Cúpula da OTAN expõe divisões crescentes à medida que exigências dos EUA inquietam aliados-Xinhua

Cúpula da OTAN expõe divisões crescentes à medida que exigências dos EUA inquietam aliados

2026-07-11 15:01:01丨portuguese.xinhuanet.com

* O presidente dos EUA, Donald Trump, pressionou os membros da OTAN a aumentar os gastos com defesa e segurança para 5% do PIB, exercendo uma pressão crescente sobre os orçamentos europeus.

* Trump também reiterou sua afirmação de que os Estados Unidos deveriam controlar a Groenlândia, um território autônomo do Reino da Dinamarca, provocando críticas de vários membros da OTAN.

* Trump também trouxe a crise do Irã para a cúpula, declarando-se "muito decepcionado" com os demais membros da OTAN em relação ao que considerou um apoio insuficiente às operações de Washington contra o Irã.

Ancara, 9 jul (Xinhua) -- Os líderes da OTAN encerraram na quarta-feira uma cúpula de dois dias com promessas de unidade cuidadosamente formuladas e anúncios de novas aquisições de armamentos. No entanto, a pressão do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre gastos com defesa, a Groenlândia e o Irã escancarou as crescentes divisões internas da aliança.

Em sua declaração final, a OTAN reafirmou seu "compromisso inabalável" com a defesa coletiva nos termos do Artigo 5º do Tratado de Washington, declarando que "atacar um é atacar todos". A aliança também anunciou mais de 50 bilhões de dólares americanos em novas aquisições de armas, se comprometeu a expandir a capacidade de produção coletiva e prometeu acelerar a inovação na área de defesa.

A declaração disse que os aliados europeus e o Canadá estão assumindo maior responsabilidade pela defesa da aliança e agora financiam a "grande maioria" da assistência de segurança à Ucrânia. O documento prometeu 70 bilhões de euros (cerca de 80 bilhões de dólares) em equipamentos militares, assistência e treinamento para a Ucrânia em 2026, e reafirmou o compromisso de manter níveis pelo menos equivalentes em 2027.

Contudo, a cúpula não apresentou um roteiro concreto sobre como os aliados implementariam a exigência de Washington de um aumento acentuado nos gastos militares.

Baris Doster, especialista em relações internacionais da Universidade de Marmara, em Istambul, disse que os anúncios de aquisição eram "declarações vagas e sem base sólida", acrescentando que as críticas contundentes de Trump aos aliados europeus enfraqueceram a atmosfera diplomática da cúpula.

PRESSÃO POR GASTOS COM DEFESA GERA ATRITO

Trump tem pressionado os membros da OTAN a elevar os gastos com defesa e segurança para 5% do PIB, argumentando que a Europa tem dependido excessivamente dos Estados Unidos para sua segurança.

Policiais fazem verificações de segurança em uma via principal antes da Cúpula da OTAN em Ancara, Turquia, em 5 de julho de 2026. (Mustafa Kaya/Divulgação via Xinhua)

No Fórum da Indústria de Defesa da Cúpula da OTAN, realizado na terça-feira, os aliados anunciaram novos planos de aquisição abrangendo defesa aérea, ataques de longo alcance, vigilância, sistemas não tripulados e outras capacidades militares. Os projetos incluíam aeronaves não tripuladas Triton, aeronaves GlobalEye, novas capacidades relacionadas ao Sistema de Alerta e Controle Aerotransportado (AWACS, na sigla em inglês), iniciativas com drones e outros acordos de aquisição envolvendo empresas de defesa dos EUA e da Europa.

Trump deixou claro que os fabricantes de armas dos EUA estariam entre os beneficiários do acelerado fortalecimento militar da Europa.

"As empresas de defesa fabricarão a maior parte desses equipamentos", disse Trump a repórteres. "Eles querem os equipamentos americanos porque funcionam melhor. Nós fabricamos os melhores equipamentos do mundo".

Ele também disse, em uma coletiva de imprensa após a cúpula, que os gastos militares de outros países da OTAN aumentaram quase 150 bilhões de dólares em 2025, e que grande parte desse dinheiro seria para comprar equipamentos fabricados nos EUA.

Giuseppe Gagliano, presidente do Centro de Estudos Estratégicos Carlo De Cristoforis, sediado na Itália, disse que os gastos com defesa se tornaram a nova doutrina econômica da OTAN.

"A meta de 3,5% do PIB para a defesa propriamente dita, mais 1,5% para áreas mais amplas relacionadas à segurança, significa um redirecionamento massivo de recursos públicos para a indústria militar", escreveu Gagliano em uma publicação nas redes sociais.

Ele alertou que essa mudança exerceria uma pressão crescente sobre os orçamentos europeus, uma vez que os gastos com defesa competem com investimentos em bem-estar social, infraestrutura e educação.

A questão dos gastos também desencadeou novas tensões entre Washington e Madri. Trump criticou a Espanha por resistir a metas mais altas de gastos militares e ameaçou cortar o comércio com o país, gerando preocupação na Europa quanto ao uso de pressão econômica dentro da aliança.

COMENTÁRIOS SOBRE A GROENLÂNDIA AUMENTAM TENSÃO

A cúpula foi ainda mais complicada pelas novas declarações de Trump sobre a Groenlândia, um território autônomo do Reino da Dinamarca.

Trump voltou a levantar a questão durante a cúpula, dizendo que os Estados Unidos deveriam controlar a ilha ártica. Ele argumentou que a Groenlândia é estrategicamente importante para os Estados Unidos e criticou a forma como a Dinamarca administra o território.

O presidente dos EUA, Donald Trump, fala em uma coletiva de imprensa na Cúpula da OTAN 2026 em Ancara, Turquia, em 8 de julho de 2026. (Mustafa Kaya/Divulgação via Xinhua)

A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, rejeitou prontamente a alegação, enfatizando que a Groenlândia "não está à venda" e pedindo que os aliados respeitem a soberania da Dinamarca e o direito da Groenlândia à autodeterminação.

As declarações de Trump atraíram críticas de vários membros da OTAN. O presidente finlandês, Alexander Stubb, cujo país está entre os membros mais recentes da OTAN e está intimamente envolvido em assuntos do Ártico, rejeitou a alegação, dizendo que as questões relativas à Groenlândia devem ser decididas pela Dinamarca e pela própria Groenlândia.

A primeira-ministra islandesa, Kristrun Frostadottir, também deixou claro que o futuro da Groenlândia deve ser decidido pelo seu próprio povo. "Isto é inegociável: a Groenlândia pertence ao povo da Groenlândia", disse ela.

Jacob Kaarsbo, comentarista de política externa e de segurança e ex-analista-chefe do Serviço de Inteligência de Defesa Dinamarquês, disse que a intenção de Trump de tomar a Groenlândia não desaparecerá tão facilmente.

Ele disse que Trump não acredita na OTAN no sentido tradicional, nem vê os países europeus como aliados iguais. Em vez disso, disse Kaarsbo, Trump os trata como peões em um tabuleiro de xadrez geopolítico.

CRISE NO IRÃ COMPLICA A CÚPULA

O Irã também contribuiu para o aumento das tensões na cúpula. Embora o assunto não estivesse no centro da agenda formal da OTAN, Trump trouxe a crise para a cúpula ao dizer que está "muito decepcionado" com os demais membros da OTAN pelo que considerou apoio insuficiente às operações de Washington contra o Irã.

Os países europeus, já pressionados pelos gastos com defesa, enfrentaram novas críticas de Trump por sua relutância em se alinhar totalmente aos Estados Unidos em relação ao Irã e ao Estreito de Ormuz.

O presidente dos EUA, Donald Trump, participa da Cúpula da OTAN 2026 em Ancara, Turquia, em 8 de julho de 2026. (Mustafa Kaya/Divulgação via Xinhua)

As tensões aumentaram quando Trump alertou sobre a retomada do bloqueio naval no Estreito de Ormuz e a possível tomada da ilha iraniana de Kharg. Ele acrescentou que as forças armadas dos EUA poderiam atacar o Irã novamente já na noite de quarta-feira.

"Das ameaças comerciais sem precedentes contra a Espanha às reivindicações absurdas sobre a Groenlândia e à escalada repentina com o Irã, Trump sequestrou completamente a cúpula para atender às suas necessidades políticas internas e à indústria armamentista americana", disse Doster.

Doster disse que Trump transformou efetivamente a aliança em um esquema de proteção caótico e transacional, "levando os aliados a questionar se a maior ameaça ao futuro da OTAN vem de adversários externos ou do próprio Washington".

(Repórteres de vídeo: Wu Yao e Umut Ozlu; edição de vídeo: Hong Liang, Zhu Cong, Zhang Mocheng e Zhang Yichi)

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