
Foto tirada em 30 de novembro de 2023 mostra a sede da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) em Viena, Áustria. (Xinhua/He Canling)
Cairo, 29 abr (Xinhua) -- Os Emirados Árabes Unidos (EAU) anunciaram na terça-feira que se retirarão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), marcando o fim de sua aliança de décadas com o cartel.
A decisão, apresentada por autoridades emiradenses como uma "escolha soberana e estratégica", acredita-se que esteja mais alinhada com a visão econômica de longo prazo e as ambições de produção do país. No entanto, especialistas argumentam que a medida pode direcionar a geopolítica energética global para uma estrutura mais fragmentada.
DECISÃO "SOBERANA"
Os Emirados Árabes Unidos formalizaram sua saída por meio de um comunicado divulgado pela Agência de Notícias Oficial dos Emirados (WAM) na terça-feira, confirmando sua saída tanto da OPEP quanto da aliança mais ampla OPEP+.
A retirada deve entrar em vigor em 1º de maio, removendo o terceiro maior produtor do grupo de seu sistema de cotas. Analistas estimam que a OPEP perderá cerca de 15% de sua capacidade.

Foto tirada em 5 de setembro de 2022 mostra a sede da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) em Viena, Áustria. (Foto de Wang Zhou/Xinhua)
A decisão foi tomada após "uma análise cuidadosa das políticas atuais e futuras relacionadas ao nível de produção", disse o ministro da Energia, Suhail Mohamed Al Mazrouei, à agência britânica de notícias Reuters, acrescentando que os Emirados Árabes Unidos não discutiram o assunto com nenhum outro país.
O Ministério das Relações Exteriores compartilhou da mesma opinião, com sua diretora de comunicação, Afra Mahash Al Hameli, descrevendo na plataforma X a saída como uma "escolha soberana e estratégica, fundamentada em sua visão econômica de longo prazo".
Al Hameli disse que a medida dará ao país maior flexibilidade no uso de sua capacidade energética, fortalecerá o desenvolvimento nacional e reforçará a confiança do mercado.
CAMINHOS DIVERGENTES
A decisão dos Emirados Árabes Unidos, segundo analistas, reflete uma mudança estratégica impulsionada pela expansão de sua capacidade de produção e rotas de exportação independentes, ressaltando uma ambição mais ampla de se tornar um líder global versátil em energia, para além das restrições do cartel.
Mohamed Nour El-Din Hashim, economista sudanês, acredita que a saída dos Emirados Árabes Unidos é motivada por um desejo estratégico de se libertar das restrições de produção da OPEP para maximizar as receitas com petróleo.
"Isso é especialmente verdadeiro depois que Abu Dhabi fez investimentos substanciais na expansão de sua capacidade de produção de petróleo nos últimos anos", disse Hashim.

Foto tirada em 28 de junho de 2021 mostra o parque industrial da gigante petrolífera saudita Aramco em Dammam, Arábia Saudita. (Xinhua/Hu Guan)
Embora as tensões regionais tenham praticamente paralisado a navegação pelo Estreito de Ormuz, os Emirados Árabes Unidos possuem rotas de exportação alternativas com maior flexibilidade, disse ele, aumentando a confiança na gestão de suas políticas petrolíferas "fora dos compromissos coletivos da OPEP+".
Além do petróleo, os Emirados Árabes Unidos querem se tornar um centro energético global em um sentido mais amplo, abrangendo petróleo, gás, hidrogênio e energias renováveis, observou o analista político emiradense, Abdulaziz Sultan Al-Mamari.
O país quer buscar "maior autonomia" para melhor gerenciar seus "níveis de produção" e cumprir seu novo papel no mercado global, disse Al-Mamari à Xinhua.
Em uma escala maior, Jumaa Mohammed, professor de ciência política da Universidade de Tikrit, no Iraque, argumenta que a OPEP vem enfrentando cada vez mais dificuldades para equilibrar as diferentes estratégias de produção de seus membros.
"A prova mais contundente: os Emirados Árabes Unidos não consultaram a Arábia Saudita", disse Mohammed. "Na cultura do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), isso nunca tinha acontecido. As decisões importantes sempre foram precedidas por reuniões e coordenação".
Isso, no entanto, não significa uma ruptura política interna, disse Al-Mamari.
"Os países do Golfo estão passando por uma fase de reposicionamento econômico e soberano, caracterizada por ferramentas e abordagens diversificadas, sem afetar os fundamentos da coordenação estratégica entre eles", acrescentou ele.
ORDEM ENERGÉTICA FRAGMENTADA
A saída dos Emirados Árabes Unidos não apenas acarreta volatilidade nos preços do petróleo no curto prazo, argumentam especialistas regionais, mas também sinaliza uma mudança da disciplina coletiva da OPEP para uma ordem energética mais fragmentada e orientada pelo mercado.
Mohammed Belqasim Al Barghouti, professor sírio de economia política, defende a visão de que a saída de um país do porte dos Emirados Árabes Unidos, um produtor influente, pode enfraquecer a coesão da OPEP, mas não sua influência geral.
"Na realidade, o peso da organização hoje depende em grande parte de um eixo central liderado pela Arábia Saudita dentro da OPEP, juntamente com sua parceria com a Rússia no âmbito da OPEP+", disse Al Barghouti.
Assim, o impacto será mais no nível de disciplina dentro da aliança do que em um colapso da organização, disse ele.

Foto tirada em 1º de setembro de 2024 mostra vista de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. (Xinhua/Sui Xiankai)
Ainda assim, qualquer sinal de fragmentação dentro da OPEP poderia gerar volatilidade e incerteza nos preços do petróleo, destacou Oytun Orhan, pesquisador sênior do Centro de Estudos do Oriente Médio, com sede em Ancara.
"Se os Emirados Árabes Unidos aumentarem a produção fora das cotas, isso poderá pressionar os preços para baixo, especialmente se coincidir com uma desaceleração da demanda global", disse o pesquisador.
A longo prazo, o analista político sudanês Abdul-Rahman Awad disse que a decisão pode marcar o início de uma nova fase, na qual os cálculos nacionais se sobrepõem à disciplina coletiva.
O especialista alertou: "A decisão dos Emirados Árabes Unidos pode marcar o início de uma nova fase no mercado global de energia, na qual os blocos tradicionais perdem a capacidade de impor disciplina coletiva, dando lugar a políticas mais independentes, guiadas por cálculos nacionais".
Al-Mamari também acredita que isso pode acelerar uma mudança estrutural, afastando-se da gestão coletiva da oferta.
"A decisão pode fazer parte de uma transformação estrutural mais ampla na arquitetura energética global, passando de mecanismos de controle coletivo para um modelo mais aberto, regido pela dinâmica da oferta e da demanda e pelo equilíbrio de poder entre os produtores", concluiu ele.

