
Pessoas ao redor do prédio do parlamento protestam contra tentativas do governo da primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi de revisar a constituição pacifista do país e pedem a proteção do Artigo 9 em Tóquio, Japão, em 19 de abril de 2026. (Xinhua/Jia Haocheng)
O ecossistema de opinião pública anti-China no Japão é um produto conjunto de manipulação política, ansiedade social, interesses comerciais e falhas sistêmicas na mídia. Quando a população de um país só consegue observar seu vizinho mais importante através de um prisma extremamente distorcido, as consequências políticas certamente serão perigosas.
Por Xiang Haoyu
Em 24 de março, um incidente flagrante chocou a comunidade internacional. Kodai Murata, um segundo-tenente de 23 anos das Forças Terrestres de Autodefesa do Japão, escalou o muro, invadiu a Embaixada da China no Japão portando uma faca de 31 cm e ameaçou matar diplomatas chineses. Essa violação do direito internacional expôs a opinião pública anti-China, há muito oculta por trás da fachada do Japão como uma "nação amante da paz".
Nos últimos anos, diversas pesquisas de opinião pública mostraram que apenas cerca de 10% do público japonês tem uma visão favorável da China. Apesar das várias disputas entre China e Japão, os dois países são vizinhos próximos, com economias profundamente integradas e extensos intercâmbios interpessoais, o que torna esses números tão baixos extremamente anormais. No entanto, qualquer pessoa familiarizada com o panorama da opinião pública japonesa em relação à China conhece a causa principal: um discurso sinofóbico de longa data na sociedade japonesa, alimentado por um sentimento anti-China desenfreado on-line. Essa psicologia social quase patológica não surgiu da noite para o dia; é o resultado de filtragem seletiva, distorção e reportagens estereotipadas pela mídia japonesa ao longo de muitas décadas.
DIFAMAÇÃO ESTEREOTIPADA ATRAVÉS DA MÍDIA
Embora a mídia não possa determinar o que as pessoas pensam, ela pode moldar o que as pessoas pensam sobre a China.
A cobertura negativa da mídia japonesa sobre a China se manifesta de três maneiras principais. Primeiro, a mídia japonesa demonstra uma notável "cegueira seletiva". No cenário midiático tradicional do Japão, dominado por cinco jornais nacionais e grandes emissoras de televisão, a cobertura da China tem se concentrado quase que exclusivamente no desenvolvimento militar, em disputas territoriais, em tensões sociais, em problemas econômicos e em questões de direitos humanos. Enquanto isso, o jornalismo objetivo sobre o progresso social da China, os avanços científicos e tecnológicos, o combate à pobreza e o desenvolvimento urbano e rural é praticamente inexistente.

Pessoas participam de vigília à luz de velas no Memorial das Vítimas do Massacre de Nanjing pelos Invasores Japoneses, em Nanjing, capital da Província de Jiangsu, no leste da China, em 13 de dezembro de 2025. (Xinhua/Li Bo)
Dentro de uma estrutura narrativa já estereotipada, a mídia japonesa consistentemente encaixa notícias relacionadas à China em modelos preestabelecidos, como "ameaça chinesa", "colapso da China" ou "China como um estado pária". Por exemplo, a comemoração da resistência da China à agressão japonesa é rotulada como "educação antijaponesa"; seus investimentos em infraestrutura no exterior são acusados de criar uma "armadilha da dívida"; a inovação científica e tecnológica é difamada como "roubo de tecnologia"; e o crescimento econômico é descartado como "falsificação estatística". Quando os japoneses ligam a televisão ou leem jornais, veem um vizinho retratado como "perigoso, atrasado e agressivo", e a hostilidade se instala.
Enquanto a mídia tradicional define o tom, as novas mídias e as redes sociais inflamam esse sentimento na base da sociedade. Uma pesquisa recente no Japão revelou que a plataforma de crowdsourcing CrowdWorks veiculava inúmeras postagens oferecendo pagamento pela criação de vídeos curtos que "criticassem a China e elogiassem o Japão". Essa incitação sistemática ao ódio é disseminada algoritmicamente para os internautas japoneses, transformando o sentimento anti-China em uma indústria lucrativa na era da mídia orientada por tráfego, reforçando ainda mais a bolha informacional que molda a opinião pública japonesa sobre a China.
ANSIEDADE SOCIAL PROFUNDA
O ecossistema de opinião pública anti-China no Japão também é produto de uma ansiedade social profunda e das demandas políticas das forças de direita.
Desde o estouro das bolhas econômicas na década de 1990, o Japão vivenciou três décadas de estagnação econômica. Enquanto isso, a ascensão meteórica da China destruiu a antiga autoimagem do Japão como "líder da Ásia", mergulhando a sociedade japonesa em um forte sentimento de perda. Ao amplificar as imagens negativas de seu vizinho, a mídia oferece ao público japonês um conforto ilusório: "Podemos estar estagnados, mas nosso vizinho está assolado por problemas". Esse mecanismo de defesa psicológica de aliviar a ansiedade pessoal menosprezando os outros ampliou o público para reportagens anti-China.

Pessoas participam de protesto em frente ao prédio do parlamento em Tóquio, Japão, em 8 de abril de 2026. (Xinhua/Jia Haocheng)
À medida que o cenário político do Japão se deslocou para a direita, as autoridades governantes conservadoras, em busca da "normalização da nação", têm procurado retratar a China como uma "ameaça externa" e usado isso para mobilizar apoio à revisão da constituição pacifista e à expansão dos armamentos. Nesse movimento, a mídia tem atuado como "animadora de torcida", reduzindo as complexas relações internacionais a uma narrativa simplista de confronto. A intrusão do oficial das Forças de Autodefesa é um resultado direto dessa longa campanha de difamação.
PROBLEMAS INSTITUCIONAIS
A mídia japonesa, sob o pretexto da "liberdade de imprensa", sofre com um sistema de acesso extremamente rígido e uma cultura de autocensura.
O sistema de Clubes de Imprensa é o problema institucional mais criticado no jornalismo japonês. Agências governamentais e os principais partidos políticos mantêm seus próprios clubes de imprensa, onde o acesso a coletivas de imprensa importantes e briefings internos é restrito a membros de grandes veículos de mídia tradicionais, enquanto freelancers, mídias on-line emergentes e correspondentes estrangeiros são excluídos.
Durante o governo do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, a política centrada no gabinete do primeiro-ministro prevaleceu, e o termo "sontaku", que significa antecipar e agir de acordo com os desejos não expressos daqueles no poder, ganhou popularidade. Quando o "anti-China" se tornou politicamente correto e um ímã para a atenção do público, os profissionais da mídia se envolvem em "sontaku", filtrando informações positivas sobre a China para proteger suas carreiras e índices de audiência. Essa censura automática é mais insidiosa e perniciosa do que a interferência administrativa direta.
A primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi (à direita, frente), discursa com Hirofumi Yoshimura (à esquerda, frente), chefe do Partido da Inovação do Japão, durante um evento de campanha em Tóquio, Japão, em 27 de janeiro de 2026. (Xinhua/Jia Haocheng)
Em conclusão, o ecossistema de opinião pública anti-China no Japão é um produto conjunto de manipulação política, ansiedade social, interesses comerciais e falhas sistêmicas na mídia. Quando a população de um país só consegue observar seu vizinho mais importante através de um prisma extremamente distorcido, as consequências políticas certamente serão perigosas.
O caso hediondo de um oficial da Força de Autodefesa do Japão invadindo a embaixada chinesa serve de alerta para a sociedade japonesa. A atmosfera anti-China, cultivada há tempos pelos círculos políticos e pela mídia japonesa, manifestou-se em ódio extremo entre certos indivíduos, e agora isso arrisca se voltar contra a racionalidade e a segurança da própria sociedade japonesa. Contudo, dado o atual clima político, desmantelar as "altas muralhas" psicológicas e institucionais da opinião pública japonesa infelizmente permanece uma perspectiva distante.
Nota da edição: Xiang Haoyu é pesquisador do Departamento de Estudos da Ásia-Pacífico do Instituto Chinês de Estudos Internacionais.
As opiniões expressas neste artigo são do autor e não refletem necessariamente as da Agência de Notícias Xinhua.


