Beijing, 27 fev (Xinhua) -- Na véspera do Ano Novo Chinês, enquanto a televisão transmitia a tradicional gala da Festa da Primavera, a mesa da família sino-brasileira de José Medeiros da Silva reunia um retrato incomum da globalização: ao lado dos pratos típicos chineses, uma pizza dividia espaço. "Este ano, como a passagem do Ano Novo foi com um núcleo familiar mais restrito, além das comidas chinesas, incorporamos uma boa pizza para deixar a nossa mesa um pouco mais diversificada", conta o professor na Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang.
Ele mora na China há 18 anos. No entanto, o que realmente importa na data não está no prato, mas no que acontece ao redor dele -- as comidas e as conversas. "É um período no qual os chineses se reconectam com sua ancestralidade, para que, assim, possam seguir sua caminhada civilizacional mais fortalecidos", disse ele.
Este ano marca a "segunda edição da Festa da Primavera dedicada ao patrimônio cultural imaterial". Segundo Lin Jian, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, o festival está se tornando cada vez mais uma celebração global compartilhada e uma festa cultural apreciada em todo o mundo. Os costumes da Festa da Primavera não representam apenas a cultura tradicional chinesa, mas também incorporam a inovação tecnológica moderna, ganhando renovada vitalidade por meio da interação com o mundo.
Assim como celebrar a festa, a vida do professor brasileiro incorporou um número de "costumes chineses".
Quando desembarcou na China em 2007, José Medeiros da Silva, natural do Rio Grande do Norte, jamais imaginaria que um dos hábitos que mais causariam estranhamento se tornaria parte indissociável da sua rotina: beber água morna.
"No Brasil, a gente toma muita água gelada. Agora, praticamente não bebo mais água gelada, mesmo quando estou no Brasil", conta o professor, que também passou a tomar muito chá -- antes, a bebida quente do dia a dia era praticamente apenas o café.
Em todas as plataformas de mídia social globais, termos como "Tornando-se chinês" (Becoming Chinese) e "Compras na China" (China Shopping) ganharam força, refletindo um interesse crescente em experiências imersivas e práticas na China. Observando essas tendências no turismo e nas redes sociais, Lin Jian disse que, está feliz em ver que cada vez mais amigos estrangeiros demonstram interesse em conhecer a China de hoje e explorar a vida cotidiana do povo chinês, e que eles têm a oportunidade de fazer isso.
Mas, para José Medeiros da Silva, a definição é outra.
"Eu sou um brasileiro profundamente influenciado pelos valores da civilização chinesa", afirmou ele.
Essa influência, para ele, não se resume a gestos isolados, mas a uma verdadeira reconfiguração de visão de mundo. Crescido em uma comunidade rural no Brasil que não tinha telefone, luz elétrica nem televisão, José viu o mundo se transformar e, na China, abraçou uma revolução digital que sequer imaginava. "De repente, quatro ou cinco décadas depois, estou diante de um mundo digital completamente novo. Hoje, 90% das compras da minha família são feitas por aplicativos e os pagamentos são quase 100% eletrônicos. Fico feliz por ser capaz de acompanhar e utilizar no meu dia a dia os benefícios dessas conquistas."
Morando em um país com mais de 5 mil anos de história, José passou a incorporar conceitos milenares no seu cotidiano. A integração com a cultura local, no entanto, também passa pela filosofia ancestral. Em seu escritório, José colocou orquídeas, inspirado pelo simbolismo das "quatro nobres plantas" da cultura chinesa, que representam virtudes como resiliência e integridade.
"Resiliência, valorização do conhecimento, amor à pátria, coragem para enfrentar as adversidades e criatividade são alguns dos elementos-chave para se compreender a longevidade da civilização chinesa", refletiu ele.
Nos clássicos, ele encontrou lições atemporais para o cotidiano: "Gosto de refletir sobre a atualidade dos ensinamentos iniciais dos Analectos de Confúcio, que destacam a importância dos estudos, da amizade e de uma conduta voltada para o bem, mesmo quando esses esforços não recebem reconhecimento público."
"O Brasil é um país formado por muitos povos. Defendo que, quanto mais os brasileiros conhecerem a China e mais elementos da civilização chinesa forem adotados pelo povo brasileiro, maior será a universalidade de nossa diversidade. Isso pode ser um elemento decisivo para a valorização das culturas, a promoção da amizade e a convivência harmônica entre os povos. Diria que esse é o elemento de brasilidade mais arraigado em mim", enfatizou ele.
Essa conexão com a tradição se tornou ainda mais profunda com a paternidade. Foi ao criar os próprios filhos que José percebeu o quanto sua trajetória havia se entrelaçado com a China de forma definitiva. Em comum acordo com a esposa chinesa - com quem, brinca, foi "muito rápido" ao primeiro encontro, assim como foi "muito rápido" ao se interessar pela China décadas atrás - ele decidiu que as crianças, um menino e uma menina que acabaram de completar quatro anos, teriam não só a nacionalidade chinesa, mas seriam educados nas escolas públicas do país, imersos nos valores locais.
"Isso significa educá-los para amar a China e sua civilização e para que, quando crescerem, se dediquem a edificar uma China cada vez mais bela, humanamente inspiradora e próspera. E, claro, se eles se dedicarem um pouco ao fortalecimento dessa amizade entre a China e a América Latina, vou sentir-me ainda mais orgulhoso."
Sobre os jovens ocidentais que aderem à trend de "se tornar chinês" em busca de bem-estar, José vê um movimento positivo -- ainda que prefira uma interpretação mais profunda do fenômeno. "A humanidade vive um momento novo, no qual os povos estão cada vez mais interligados. Cada civilização possui elementos especiais que, se bem observados e conhecidos, podem contribuir para o progresso geral da humanidade. Quanto mais o mundo 'descobre' a China, mais pode conhecer e adotar suas riquezas e valores."
"Amo profundamente o Brasil, assim como amo a China. Costumo dizer que tornar a China mais conhecida no Brasil e o Brasil mais conhecido na China faz parte da minha missão de vida", concluiu ele.

