
Foto tirada em 11 de janeiro de 2025 mostra carta de agradecimento manuscrita por Thomas Macia, com curadoria da aldeia Qiancun, vila de Wucun, na cidade de Shangrao, província de Jiangxi, no leste da China. (Xinhua/Chen Yushan)
Nanchang, 21 ago (Xinhua) -- Uma exposição especial que destaca o papel extraordinário, embora pouco divulgado, de Shangrao em uma das operações de resgate mais notáveis da Segunda Guerra Mundial, o resgate do Ataque Doolittle, está atualmente aberta à visitação no Museu Shangrao, na província de Jiangxi, no leste da China.
O professor Luo Shiping, que há muito tempo pesquisa os esforços de resgate de Jiangxi relacionados ao Ataque Doolittle, narrou as histórias por trás das fotografias desbotadas em exposição a um grupo recente de visitantes. "Os aviadores americanos que arriscaram suas vidas bombardeando o Japão foram heróis, assim como os chineses que os resgataram", disse ele ao grupo.
Essa exposição especial, a primeira desse tipo realizada na província de Jiangxi, no leste da China, permite aos visitantes entender o papel da cidade no resgate do Ataque Doolittle.
Em 18 de abril de 1942, um grupo de 16 bombardeiros americanos decolou do porta-aviões USS Hornet e atacou cidades japonesas em retaliação ao ataque a Pearl Harbor.
Quando o grupo de aviões virou para o sul após o ataque, ficou sem combustível e caiu em vários locais no leste da China. Moradores locais arriscaram suas vidas para resgatar os aviadores paraquedistas e os ajudaram a ir para um local seguro.
A ideia da exposição começou a tomar forma em 2018, quando Luo se deparou com um cartão de visita desgastado pelo tempo, preservado por 76 anos.
Em um evento comemorativo naquele ano, Thomas Macia, filho do navegador James H. Macia, da tripulação nº 14 do Ataque Doolittle, mostrou a Luo um cartão amarelado que seu pai deixou. Estava escrito "Wangjia Lane, Shangrao" nele. O cartão chamou a atenção de Luo instantaneamente.
"Este cartão pertenceu a Chen Baocong", disse Luo. "Preservado por mais de meio século, ele viajou de Arlington, Virgínia, de volta a Shangrao. Eu sabia que este cartão poderia ser a chave para desvendar um capítulo esquecido da história".
Nos últimos seis anos, Luo trocou mais de 560 e-mails com descendentes dos aviadores do Ataque Doolittle. Por meio desse diálogo transpacífico, ele gradualmente reconstituiu a história completa do resgate ocorrido em Shangrao.
Luo ajudou Macia a rastrear Chen Kangqian, filha de Chen Baocong. "Tenho orgulho do meu pai e também estou feliz com a amizade entre os povos chinês e americano", disse ela.
Em março deste ano, Macia recebeu outro e-mail de Shangrao, dessa vez com uma ótima surpresa. Pesquisadores identificaram o local exato da queda do avião de seu pai na China em tempos de guerra.
"Muitos dos locais de pouso estavam em regiões ocupadas pelos japoneses. Alguns tripulantes de outras aeronaves ficaram gravemente feridos ou foram capturados. Todos os cinco membros da Tripulação nº 14 tiveram a sorte de pousar perto de Shangrao, onde encontraram pessoas bondosas", disse Macia.
Ele ainda se lembra claramente de um momento de seus anos de ensino médio, em 1960, quando seu pai apontou para um lugar remoto de um mapa-múndi e disse que os chineses que moravam lá salvaram sua vida.
Entre as fotografias queridas de seu pai, Macia encontrou outra imagem intrigante: uma jovem de cabelo curto em pé com os olhos arregalados e a boca aberta de surpresa, atrás de um americano com jaqueta de aviador.

Foto de arquivo tirada em abril de 1942 mostra Guan Dongxiang (centro), que tinha nove anos na época, em pé atrás de um piloto americano em Shangrao, província de Jiangxi, no leste da China. (Xinhua)
O homem era Jack A. Sims, copiloto da tripulação nº 14 do Ataque Doolittle. A garota tímida na foto era Guan Dongxiang, a filha mais nova do morador local Guan Wenqing.
"Eu só tinha 9 anos quando vi o aviador americano pela primeira vez", disse Guan, agora com 92 anos, à Xinhua. Seu pai e outros moradores locais encontraram Sims enrolado em seu paraquedas em uma encosta e o trouxeram em segurança de volta para casa.
"Meu pai deu ao aviador duas batatas-doces assadas e fizemos chá para ele", continuou Guan. "Depois de comer, ele pegou o que pareciam doces em formato de feijão e dividiu conosco". Ela ainda se lembra do sabor dos doces americanos.
Hoje, os aviadores do Ataque Doolittle e seus descendentes formaram organizações que realizam comemorações anuais para homenagear e agradecer ao povo chinês que participou do resgate.
"O Ataque Doolittle envolveu 16 aeronaves. Quinze caíram sobre províncias chinesas, principalmente em Zhejiang e em Jiangxi. Sessenta e quatro aviadores foram salvos por soldados e civis chineses, e 18 deles receberam ajuda em Shangrao", explicou Luo ao grupo de visitantes. "O povo de Shangrao não poupou esforços e fez enormes sacrifícios para garantir que esses homens chegassem a áreas seguras".
O resgate teve um custo trágico. Em retaliação ao ataque, as forças japonesas lançaram uma campanha brutal contra Zhejiang e Jiangxi, usando armas biológicas em larga escala. Aproximadamente 250.000 civis chineses perderam a vida por causa disso.

Guan Dongxiang (centro) caminha com sua família em um bairro do distrito de Guangfeng, cidade de Shangrao, província de Jiangxi, leste da China, em 18 de abril de 2025. (Xinhua/Chen Pu)
No início deste ano, em mais uma homenagem a essa história compartilhada, um evento de intercâmbio entre China e EUA foi realizado nos dias 17 e 18 de abril em Quzhou, Zhejiang, para marcar o 83º aniversário do Ataque Doolittle. Representantes da organização Children of the Doolittle Raiders (Filhos dos Aviadores do Ataque Doolittle, em tradução livre), da Fundação Sino-Americana do Patrimônio da Aviação e do Museu USS Hornet se juntaram a especialistas chineses.
O evento também contou com o lançamento de uma parceria entre a Fundação Sino-Americana do Patrimônio da Aviação e a Escola de Ensino Médio de Zhejiang Quzhou, no âmbito do programa Escola da Amizade dos Tigres Voadores, fortalecendo o entendimento e a amizade entre os jovens dos dois países. Os Tigres Voadores, ou Grupo de Voluntários Americanos da Força Aérea Chinesa, foram liderados pelo general americano, Claire Lee Chennault, e auxiliaram a China na resistência à agressão japonesa durante a Segunda Guerra Mundial.
Como este ano marca o 80º aniversário da vitória na Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa e na Guerra Mundial Antifascista, a ocasião da exposição de Shangrao tem um significado especial.
Graças aos esforços de Luo, cada vez mais pessoas estão gradualmente aprendendo sobre essa história antes enterrada. A exposição agora se tornará um recurso permanente no Museu de Shangrao.
"O vínculo entre os povos chinês e americano, forjado durante o Ataque Doolittle, transcende fronteiras e tempo, até mesmo a vida e a morte", observou Luo. "Representa o melhor da humanidade: pessoas comuns dispostas a arriscar tudo por estranhos, simplesmente porque é certo. Esse é nosso legado mais precioso".


