Impasse na Groenlândia expõe ainda mais os dilemas da autonomia estratégica da Europa-Xinhua

Impasse na Groenlândia expõe ainda mais os dilemas da autonomia estratégica da Europa

2026-01-18 13:33:18丨portuguese.xinhuanet.com

Foto tirada em 7 de janeiro de 2026 mostra paisagem de Aasiaat, na Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca. (Foto de Zhang Quanwei/Xinhua)

Décadas de dependência de Washington tornaram a "dependência de segurança dos EUA" a maior vulnerabilidade da Europa.

Roma, 16 jan (Xinhua) -- A Dinamarca e os EUA têm um "desacordo fundamental" sobre o futuro da Groenlândia, disse o ministro das Relações Exteriores dinamarquês, Lars Lokke Rasmussen, nesta quarta-feira, após conversas com o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio.

No mesmo dia, o presidente dos EUA, Donald Trump, reiterou que os Estados Unidos precisam da Groenlândia, enquanto vários países europeus anunciaram que enviariam militares à ilha para missões de treinamento.

A disputa pela Groenlândia expôs uma questão incômoda que a Europa não pode mais ignorar: será que a Europa conseguirá proteger seu próprio território, como a Groenlândia? Quais são os desafios práticos que a Europa enfrenta no caminho rumo à autonomia estratégica?

Observadores europeus alertam que, em meio às mudanças nas relações transatlânticas, a Europa pode continuar presa em uma posição delicada, sem confiar nos Estados Unidos e sem alcançar a autonomia estratégica.

DESLOCAMENTOS SIMBÓLICOS DE TROPAS

O governo Trump sinalizou repetidamente sua intenção de obter a Groenlândia e disse que o uso da força não pode ser descartado.

Foto tirada em 7 de janeiro de 2026 mostra paisagem de Asiaat, na Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca. (Foto de Zhang Quanwei/Xinhua)

Sob pressão contínua de Washington, o Ministério da Defesa da Dinamarca e o governo autônomo da Groenlândia anunciaram na quarta-feira que decidiram estabelecer "uma presença militar mais permanente e ampla" na Groenlândia e arredores, incluindo a participação de aliados da OTAN, e descreveram a medida como "uma resposta clara aos desafios enfrentados pelo Ártico".

Localizada no nordeste da América do Norte, a Groenlândia, a maior ilha do mundo, é um território autônomo dentro do Reino da Dinamarca, embora Copenhague mantenha a autoridade sobre defesa e política externa. Os Estados Unidos mantêm uma base militar na ilha.

A mídia europeia noticiou que diversos países europeus confirmaram sua participação, a convite da Dinamarca, em uma missão multinacional de reconhecimento a ser realizada na Groenlândia.

Em um comunicado divulgado na quarta-feira, o Ministério da Defesa alemão disse que a missão visa analisar as condições para um possível apoio militar à Dinamarca na garantia da segurança na região. Por exemplo, a equipe analisará capacidades como a vigilância marítima.

França, Suécia e Alemanha disseram que enviariam pessoal para a Groenlândia, embora os destacamentos sejam de escala limitada. A Alemanha, por exemplo, anunciou que enviaria apenas uma equipe de 13 pessoas.

Analistas europeus acreditam que esses destacamentos de tropas têm pouca importância prática, servindo principalmente como gestos simbólicos de apoio à Dinamarca e sinais de preocupação com a segurança do Ártico.

Soldados franceses armados patrulham a Praça do Trocadero, perto da Torre Eiffel, em Paris, França, em 25 de março de 2024. (Xinhua/Gao Jing)

Tim Haesebrouck, professor assistente de política internacional na Universidade de Ghent, disse que os países europeus não têm capacidade para se envolver em um confronto militar direto com os Estados Unidos, observando que, em qualquer estágio de uma possível escalada, o equilíbrio de poder militar favoreceria Washington.

Uma tomada militar da Groenlândia poderia ser viável para os EUA, e o verdadeiro desafio está na administração pós-conflito, disse Ian Lesser, pesquisador sênior do Fundo German Marshall dos Estados Unidos.

APELO URGENTE PARA REDUZIR A DEPENDÊNCIA

Em resposta às ameaças de Trump sobre a Groenlândia, Camille Grand, ex-secretária-geral adjunta da OTAN, disse que a situação ressalta, mais uma vez, a necessidade de a Europa reduzir sua dependência dos Estados Unidos em matéria de segurança.

Desde que Trump retornou à Casa Branca em 2025, as relações transatlânticas sofreram mudanças notáveis. Os atritos dentro da aliança, há muito descrita como baseada em interesses e valores de segurança compartilhados, intensificaram-se, reforçando a disposição da Europa em buscar autonomia estratégica.

Da imposição de tarifas contra a União Europeia à pressão sobre os aliados europeus para que aumentem drasticamente os gastos com defesa, da exigência de que a Europa assuma a "responsabilidade principal" pela segurança da Ucrânia à manifestação repetida do desejo de anexar a Groenlândia, a postura "América Primeiro" do governo Trump continua tensionando os laços transatlânticos.

As tensões aumentaram ainda mais no final do ano passado, quando Washington divulgou um relatório sobre a Estratégia de Segurança Nacional que defendia um envolvimento mais profundo dos EUA nos assuntos europeus e retratava a Europa cada vez mais como uma rival ideológica e geopolítica.

Um artigo no jornal britânico The Guardian descreveu o relatório como um marco de "mudança sísmica" nas relações transatlânticas, observando que elementos de hostilidade em relação à Europa foram incorporados à estratégia nacional dos EUA.

Pessoas protestam contra os planos dos EUA para a Groenlândia em Copenhague, Dinamarca, em 14 de janeiro de 2026. Cerca de 200 manifestantes se reuniram em frente à Embaixada dos EUA na Dinamarca na quarta-feira, expressando oposição aos planos de Washington para a Groenlândia, enquanto autoridades dinamarquesas e groenlandesas se encontravam com o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio, em Washington. (Foto de Liu Zhichao/Xinhua)

Essas mudanças tornaram a busca da Europa por autonomia estratégica mais urgente. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, defendeu maior autonomia europeia, argumentando que a UE deve ser capaz de proteger sua própria defesa e segurança, além de controlar de forma independente as tecnologias e a energia que impulsionam seu crescimento econômico.

Dan Krause, diretor de programa para Política Europeia e Internacional da Fundação Bundeskanzler-Helmut-Schmidt, um think tank alemão, disse à Xinhua que, como os Estados Unidos estão atacando a UE por seus valores e até mesmo por sua civilização, e se opondo ao multilateralismo, o aliado tradicional não pode ser compatível com os interesses europeus.

Uma Europa genuinamente autônoma e estratégica pode, realmente, melhorar as relações com os Estados Unidos, porque somente com base nisso "a Europa poderá falar em pé de igualdade, a partir de uma posição independente", disse ele.

TRÊS DILEMAS DIFICULTAM A INDEPENDÊNCIA

A questão da Groenlândia também destaca os desafios práticos que a Europa enfrenta. Comentaristas europeus observam que a autonomia em segurança e defesa está no cerne da autonomia estratégica da Europa, mas três grandes dilemas dificultam a conquista de uma verdadeira independência em defesa.

O primeiro é a lacuna de capacidades. Analistas argumentam que a Europa precisa reduzir sua dependência dos EUA em áreas como a indústria militar, as capacidades de inteligência e a mobilidade militar transfronteiriça.

No entanto, décadas de dependência de Washington tornaram a "dependência de segurança dos EUA" a maior vulnerabilidade da Europa.

Pessoas protestam contra os planos dos EUA para a Groenlândia em Copenhague, Dinamarca, em 14 de janeiro. 2026. Cerca de 200 manifestantes se reuniram em frente à Embaixada dos EUA na Dinamarca na quarta-feira, expressando oposição aos planos de Washington para a Groenlândia, enquanto autoridades dinamarquesas e groenlandesas se encontravam com o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio, em Washington. (Foto de Liu Zhichao/Xinhua)

Pesquisas do Instituto Atlas para Assuntos Internacionais, com sede nos EUA, mostram que as aquisições militares dos EUA para aliados europeus aumentaram de uma média de 11 bilhões de dólares americanos entre 2017 e 2021 para 68 bilhões de dólares em 2024. O canal britânico BBC noticiou que a Europa continua altamente dependente dos Estados Unidos para coleta de informações, comando e controle e capacidades aéreas.

O segundo dilema é a divisão interna. Debates sobre autonomia de defesa persistem na Europa há anos, mas os Estados-membros continuam divergindo em prioridades e posições. Alguns países preferem continuar dependendo das garantias de segurança dos EUA, enquanto outros pressionam por maior independência.

Persistem também divergências sobre se é melhor reforçar a cooperação intergovernamental em matéria de defesa ou promover esforços coletivos de defesa a nível da UE. A capacidade da Europa de forjar uma resolução política unificada será essencial para o progresso da autonomia em matéria de defesa.

Por último, mas não menos importante, a pressão financeira. Impulsionados pela crise na Ucrânia e pelo aumento das tensões transatlânticas, os gastos com defesa da UE continuaram aumentando. A Agência Europeia de Defesa estima que as despesas com defesa da UE atingirão 381 bilhões de euros em 2025, um aumento de cerca de 11% em relação a 2024.

Para muitos países europeus, contudo, os orçamentos de defesa exorbitantes, em um contexto de elevada inflação, baixo crescimento e défices crescentes, representam um pesado fardo econômico, podendo comprometer as despesas sociais e desencadear tensões políticas e sociais. A revista britânica The Economist prevê que os gastos com defesa na Europa atingirão o nível mais alto desde o fim da Guerra Fria em 2026, mas alerta que, sob crescente pressão econômica, a Europa ainda tem um longo caminho a percorrer antes de alcançar uma verdadeira autonomia estratégica.

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