
Foto tirada em 31 de julho de 2025 mostra rua de Maseru, Lesoto. (Xinhua/Wang Guansen)
Autoridades e especialistas africanos alertaram que a imprevisibilidade da política comercial dos EUA aumenta as incertezas quanto ao desenvolvimento do continente, enquanto ressalta a necessidade de uma resposta estratégica e coordenada entre os países africanos.
Nairóbi, 7 ago (Xinhua) -- As novas tarifas de Washington sobre quase 70 países, incluindo cerca de 20 na África, devem entrar em vigor após o presidente dos EUA, Donald Trump, assinar um decreto na última quinta-feira.
Um comunicado da Casa Branca estipulou taxas de 15% para países como Lesoto, Madagascar e Nigéria. Líbia, África do Sul e alguns outros países enfrentam taxas de 30%, que entraram em vigor sete dias após a data da ordem.
Autoridades e especialistas africanos alertaram que a imprevisibilidade da política comercial dos EUA aumenta as incertezas quanto ao desenvolvimento do continente, enquanto ressalta a necessidade de uma resposta estratégica e coordenada entre os países africanos.
DESAFIO PARA ECONOMIAS FRÁGEIS
Em julho, em meio ao rigoroso inverno do Hemisfério Sul, trabalhadores têxteis percorreram uma zona industrial de Maseru, capital do Lesoto, em busca de novos empregos.

Trabalhadores passam jeans na fábrica Afri-Expo Textile em Maseru, capital do Lesoto, em 29 de julho de 2025. (Xinhua/Wang Guansen)
Situado no sul da África, o Lesoto é uma das nações menos desenvolvidas do mundo, com quase metade de sua população vivendo abaixo da linha da pobreza e a taxa de desemprego em torno de 25%.
O regime tarifário dos EUA deu um duro golpe na indústria têxtil do país, disse Mokhethi Shelile, ministro do Comércio, Indústria, Desenvolvimento Empresarial e Turismo do Lesoto, em entrevista recente à Xinhua.
Os têxteis são um pilar da economia do Lesoto, já que o país é um dos maiores exportadores de vestuário da África para os Estados Unidos. Mas, desde que a tarifa foi anunciada, muitos pedidos foram cancelados, o que pode deixar cerca de 13.000 trabalhadores desempregados.
De acordo com Teboho Kobeli, chefe da Afri-Expo Textile, uma das maiores empresas têxteis do Lesoto, o cancelamento repentino dos pedidos causou uma grande interrupção, mesmo que as exportações com destino aos EUA representem apenas 10% da produção total. "Demitimos quase 500 trabalhadores para aliviar a pressão financeira".

Foto tirada em 26 de março de 2025 mostra vista aérea do Lago Anosy e seus arredores em Antananarivo, capital de Madagascar. (Xinhua/Li Yahui)
Em Madagascar, o setor de baunilha foi diretamente afetado. Contribuindo com cerca de um quarto da receita de exportação do país, o setor depende fortemente do mercado americano, que consome aproximadamente 70% das exportações de baunilha de Madagascar.
"O preço atual da baunilha já está baixo", observou Noe Rene Solo, diretor de agricultura e pecuária da região de Atsinanana, uma das principais zonas produtoras de baunilha de Madagascar.
Se novas tarifas forem impostas, alertou ele, os preços poderão cair mais, desencorajando os agricultores e potencialmente levando ao abandono das plantações de baunilha.
RUMO À AUTOSSUFICIÊNCIA
Diante dessa crescente incerteza, especialistas pedem uma integração econômica mais rápida em toda a África para fortalecer a resiliência do continente.
"Na Tanzânia, a participação das exportações, como materiais de construção e produtos agrícolas, para vizinhos como Ruanda, Burundi e República Democrática do Congo tem aumentado constantemente. Isso fornece uma proteção contra dependências externas", disse Humphrey Moshi, professor de economia e diretor do Centro de Estudos Chineses da Universidade de Dar es Salã, na Tanzânia.
A Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA), que começou a ser negociada em 2021, está emergindo como uma alavanca fundamental.

Pessoas visitam estandes no Pavilhão da China na 49ª Feira Internacional de Comércio de Dar es Salã (DITF, na sigla em inglês), em Dar es Salã, Tanzânia, em 6 de julho de 2025. (Xinhua/Emmanuel Herman)
De acordo com Balew Demissie, pesquisador do Instituto Etíope de Estudos Políticos, o fortalecimento do comércio regional por meio de estruturas como a AfCFTA pode incentivar o comércio dentro da África, impulsionar o crescimento industrial e promover a diversificação, que atua como uma rede de segurança contra interrupções no comércio global e reduz a dependência externa.
Carlos Lopes, ex-secretário-executivo da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África, pediu "uma mudança de mentalidade" entre os formuladores de políticas africanas para que superem a visão da integração nas cadeias globais de valor como o objetivo final.
"O objetivo deve se concentrar em aumentar a agregação de valor doméstico, investir em infraestrutura regional e expandir economias de escala para fortalecer a posição de negociação dos países africanos no cenário global", acrescentou ele.
EXPANSÃO DO ALCANCE GLOBAL
Como maior produtor de café da África e quinto maior exportador mundial de grãos Arábica, a Etiópia está buscando mercados alternativos em resposta à tarifa de 10% dos EUA.
O governo etíope não aceitará decisões que prejudiquem o setor cafeeiro, disse Shafi Umer, vice-diretor-geral da Autoridade Etíope de Café e Chá (ECTA, na sigla em inglês), alertando que a política tarifária do governo Trump pode reduzir cerca de 35% da receita de exportação de café do país.

Um funcionário torra grãos de café em uma fábrica em Adis Abeba, Etiópia, em 18 de dezembro de 2024. (Xinhua/Wang Guansen)
A ECTA está se esforçando para fortalecer os laços comerciais com mercados atuais, como China, Japão, Arábia Saudita, Alemanha e Itália, enquanto busca novas oportunidades nas regiões do Extremo Oriente e Oriente Médio. A meta para o atual ano fiscal é expandir as exportações de café para 20 países.
Muitos outros, como a África do Sul, também estão acelerando suas estratégias de diversificação para a Ásia, Europa, Oriente Médio e América do Sul.
Com a cooperação econômica China-África ganhando impulso, a recente decisão da China de estender o tratamento tarifário zero para cobrir 100% das linhas tarifárias de todos os 53 países africanos com relações diplomáticas também foi amplamente acolhida.
Para Emmanuel Yinkfu, um comerciante baseado em Duala, Camarões, a medida é um forte sinal.
"Isso representa uma mudança em direção a uma parceria econômica mais coerente, inclusiva e estratégica (entre China e África)", disse ele.
Joseph Tegbe, diretor-geral da Parceria Estratégica Nigéria-China, acredita que a política desbloqueará oportunidades comerciais e fortalecerá a competitividade industrial em todo o continente. A Nigéria, observou ele, tem muito a ganhar com a política, especialmente em exportações agrícolas, manufatura com valor agregado e parcerias tecnológicas.
Leslie Dwight Mensah, economista ganês do Instituto de Estudos Fiscais, também vê a decisão da China como uma das oportunidades para os países africanos expandirem seu acesso ao mercado externo, assim como uma alternativa para ajudar a compensar as perdas que podem resultar das tarifas americanas.



