Como a escalada no Oriente Médio se espalha e impacta a economia global-Xinhua

Como a escalada no Oriente Médio se espalha e impacta a economia global

2026-04-02 12:32:52丨portuguese.xinhuanet.com

O que começou como um ponto de tensão geopolítica evoluiu para um choque econômico sistêmico, reverberando nos mercados de energia, nas cadeias de suprimentos industriais e em rotas marítimas essenciais.

Beijing, 31 mar (Xinhua) -- Com os ataques militares conjuntos entre EUA e Israel contra o Irã entrando na quinta semana sem um caminho claro para a resolução, as consequências econômicas estão se espalhando muito além do Oriente Médio.

O que começou como um ponto de tensão geopolítica evoluiu para um choque econômico sistêmico, reverberando nos mercados de energia, nas cadeias de suprimentos industriais e em rotas marítimas essenciais.

Conforme o conflito se arrasta, seus efeitos colaterais estão testando cada vez mais a resiliência da frágil recuperação econômica global.

CHOQUE GLOBAL DO PETRÓLEO

Como parte de sua resposta às operações dos EUA e de Israel, o Irã restringiu a navegação pelo Estreito de Ormuz, visando navios associados aos Estados Unidos e a Israel. O bloqueio dessa rota energética global vital elevou os preços do petróleo e do gás em todo o mundo.

Na segunda-feira, o petróleo bruto West Texas Intermediate dos EUA para entrega em maio fechou acima de 100 dólares americanos pela primeira vez desde julho de 2022. Enquanto isso, o petróleo bruto Brent, referência global, fechou a 112,78 dólares o barril e está a caminho de registrar um ganho mensal recorde de mais de 50% em março.

O presidente dos EUA, Donald Trump, alertou na segunda-feira, em sua conta na plataforma Truth Social, que se um acordo para encerrar a guerra não for alcançado "em breve" e o Estreito de Ormuz não for reaberto imediatamente, os Estados Unidos explodirão e obliterarão completamente todas as usinas de geração de energia elétrica, poços de petróleo e a Ilha de Kharg do Irã.

Mais tarde, o jornal britânico The Wall Street Journal citou funcionários do governo Trump falando que o presidente teria dito a seus assessores que está disposto a encerrar a guerra entre os EUA e Israel contra o Irã, mesmo que o Estreito de Ormuz permaneça em grande parte fechado.

"Um cenário em que o estreito continue fechado por mais um mês seria consistente com a alta dos preços do petróleo para perto de 150 dólares o barril e com restrições no fornecimento de energia para consumidores industriais", disse Bruce Kasman, chefe global de economia do JP Morgan, citado pelo jornal britânico The Times.

Descrevendo a situação como "muito grave", o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, disse estar em negociações com os países membros sobre a liberação de mais petróleo estocado em resposta à crise de abastecimento desencadeada pelo conflito.

"A liberação de estoques ajudará a acalmar os mercados, mas não é a solução. Apenas ajudará a reduzir o impacto na economia", disse Birol na semana passada, na Austrália.

As tensões no Oriente Médio também abalaram os mercados de ações globais. Desde o início dos combates, os principais índices dos EUA caíram mais de 7%, enquanto o índice pan-europeu STOXX 600 recuou mais de 8%. Os mercados asiáticos também registraram perdas generalizadas.

De acordo com um relatório recente da OMC, a manutenção de preços elevados da energia pode reduzir a previsão do PIB global para 2026 em 0,3 ponto percentual e diminuir o crescimento do comércio em 0,5 ponto percentual.

"Aumentos sustentados nos preços da energia podem aumentar os riscos para o comércio global, com potenciais repercussões na segurança alimentar e pressões de custos sobre consumidores e empresas", disse a diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala.

Nos Estados Unidos, a confiança do consumidor enfraqueceu consideravelmente, com o Índice de Confiança do Consumidor da Universidade de Michigan caindo para o menor nível em três meses, atingindo 53,3, à medida que a guerra alimenta preocupações com a inflação e obscurece as perspectivas econômicas.

Na Europa, que depende fortemente das importações de energia e já enfrenta as consequências da crise na Ucrânia, o choque é ainda mais agudo tanto para as indústrias quanto para as famílias.

Daan Struyven, co-chefe de Pesquisa Global de Commodities do Goldman Sachs, estimou que cerca de 60% dos preços da energia na Europa estão atrelados ao gás natural, aumentando a exposição da região a choques energéticos.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico reduziu sua previsão de crescimento da zona do euro para este ano para 0,8% e elevou sua perspectiva de inflação para 2,6%.

Preços da gasolina são exibidos em um posto de gasolina em Londres, Reino Unido, em 18 de março de 2026. (Xinhua/Li Ying)

EFEITOS EM CASCATA EM TODOS OS SETORES

Além do petróleo, a guerra no Irã está afetando gravemente os mercados globais de commodities, particularmente nos setores de alta intensidade energética e sensíveis à cadeia de suprimentos.

O normalmente movimentado Estreito de Ormuz não é apenas um canal regular para petróleo bruto, mas também uma artéria agrícola global para alimentos e fertilizantes.

De acordo com dados da Associação Internacional de Fertilizantes, as nações do Golfo respondem por aproximadamente um terço das exportações globais de ureia e fertilizantes nitrogenados.

Os agricultores em todo o mundo estão sentindo a pressão. À medida que os fertilizantes ficam menos acessíveis, a produtividade agrícola pode diminuir, elevando os preços dos alimentos. O impacto provavelmente se espalhará por toda a cadeia de suprimentos alimentares, afetando tudo, desde os preços da carne até os produtos processados e, em última análise, representando riscos para a segurança alimentar global.

De acordo com uma nota divulgada na última segunda-feira pela Alpine Macro, uma empresa global de pesquisa de investimentos, os preços da ureia e da amônia subiram cerca de 50% e 20%, respectivamente, desde o início da guerra, informou a rede de televisão americana CNBC.

O economista turco, Murat Tufan, descreve a situação como um "ciclo vicioso" que vai além do alcance da política monetária tradicional.

Ele observou que essa crise é de oferta, o que deixa os bancos centrais com opções limitadas. "Não é possível conter o aumento dos custos dos alimentos apenas com aumentos nas taxas de juros quando os principais fatores são choques externos nos preços dos combustíveis e fertilizantes".

A pressão também está aumentando sobre outras commodities importantes. O hélio, um gás industrial essencial usado na fabricação de semicondutores e equipamentos médicos, enfrenta possíveis escassez devido a interrupções entre os principais produtores, incluindo o Catar.

O alumínio, um metal industrial fundamental usado na fabricação de automóveis, construção e embalagens, teve seus preços elevados devido aos cortes na produção na região do Golfo, restrições logísticas e ataques iranianos a dois produtores regionais no fim de semana, que restringiram a oferta.

O preço de referência do alumínio para entrega em três meses na Bolsa de Metais de Londres chegou a atingir brevemente 3.492 dólares por tonelada métrica durante o pregão de segunda-feira, próximo à máxima de quatro anos de 3.546,50 dólares, informou a agência britânica de notícias Reuters.

Além disso, o aumento dos custos petroquímicos está elevando os preços dos plásticos, afetando uma ampla gama de indústrias, desde têxteis até embalagens de consumo.

Foto tirada em 7 de março de 2026 mostra vista interna do Aeroporto Internacional de Dubai, em Dubai, Emirados Árabes Unidos (EAU). (Xinhua)

LOGÍSTICA SOB PRESSÃO

Com a guerra se prolongando, o Irã tem usado seu controle sobre o Estreito de Ormuz, reduzindo o tráfego marítimo em uma das vias navegáveis ​​mais vitais do mundo a níveis historicamente baixos.

Até 29 de março, cerca de 150 embarcações passaram pelo estreito entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã desde o início da guerra, segundo a Kpler, uma plataforma de análise de dados. Normalmente, cerca de 120 navios o cruzam diariamente.

Segundo uma estimativa da S&P Global Market Intelligence, quase 3.000 navios estão aguardando nas proximidades.

"Um único navio de 15.000 TEUs (unidade equivalente a vinte pés) atrasado por 10 dias elimina 150.000 TEUs-dias de produtividade. Multiplicando por toda a frota, o impacto é profundo", disse a empresa em uma análise recente.

Redirecionar as rotas é uma opção, mas não necessariamente a preferível. A West Coast Shipping, provedora internacional de serviços de transporte marítimo, disse que desviar as rotas Ásia-Europa ao redor da África normalmente adiciona mais de 3.500 milhas náuticas (6.482 km), aproximadamente 10 a 14 dias, a cada viagem.

A empresa observou que, quando as transportadoras suspenderam as travessias pelo Canal de Suez em 2022, as viagens redirecionadas ao redor do Cabo da Boa Esperança aumentaram os tempos de trânsito em cerca de 20%, causando grandes transtornos às cadeias logísticas globais.

A guerra também afetou importantes centros de transporte aéreo, elevando os custos de combustível, intensificando as restrições de voos e forçando as empresas a redirecionar voos ou a fazer desvios por terra até o Golfo.

Os principais aeroportos de Dubai, Abu Dhabi e Doha, centros de carga essenciais que ligam a Europa à Ásia e à África, foram paralisados ​​por ataques iranianos em resposta aos ataques dos EUA e de Israel, criando graves problemas logísticos para as farmacêuticas ocidentais que lidam com medicamentos contra o câncer e outros tratamentos sensíveis à temperatura.

Um executivo da indústria farmacêutica disse à Reuters, sob condição de anonimato, que "corredores de frio" alternativos não podem ser criados da noite para o dia e nem sempre estão disponíveis.

Os estoques de medicamentos sensíveis à temperatura geralmente duram apenas três meses, disse Prashant Yadav, pesquisador sênior de saúde global do Conselho das Relações Exteriores, alertando que os atrasos na entrega podem piorar os resultados para pacientes com câncer.

Alguns clientes já relataram problemas, acrescentou Yadav, observando que os suprimentos podem se esgotar em poucas semanas se a situação não melhorar.

Os gargalos causados ​​pela quase paralisação do estreito podem ser piores do que o inicialmente previsto. David Weeks, diretor de gestão de riscos da cadeia de suprimentos da agência de classificação de risco Moody's, alertou que o problema nem sempre é a escassez do medicamento em si: "Em alguns casos, é a pequena rolha do frasco por onde a dose é extraída".

(Repórteres de vídeo: Yang Yating, Zhang Huan, Yuan Hengrui, Che Yunlong, Wu Yao, Safar Rajabov, Wang Jialin, Basel e Heba; edição de vídeo: Liu Ruoshi, Zhu Cong, Liu Xiaorui e Zhang Yucheng)

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