocupado com dinheiro, mas sim com o valor de auxiliar o próximo, levando esperanças aos que precisam".
Este também parece ser o lema do professor de bateria Antônio que disse: "Eu vim aqui para dar aula de graça, quando soube que queriam oferecer aula de bateria. Ver as crianças ganhando a vida com a música é a melhor coisa para mim. Se puderem se tornar baterista no futuro, eu definitivamente ficarei orgulhoso deles."
Há outro projeto social promovido pelo Instituto Arteiros, que funciona em um prédio abandonado de uma creche pública, com teatro, aulas de inglês e de reforço escolar para o vestibular. O instituto tem sede na Cidade de Deus e é reconhecido internacionalmente por inserir a cultura, a arte e suas vertentes na comunidade, além de sua luta constante para pôr fim ao estigma da violência incutido em uma imagem negativa propagada pela mídia em geral.
Rodrigo Felha, fundador do Arteiros, enfatiza que sempre teve em conta o potencial criador e transformador da favela, ainda que ela não tenha a visibilidade que merece. Desde a fundação do Instituto, há mais de uma década, ele coleciona prêmios pelos trabalhos realizados. O seu objetivo é estimular o autoconhecimento e o pensamento crítico, elevar o interesse pela leitura, ativar a criatividade e ajudar na interação entre os alunos. Os Arteiros é um grupo teatral do Instituto que desenvolve aulas de artes cênicas, leitura dramatizada, postura teatral e improvisação, voltadas às crianças com idades entre 7 e 15 anos. Felha é também um diretor de cinema, cujos vários documentários sobre a vida na favela foram veiculados em emissoras de TV locais e no Festival de Cinema do Rio, o que lhe rendeu o prêmio de melhor documentário.
"Acho tivemos sucesso ao longo deste tempo de trabalho. Ao acompanhar o progresso individual de uma criança, observamos que ela auxilia a todos que estão ao seu redor, na escola e na família. Nosso foco é o público infantil, mas também trabalhamos com adultos, oferecendo cursos para pré-vestibular e até teatro, pois acreditamos na transformação em qualquer idade. Infelizmente, sempre colocaram a violência em primeiro plano ao retratar a vida nas favelas. Eu admiro o filme 'Cidade de Deus' e sei da importância da obra para o cinema brasileiro, mas é preciso dizer também que a produção afetou a comunidade ao enfatizar a violência, seguindo uma prática que outros meios já faziam".
Felha também faz questão de salientar que os moradores das favelas não são coniventes com o crime e que a condição de terem de conviver com o tráfico é uma consequência da realidade social. Ele ainda lembra que a Cidade de Deus também precisa lidar com a ausência do poder público que a enxerga como um território violento a ser combatido apenas com armas. "Infelizmente não temos apoio do governo para nossos projetos, mas não queremos ajuda de traficantes. Já é o bastante que eles não interfiram em nossas atividades. Estamos aqui fazendo o nosso trabalho, tentando transformar e mudar de fato a questão da violência. A vida aqui pode ser normal, as crianças vão à escola, as pessoas vão trabalhar, vão se divertir. Vamos lembrar que apesar de sofrermos com a pobreza e, especialmente, com a falta de alimentos, o sentimento comunitário e coletivo aqui é forte. Isso é algo que você não encontra necessariamente nas partes mais ricas do Rio, onde muitas vezes um vizinho não conhece o outro. É preciso lembrar que uma criança pode um dia ser um gari, um ator ou até um astronauta, mas o mais importante é que ela seja um ser humano melhor, que possa ser capaz de dialogar e se expressar melhor. Esta é a nossa forma de combater a violência e a falta de oportunidade".
Matheus Sebastian, de 14 anos, aluno de teatro, conta que começou com nove anos e que com dez entrou para o Arteiros. "Gosto muito de teatro, cinema e televisão. Espero um dia poder garantir o meu sustendo com o que amo. Meu desejo por fazer teatro vem desde nove. Comecei com sete anos a dançar e imitava bastante gente. No futuro gostaria de viver da carreira de ator".
Matheus também sabe que existem poucos atores que podem ser bem-sucedidos, então ele também tem aulas de inglês no Arteiros, esperando que possa ser admitido na universidade: "Eu tenho interesse também em estudar fontes energéticas como o petróleo, além do meu interesse por medicina veterinária ou relações internacionais. Hoje minha rotinha inclui atividades diferentes no Arteiros. Não sinto falta de ter tempo livre".
A amiga de Matheus, Mirella dos Santos, de 14 anos, também estuda teatro e tem o mesmo sonho e esperança de atuar. "Eu gosto muito de comédia e filmes em geral, por isso vim fazer teatro. Quero ser advogada e ser atriz. Aqui no Arteiros tem um pessoal que já fez novela, já participou de filmes. Ser atriz sempre é difícil, mas não é impossível. E mesmo assim, o que aprendemos no teatro podemos levar para vida".
Ainda que o quadro real possa ser desestimulante, a comunidade da Cidade de Deus segue com o seu propósito. Recentemente, o Instituto Arteiros assinou um acordo com o Festival Rock in Rio para realizar apresentações em um espaço no evento que atrai amantes da música de todo o mundo. Felha e seus assistentes estão em contato com os organizadores para estabelecer os detalhes da apresentação nestes dias e acreditam que os talentos das crianças da Cidade de Deus serão vistos por mais pessoas.

Matheus Sebastian, de 14 anos, ensaia com colega na Cidade de Deus, bairro localizado na zona oeste do Rio de Janeiro, Brasil, em 25 de agosto. (Xinhua/Wang Tiancong)

Márcio dos Santos, de 15 anos, pratica bateria na Cidade de Deus, zona oeste do Rio de Janeiro, Brasil, em 25 de agosto. (Xinhua/Wang Tiancong)

