
O acadêmico cingapuriano Lim Shao Bin analisa cópias de materiais de arquivo em sua casa em Cingapura, em 23 de agosto de 2025. (Xinhua/Shu Chang)
Cingapura/Tóquio, 27 ago (Xinhua) -- Para facilitar sua agressão no teatro de operações do Pacífico, o Exército Imperial Japonês na Segunda Guerra Mundial começou a enviar uma tropa de guerra biológica para o Sudeste Asiático em março de 1942, semelhante à notória Unidade 731 no nordeste da China.
Fora do meio acadêmico, pouco se sabia sobre a unidade secreta. Recentemente, uma coleção de registros históricos compilada por acadêmicos de Cingapura e da China, "Unidade Oka 9420, Tropa de Guerra Biológica do Exército do Sul Japonês", reúne quase uma década de pesquisas em arquivos, revelando ao público as atrocidades desumanas cometidas pelo Japão durante a guerra.
"Quanto mais investigamos, mais confrontamos a escuridão do militarismo japonês: horripilante, imoral e tóxico", disse Lim Shao Bin, autor cingapuriano da coleção.
PRINCIPAL UNIDADE DE GUERRA BIOLÓGICA FORA DA CHINA
Em maio de 1942, uma unidade de guerra biológica foi formada em Nanquim, China, e enviada a Cingapura um mês depois. O destacamento, conhecido publicamente como Departamento de Prevenção de Epidemias e Purificação de Água do Grupo do Exército Expedicionário do Sul, era conhecido como Unidade Oka 9420 (Unidade 9420) dentro do Exército Imperial Japonês, de acordo com registros históricos.
A unidade de guerra biológica sediada em Cingapura se infiltrou no que hoje são Malásia, Indonésia, Filipinas, Tailândia, Vietnã e Mianmar, de acordo com Lim e Wang Xuan, coautor chinês da coleção.
Registros mostram que uma de suas principais missões era criar ratos e cultivar pulgas infectadas pela peste bubônica.
Othman Wok, um falecido ministro de Cingapura, relembrou como havia trabalhado como assistente na unidade. Em seu relato oral, feito em 1981, Wok disse que as tarefas diárias da unidade eram capturar ratos e alimentá-los com sangue e carne de ratos infectados com bactérias da peste bubônica. "Uma vez a cada três ou quatro meses", disse ele, "milhões dessas pulgas eram levadas vivas em grandes potes de vidro para a Tailândia de trem".
De acordo com a investigação de Lim, os membros principais da Unidade 9420 eram de unidades de guerra biológica estabelecidas, como a Unidade 731, em Harbin, na China, outras unidades em Nanquim e no Japão. Em seu auge, a unidade contava com mais de 1.000 efetivos, tornando-se a maior força de guerra biológica além do teatro de operações chinês.
Um ex-membro da Unidade 9420, Ryomei Taikai, lembrou-se de criar ratos em uma escola em Kuala Pilah, na Península Malaia central, e de transportar vários ratos do Japão. "No porão de carga do bombardeiro", disse ele, "as gaiolas (contendo ratos) estavam empilhadas como uma montanha".
Lim e Wang também investigaram vestígios de experimentação humana no Sudeste Asiático, dentro da Unidade 9420 e além dela.
Registros de crimes de guerra no Arquivo Nacional Britânico mostram quatro soldados japoneses envenenando prisioneiros na atual Malásia para observar suas mortes. O Arquivo Nacional da Austrália detalhou como oficiais japoneses em Papua-Nova Guiné submeteram 13 prisioneiros de guerra a um experimento de 60 dias de fome e combate à malária, e seis deles morreram.
DESTINO DAS PULGAS
Quase uma década de pesquisa levantou novas questões. Entre elas, saber onde as pulgas da peste foram liberadas.
As evidências apontam para a Birmânia, atual Mianmar, disse Lim.
Em uma carta do pós-guerra, o médico americano Leonard Short, da Agência Conjunta de Inteligência Coletiva, observou que os japoneses poderiam ter produzido pulgas da peste em Rangum. No início de 1944, escreveu ele, a Divisão de Guerra Química dos Estados Unidos alertou as agências de inteligência de que "os japoneses estavam distribuindo contêineres de ‘bolas de Natal’, por via aérea, em um padrão regular na fronteira entre a Birmânia e a China". A "bola de Natal" era semelhante à bomba bacteriana de vidro da Unidade 731.
Documentos desclassificados do Arquivo Nacional dos EUA registram que, em 1944, "os japoneses exigiram que os birmaneses fornecessem ratos e camundongos vivos. O Exército especula que os japoneses poderiam usá-los em guerra biológica para espalhar a peste".
Apesar das descobertas, a falta de informações em primeira mão é um grande desafio para a compreensão de todo o sistema de guerra biológica japonês em tempos de guerra, disse Lv Jing, professor associado de história chinesa na Universidade de Nanquim.
Kyoichi Takebana, membro da filial malaia da Unidade 9420, lembrou que, quando dezenas de membros da unidade fugiram para o Laos em 1945, queimaram grandes quantidades de registros ao saber da rendição do Japão.
Lim confiou fortemente no Centro Japonês de Registros Históricos Asiáticos, copiando e fazendo backup de arquivos importantes por receio de que pudessem ficar inacessíveis algum dia.
Fumio Hara, pesquisador da Unidade 731 e membro da Sociedade Japonesa de Pesquisa em Guerra e Medicina, disse que solicitou listas de unidades de prevenção de epidemias e purificação de água mantidas pelo governo japonês, mas os documentos que recebeu estavam muito alterados, com "informações pessoais" citadas como o motivo. Alguns registos que antes estavam disponíveis publicamente, acrescentou ele, foram privados.
URGÊNCIA NA REVELAÇÃO DA VERDADE
Em 15 de agosto de 1945, o Japão declarou sua rendição incondicional. Nos anos seguintes, os militares americanos investigaram suas atrocidades durante a guerra.
No entanto, a investigação americana logo deu lugar a um encobrimento. Discretamente, os investigadores concederam imunidade aos envolvidos em troca de dados de pesquisa obtidos pelas unidades japonesas de guerra biológica. Muitos perpetradores de experimentos bárbaros e ataques biológicos mais tarde exerceram a medicina civil, alguns deles até se tornaram médicos respeitados.
Relatos de testemunhas oculares surgiram apenas esporadicamente e chamaram pouca atenção. Foi somente em 1981, com o livro "The Devil's Gluttony" ("A Gula do Diabo", em tradução livre), de Seiichi Morimura, que os horrores da Unidade 731 foram trazidos a público.
"Muitas pessoas desconhecem que, além de assassinatos brutais, a expansão militar japonesa era frequentemente realizada sob o disfarce da chamada assistência médica e técnica", disse Lv. "Precisamos restaurar os fatos e ser honestos sobre a natureza da agressão japonesa para que as próximas gerações não repitam os erros do passado".
"O governo japonês, embora reconheça a existência da Unidade 731, nega qualquer evidência de experimentos humanos ou guerra biológica. Menos ainda, a sociedade japonesa ainda precisa refletir profundamente sobre as verdadeiras causas da guerra", disse Hara.
Ele alertou para a urgência de revelar a verdade histórica, visto que "nos últimos anos o Japão vinha pressionando por um aumento militar massivo".
Para Hara, a lição é óbvia. "Nós, japoneses, precisamos encarar a verdade e aprender com ela, esta é uma tarefa histórica inegável para a manutenção da paz".

