No Vale do Rift, no Quênia, zebras, antílopes e girafas pastam livremente, indiferentes às nuvens de vapor que periodicamente se dissipam no ar. Ali, o calor extraído do interior da Terra é convertido em eletricidade e injetado diretamente na rede elétrica nacional.
Nairóbi, 25 abr (Xinhua) -- O Parque Nacional Hell's Gate, a cerca de 100 quilômetros a noroeste de Nairóbi, capital do Quênia, é famoso por sua paisagem surreal. Menos conhecido é seu papel fundamental no fornecimento de energia para a rede elétrica queniana.
Penhascos vermelhos imponentes se erguem como paredes feitas pelo machado de um gigante, suas faces cobertas pelas cicatrizes solidificadas de antigos fluxos de magma. Entre elas, unidades de energia compactas pontilham a savana, enquanto tubulações de aço serpenteiam por bosques de acácias, canalizando o calor subterrâneo para turbinas.
Zebras, antílopes e girafas pastam livremente, indiferentes às nuvens de vapor que periodicamente se dissipam no ar. Ali, o calor extraído do interior da Terra é convertido em eletricidade e injetado diretamente na rede elétrica nacional.
Esse cenário impressionante sustenta uma distinção rara: a energia geotérmica fornece mais de 40% da eletricidade do Quênia, a maior participação de qualquer país do mundo.

Foto tirada em 21 de abril de 2026 mostra vista do Parque Nacional Hell's Gate, no Vale do Rift, distrito de Nakuru, Quênia. O Vale do Rift, localizado no leste da África, é um dos maiores e mais proeminentes sistemas de fendas continentais do mundo, frequentemente chamado de "cicatriz da Terra". (Xinhua/Xie Jianfei)
ÂNCORA PARA PREÇOS DE ENERGIA
Dados da Autoridade Reguladora de Energia e Petróleo do Quênia e da Agência Internacional de Energia mostram que a energia geotérmica tem contribuído consistentemente com 40% a 48% da eletricidade do Quênia nos últimos anos, tornando-se a principal fonte por uma margem considerável. A maior parte dessa energia provém do campo geotérmico de Olkaria, localizado dentro do próprio Vale do Rift.
Situado no fundo do Vale do Rift, Olkaria abriga um dos reservatórios geotérmicos de alta entalpia mais concentrados e acessíveis do mundo. O potencial geotérmico total do Quênia é estimado em cerca de 10.000 MW, mas, até o final de 2025, a capacidade instalada permanecia abaixo de 4.000 MW, deixando a maior parte dos recursos inexplorados.
Depois de construídas, as usinas geotérmicas têm custos de combustível praticamente nulos. No Quênia, o custo de geração de energia varia entre 0,07 e 0,08 dólares americanos por quilowatt-hora, em comparação com mais de 0,20 dólares para o óleo combustível pesado, uma diferença de mais de dois para um. Para um país com reservas limitadas de combustíveis fósseis, isso se mostrou transformador: a expansão da capacidade geotérmica ajudou a estabilizar as tarifas industriais, protegendo a economia da inflação importada e apoiando a competitividade da indústria.
Ao contrário da energia eólica e solar, a geotérmica fornece energia de base confiável, operando 24 horas por dia, com utilização anual superior a 8.000 horas. Durante períodos de seca, quando a produção de energia hidrelétrica cai drasticamente, ela supre a demanda e mantém a segurança da rede elétrica.

Foto tirada em 20 de abril mostra projeto da usina geotérmica Menengai Fase I Orpower 22, construída pelo Grupo Kaishan da China, no distrito de Nakuru, Quênia. (Xinhua/Xie Jianfei)
Suas aplicações vão além da eletricidade. Perto do Lago Naivasha, a fazenda de flores Oserian usa água de poço geotérmico para aquecer suas estufas, tornando-se a única totalmente geotérmica do Quênia. Fazenda de flores movida a energia renovável. A Empresa Estatal de Desenvolvimento Geotérmico (GDC, na sigla em inglês) expandiu projetos de uso direto em diversos setores, como agricultura, indústria e turismo, incluindo pasteurização de leite, aquicultura e aquecimento de estufas. Da rede elétrica nacional aos campos cultivados, esse calor subterrâneo está se integrando ao tecido da economia queniana.
QUEBRANDO O MONOPÓLIO
A jornada geotérmica do Quênia remonta à década de 1950. A inauguração da usina Olkaria I, em 1981, tornou o país o primeiro africano a gerar eletricidade a partir de energia geotérmica.
Durante décadas, no entanto, o progresso foi lento, limitado pelo monopólio tecnológico detido por empresas ocidentais e japonesas sobre os principais equipamentos. Em seu ponto mais baixo, a GDC passou mais de uma década sem inaugurar uma única nova usina.
Essa dinâmica mudou. Empresas chinesas romperam o monopólio, oferecendo soluções mais econômicas. Liderando essa iniciativa está o Grupo Kaishan, uma empresa privada de Quzhou, na província de Zhejiang, embora sua entrada no mercado não tenha sido fácil.
"Inicialmente, o governo queniano estava cético em relação a nós", relembrou o presidente Cao Kejian. "Então, financiei pessoalmente a construção da primeira usina, mais de 53 milhões de dólares do meu próprio bolso". A aposta valeu a pena. Atuando como empreiteira EPC, a Kaishan construiu a usina Sosian Menengai, a primeira instalação geotérmica operada por iniciativa privada no campo de Menengai, que iniciou suas operações em agosto de 2023, após passar por rigorosas avaliações de terceiros.
Com suas credenciais estabelecidas, a Kaishan passou de empreiteira a proprietária. No final de 2023, adquiriu a OrPower 22. A Kaishan Energy, produtora independente de energia em Menengai, iniciou imediatamente a construção de uma nova usina. Concluída em apenas 14 meses, a instalação começou a operar comercialmente em março de 2026, tornando-se o primeiro projeto geotérmico da África totalmente financiado, construído e operado por uma empresa chinesa. Atualmente, é considerada a usina geotérmica de melhor desempenho em operação no Quênia.
A ambição não se limita à geração de eletricidade. Em Olkaria, a Kaishan está desenvolvendo o primeiro projeto integrado de energia geotérmica para hidrogênio e amônia do mundo. Uma usina de 165,4 MW gerará eletricidade para produzir hidrogênio verde por meio de eletrólise; esse hidrogênio é então combinado com nitrogênio atmosférico e dióxido de carbono natural proveniente dos poços geotérmicos para fabricar amônia verde e fertilizantes, com matérias-primas provenientes quase inteiramente de fontes locais.
Espera-se que o projeto produza 180.000 toneladas de ureia e 300.000 toneladas de nitrato de amônio e cálcio anualmente, preenchendo uma lacuna significativa na produção nacional de fertilizantes do Quênia e aliviando o fardo dos agricultores locais.

O presidente queniano, William Ruto, participa da cerimônia de inauguração de um projeto de fertilizantes verdes financiado pela China, realizada no distrito de Nakuru, Quênia, em 3 de novembro de 2025. (Xinhua/Li Yahui)
Na cerimônia de inauguração, o presidente Ruto classificou o investimento como "eficiente, confiável e sustentável", acrescentando que ele reforçará a segurança alimentar e "economizará ao Quênia grandes somas de moeda forte anteriormente gastas na importação de fertilizantes, marcando um passo significativo rumo à industrialização verde resiliente às mudanças climáticas".
O gerente-geral da Kaishan, Dr. Tang Yan, apresentou uma visão mais ampla. "Esperamos trabalhar em conjunto com o setor de energia do Quênia", disse ele, acrescentando que "aproveitaremos a tecnologia geotérmica modular da Kaishan e os recursos extraordinários do Quênia para construir um ecossistema de energia verde que abranja energia limpa, hidrogênio verde, amônia verde e metanol verde, e juntos conduziremos a África rumo a um futuro mais verde e sustentável".
CONSTRUINDO JUNTOS UM FUTURO VERDE
O presidente Ruto fez da "industrialização verde" um pilar central de sua agenda. Em sua posse, ele disse aos quenianos que o país estava "em transição para energia limpa, o que apoiará empregos, economias locais e industrialização sustentável", e fez um apelo aos demais líderes africanos: "A África pode liderar o mundo. Temos um imenso potencial para energia renovável".
O Quênia almeja não apenas atender às suas próprias necessidades energéticas, mas também demonstrar que os países em desenvolvimento podem alcançar um crescimento rápido, honrando seus compromissos climáticos. Nesse esforço, a China emergiu como um parceiro decisivo.
No Fórum de Cooperação China-África, na Cúpula de Beijing, a China anunciou 10 ações de parceria para o avanço conjunto da modernização, incluindo uma Parceria para o Desenvolvimento Verde, comprometida com a implementação de projetos de energia limpa em toda a África. No Quênia, esse compromisso é visível em todo o país.
A barragem de Thwake, do Grupo Gezhouba da China, levará segurança hídrica, irrigação e energia hidrelétrica para mais de 1,3 milhão de pessoas na região leste do Quênia, historicamente afetada pela escassez de água. No distrito de Garissa, uma usina solar de 50 MW construída pela China, a maior instalação fotovoltaica da África Oriental, fornece energia limpa para comunidades há muito tempo isoladas da rede elétrica nacional. Em Nairóbi, empresas chinesas estão contribuindo para o projeto de conversão de resíduos em energia de Dandora, transformando um antigo problema de gestão de resíduos em um modelo de economia circular.

Foto aérea tirada em 15 de fevereiro de 2019 mostra a Usina Solar de Garissa, no nordeste do Quênia. (Xinhua)
A própria rede elétrica foi transformada. O China Energy Engineering Group construiu a interconexão de 400 kV entre Quênia e Tanzânia, enquanto a China State Grid ajudou a construir a primeira linha de corrente contínua de alta tensão da África Oriental, integrando a energia hidrelétrica etíope à rede queniana. Juntos, transformaram uma rede nacional isolada em um sistema regional.
"Como líder global neste setor", disse o presidente Ruto, "o Quênia continua demonstrando como cada nação pode alcançar um crescimento sustentável, rápido e transformador, mantendo-se fiel aos seus compromissos com a ação climática".
Nas profundezas do Vale do Rift, o vapor continua subindo incessantemente do interior da Terra. Turbinas zumbem silenciosamente entre as acácias, convertendo essa energia subterrânea em luz para milhões de pessoas e, em breve, em nutrientes para os campos do país.
Em um mundo turbulento, ávido por segurança energética, o Quênia oferece uma resposta convincente: a transição para energia verde pode começar no solo que você pisa.










