EUA, Israel e Irã concordam com cessar-fogo, mas a paz permanece incerta-Xinhua

EUA, Israel e Irã concordam com cessar-fogo, mas a paz permanece incerta

2026-04-10 11:26:06丨portuguese.xinhuanet.com

O cessar-fogo, em certa medida, reacendeu as esperanças de que as negociações possam resolver o conflito, mas as respostas de importantes atores sugerem que profundas divisões e desconfiança mútua permanecem firmemente estabelecidas. Especialistas disseram que as perspectivas de uma paz duradoura no Oriente Médio continuam envoltas em incerteza.

Cairo, 8 abr (Xinhua) -- Após cerca de 40 dias de confrontos fatais, os Estados Unidos e o Irã chegaram a um cessar-fogo de duas semanas nesta quarta-feira, com o apoio de Israel, oferecendo ao turbulento Oriente Médio um breve, porém bem-vindo, alívio.

A tão esperada trégua foi alcançada no último minuto, pouco antes do prazo estipulado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para que o Irã concordasse com um acordo e reabrisse o Estreito de Ormuz, ou "toda a civilização morrerá".

Embora o cessar-fogo tenha interrompido um conflito cujos impactos foram sentidos em todo o mundo, especialistas alertam que disputas profundas entre Washington e Teerã permanecem sem solução, tornando as perspectivas de uma paz duradoura incertas.

AVANÇO DE ÚLTIMA HORA

O cessar-fogo foi alcançado em meio a repetidas ameaças de Trump, que culminaram na terça-feira, quando ele advertiu que "toda a civilização iraniana morrerá" se Teerã não cumprisse seu último prazo para um acordo até as 20h de terça-feira no horário do leste dos EUA (00h GMT de quarta-feira), uma declaração que gerou ampla repercussão negativa.

Na noite de terça-feira, enquanto o mundo se preparava para possíveis ataques dos EUA, Trump anunciou um cessar-fogo bilateral de duas semanas, com Teerã concordando com a abertura completa, imediata e segura do Estreito de Ormuz.

Em entrevista à imprensa, Trump elogiou o acordo como uma vitória total e completa, acrescentando que o urânio do Irã estaria "perfeitamente protegido" sob o acordo de cessar-fogo.

Após o anúncio de Trump, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã emitiu rapidamente uma declaração confirmando o cessar-fogo.

O Irã alcançou uma grande vitória e "forçou" os Estados Unidos a aceitarem seu plano de 10 pontos, que inclui a passagem controlada pelo Estreito de Ormuz e a necessidade de pôr fim à guerra contra todos os elementos do "eixo da resistência", dizia a declaração.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araghchi, disse que o Irã cessará as operações defensivas se os ataques contra o país pararem. Araghchi também prometeu passagem segura pelo Estreito de Ormuz durante o cessar-fogo de duas semanas, em "coordenação" com as forças armadas iranianas.

Por sua vez, Israel declarou seu apoio à trégua temporária, observando que o Líbano está excluído do acordo.

DIFERENÇAS PROFUNDAS

O cessar-fogo, em certa medida, reacendeu as esperanças de que as negociações possam resolver o conflito, mas as respostas de importantes atores sugerem que profundas divisões e desconfiança mútua permanecem firmemente estabelecidas. 

Na declaração que confirmou o cessar-fogo, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã enfatizou que as negociações serão conduzidas na sexta-feira em Islamabad "com total desconfiança em relação ao lado americano".

"Estamos prontos para agir, e assim que o menor erro for cometido pelo inimigo, responderemos com toda a força", advertiu o conselho de segurança.

Hamad Alhosani, pesquisador da TRENDS Research and Advisory nos Emirados Árabes Unidos, disse que as declarações dos Estados Unidos e do Irã também revelam "um grande abismo".

No Estreito de Ormuz, Washington exige "abertura completa, imediata e segura", enquanto Teerã insiste no "controle iraniano contínuo", disse Alhosani. Sobre o programa nuclear, o Irã exige o reconhecimento de seus direitos de enriquecimento, enquanto os Estados Unidos disseram a Israel que estão comprometidos em remover todo o material nuclear iraniano, acrescentou ele.

Homem participa de um protesto em Teerã, Irã, em 8 de abril de 2026. (Xinhua/Shadati)

Da mesma forma, Mohamed Benaya, especialista em assuntos iranianos e do Golfo na Universidade Al-Azhar, no Egito, disse: "Os principais pontos de divergência são estruturais, as questões nucleares e os níveis e cronogramas de enriquecimento".

"Há um problema de confiança entre os dois lados, impulsionado por ambos os conceitos ideológicos", acrescentou Benaya. "Superar essas divergências será difícil sem concessões recíprocas e graduais".

Analistas também observaram que as divergências entre Washington e Teerã não são recentes: elas decorrem de décadas de rivalidade política, ideológica e estratégica, e dificilmente serão resolvidas apenas por meio de guerra ou negociações.

Akram Atallah, analista político palestino, disse que as diferenças sobre o programa nuclear iraniano, as preocupações com sua influência regional e o peso das sanções econômicas deixaram disputas fundamentais entre Teerã e Washington sem solução.

"O acordo atual deve ser entendido principalmente como uma tentativa de conter a escalada, e não de resolver o conflito subjacente. Ele abre uma janela diplomática, mas as questões estruturais entre os dois lados permanecem sem solução", disse Atallah.

PERSPECTIVAS SOMBRIAS

Dadas essas divisões arraigadas, especialistas disseram que as perspectivas de uma paz duradoura no Oriente Médio permanecem envoltas em incertezas.

"Nas próximas duas semanas, podemos observar medidas limitadas para a construção da confiança, mas as negociações provavelmente se concentrarão em evitar uma escalada ainda maior, em vez de resolver todas as disputas subjacentes", disse à Xinhua, Oytun Orhan, pesquisador sênior do Centro de Estudos do Oriente Médio, com sede em Ancara.

Foto tirada em 8 de abril de 2026 mostra vista urbana de Teerã, Irã. (Xinhua/Shadati)

Salah Ali Salah, coordenador de projetos do Centro de Estudos Estratégicos de Sanaa, disse que o cessar-fogo reflete um compromisso relutante de ambos os lados, em vez de um consenso genuíno.

"O que estamos vendo é uma trégua forçada e temporária entre dois lados que esgotaram suas opções de escalada sem alcançar resultados decisivos", disse ele. "Com muitas questões críticas ainda sem solução, as chances de novas tensões superam as perspectivas de um verdadeiro avanço diplomático nas próximas semanas".

Jumaa Mohammed, professor de ciência política na Universidade de Tikrit, no Iraque, também expressou dúvidas sobre as perspectivas de uma paz duradoura.

Ambos os lados já sofreram perdas suficientes para perceberem que um retorno rápido à guerra seria mais custoso, mas ainda não confiam um no outro o bastante para fazerem concessões significativas, disse Mohammed.

Mohammed Zakaria Aboudahab, professor de direito público e ciência política na Universidade Mohammed V, no Marrocos, também alertou que o cessar-fogo não garante uma paz duradoura.

"Os principais fatores do conflito, o status nuclear do Irã, a reconfiguração da arquitetura de segurança do Golfo e o risco persistente de escalada dentro do triângulo Israel-Hezbollah-Irã, permanecem sem solução", disse Aboudahab. "O que estamos testemunhando é mais provavelmente um intervalo do que uma conclusão".

(Repórteres do vídeo 1: Xie E; editores do vídeo 1: Liu Yutian, Luo Hui e Cao Ying; repórteres do vídeo 2: Zhang Jingyao e Tang Binhui; editores do vídeo 2: Zhang Jingyao, Liu Yutian, Li Qin, Luo Hui e Cao Ying)

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