
Elyn MacInnis (direita) informa os participantes sobre a busca por expatriados estrangeiros que viveram em Kuliang e seus descendentes na cerimônia de inauguração do Museu da História das Famílias de Kuliang em Fuzhou, província de Fujian, sudeste da China, em 22 de junho de 2024. (Xinhua/Lin Shanchuan)
Por Wang Xiaopeng, Shen Anni e Yao Yuan
Beijing/Fuzhou, 14 ago (Xinhua) -- Em um muro memorial com mais de 8.000 nomes no leste da China, Elyn MacInnis, 73 anos, rapidamente encontrou Mu Airen, o nome chinês de Donald MacInnis. Ela tocou no nome suavemente, como se estivesse cumprimentando um velho amigo.
O muro em Fuzhou, capital da província de Fujian, homenageia heróis que lutaram na Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa, incluindo pessoas do outro lado do Pacífico.
Donald MacInnis, falecido sogro de Elyn, foi um deles. Seu vínculo com a China, notavelmente, se manteve vivo por três gerações em uma família americana e é lembrado na China como prova da amizade China-EUA criada na Segunda Guerra Mundial.
"Don sempre amou a China, e especialmente Fujian", disse Elyn, com os olhos brilhando ao se lembrar do sogro.
Em 1940, cerca de três anos após o início da resistência nacional da China contra a agressão japonesa, Donald, aos 20 anos, viajou sozinho para o país para ensinar inglês por um ano em uma escola de ensino fundamental em Fuzhou.
Depois, ele se juntou à 14ª Força Aérea dos EUA, conhecida como "Tigres Voadores" na China, servindo como "observador costeiro".
Seus esforços de reconhecimento foram como "olhos" para os Tigres Voadores. Sempre que ele e seus camaradas chineses avistavam navios de suprimentos japoneses se aproximando, transmitiam as coordenadas por rádio para o comando de Kunming, no sudoeste da China, alertando-os sobre a oportunidade de ataques de bombardeiros.
A China e os Estados Unidos lutaram juntos contra os fascistas japoneses na guerra e construíram uma forte amizade que resistiu ao teste de sangue e fogo. Mais de 2.000 aviadores dos Tigres Voadores sacrificaram suas vidas na guerra. O povo chinês também prestou assistência aos pilotos americanos a todo custo. Mais de 200 pilotos em perigo foram resgatados, com milhares de chineses sacrificando suas vidas nas operações de resgate.
"Ele entendia os riscos, mas não tinha tanto medo", disse Elyn, revelando que Donald frequentemente relatava o quanto a resiliência unida do povo chinês o impressionava. "A força coletiva deles tocou sua alma".

Elyn MacInnis discursa sobre o vínculo de sua família com Kuliang na 4º edição do Festival Internacional de Turismo da Rota da Seda Marítima (Fuzhou), em Fuzhou, província de Fujian, sudeste da China, em 30 de novembro de 2018. (Xinhua/Lin Shanchuan)
VÍNCULOS DAS COLINAS DE KULIANG
Após a guerra, Donald voltou para os Estados Unidos. Em 1947, ao saber que a Universidade União de Fujian precisava de professores estrangeiros, retornou a Fuzhou com a esposa e o filho e trabalhou lá por alguns anos. No início dos anos 2000, voltou a trabalhar em Fujian como voluntário em uma faculdade local.
O legado de Donald continua vivo por meio das pessoas que ele inspirou. "O espírito de internacionalismo e a dedicação altruísta do professor Mu me guiaram por toda a minha vida", refletiu Chen Shiming, 101 anos, um dos estudantes de Donald na China.
Graças aos esforços incansáveis de Chen, Mu Airen foi o primeiro nome estrangeiro gravado no muro memorial em 2018, juntando-se aos soldados chineses com quem lutou tantos anos atrás.
O amor de Donald pela China foi transmitido a Peter MacInnis, seu segundo filho e marido de Elyn. Peter nasceu em Fuzhou durante a estadia de Donald após a Segunda Guerra Mundial e foi levado para Kuliang, então um retiro de verão para a comunidade estrangeira da cidade, localizado nas montanhas a leste da cidade, quando tinha apenas um mês de idade.
Peter e Elyn se conheceram quando eram estudantes de pós-graduação na Universidade de Harvard e, depois, se apaixonaram e se casaram. Na esperança de um dia ir para a China, Elyn passou a estudar chinês. Mais de dez anos depois, eles se mudaram para Nanquim, na província de Jiangsu, no leste da China, com suas duas filhas, e esse foi o início de sua estadia de 30 anos no país.
Em 2015, Elyn e Peter levaram as cinzas de Donald para Fuzhou e as espalharam no rio Minjiang, realizando o último desejo dele.
Durante essa viagem, Elyn conheceu Kuliang, o que a fez descobrir muitas histórias da comunidade americana de Kuliang, como os ensinamentos do Dr. Harold Brewster sobre técnicas cirúrgicas que salvam vidas.

Foto aérea de drone mostra vista do resort turístico nacional de Kuliang, no distrito de Jin'an, em Fuzhou, província de Fujian, no sudeste da China, em 24 de junho de 2024. (Xinhua/Lin Shanchuan)
Para preservar essas memórias, Elyn fundou os "Amigos de Kuliang" em 2016, unindo cerca de 50 descendentes de famílias americanas de Kuliang. O reencontro teve seu ápice no Fórum "Vínculo com Kuliang" de Fuzhou em 2023, onde Elyn declarou: "Essas histórias comoventes representam gerações de amizade. Agora é nossa vez de alimentar a chama dessa amizade que une nossos dois povos há tanto tempo".
Seus esforços foram reconhecidos na China. Ela foi nomeada uma das "Pessoas do Ano de 2023 do Touching China" e homenageada com o Prêmio Orquídea de Enviada da Amizade em julho deste ano.
O Prêmio Orquídea foi criado para homenagear amigos internacionais que contribuíram para incentivar o intercâmbio cultural entre a China e o resto do mundo.
"Passei grande parte da minha vida construindo pontes entre nossas nações. As pontes não são feitas de aço ou pedra. São construídas por pessoas receptivas e bondosas, e pelas histórias de suas vidas na China que tive o privilégio de compartilhar", disse ela.

Elyn MacInnis (1ª à esquerda) olha um mapa antigo de Kuliang, agora um resort na encosta de uma montanha, em Fuzhou, província de Fujian, no sudeste da China, em 24 de junho de 2023. (Xinhua)
CHAMA DA AMIZADE MANTIDA
Hoje, o legado MacInnis floresce em sua terceira geração. As filhas de Elyn, Ai Zhong e Ai Hua, ambos nomes que significam "amar a China" em chinês, falam chinês fluentemente graças aos seus anos de educação em escolas chinesas. Ai Hua foi pioneira como uma das primeiras apresentadoras de TV bilíngues da China.
Agora as irmãs moram nos Estados Unidos. Ai Hua supervisiona programas de dupla graduação em uma universidade americana, incluindo colaborações com universidades chinesas. Ela usa suas habilidades na língua chinesa para se comunicar e prestar assistência aos estudantes chineses matriculados nesses programas.
O vínculo de décadas dessa família reflete um futuro promissor para os intercâmbios interpessoais entre China e EUA. A base das relações China-EUA está no povo e a fonte de força reside na amizade entre seus povos.
A China anunciou seu plano de convidar 50.000 jovens americanos para visitar e estudar no país ao longo de cinco anos, na esperança de que, por meio da experiência presencial, eles descubram uma China autêntica e, ao mesmo tempo, contribuam para a amizade entre China e EUA.
"A verdadeira conexão é tudo", disse Elyn. "Só nos entendemos de verdade quando passamos tempo juntos".
Agora radicada em Rhode Island, Elyn mantém contato com seus amigos chineses via WeChat e reserva um tempo para vê-los sempre que visita a China. Nos últimos anos, ela gosta de compartilhar suas opiniões sobre os versos da famosa escritora chinesa Bing Xin, que nasceu em Fuzhou e estudou nos Estados Unidos quando jovem.
Inspirada por uma frase famosa, ela concluiu a aceitação do Prêmio Orquídea dizendo: "Quando trilhamos o caminho da amizade, as flores desabrocham".






