Para onde caminham as renovadas tensões entre EUA e Irã?-Xinhua

Para onde caminham as renovadas tensões entre EUA e Irã?

2026-07-22 10:55:41丨portuguese.xinhuanet.com

* A retomada da troca de ataques entre os Estados Unidos e o Irã lançou uma grave incerteza sobre o futuro da diplomacia e da paz.

* As negociações entre as partes estagnaram em meio à intensificação de disputas sobre o Estreito de Ormuz e à escalada das hostilidades.

* No sábado, o Irã anunciou a suspensão do cumprimento de suas obrigações previstas em um memorando de entendimento (MoU, na sigla em inglês), acusando Washington de violar os compromissos do acordo.

Teerã/Washington, 20 jul (Xinhua) -- Um mês após o Irã e os Estados Unidos assinarem um memorando de entendimento (MoU, na sigla em inglês), a retomada da troca de ataques entre eles lançou uma grave incerteza sobre o futuro da diplomacia e da paz.

Nos termos do MoU, esperava-se que os dois lados realizassem conversas visando um acordo abrangente dentro de 60 dias. No entanto, as negociações estagnaram em meio à intensificação de disputas sobre o Estreito de Ormuz e à escalada das hostilidades.

No sábado, o Irã anunciou a suspensão do cumprimento de suas obrigações previstas no MoU, acusando Washington de violar os compromissos do acordo.

O anúncio ocorreu após os Estados Unidos realizarem múltiplas rodadas de ataques contra o Irã nos últimos dias, enquanto Teerã respondeu com ataques de retaliação contra bases e instalações dos EUA na região do Golfo.

Bombeiro da Defesa Civil do Bahrein apaga incêndio causado pela queda de destroços de drones iranianos interceptados em Hamad Town, Bahrein, em 11 de junho de 2026. (Ministério do Interior do Bahrein/Divulgação via Xinhua)

CESSAR-FOGO FRÁGIL

Na noite de domingo, forças dos EUA lançaram uma nova onda de ataques contra o Irã pela nona noite consecutiva. No mesmo dia, Jordânia, Kuwait e Bahrein relataram novos ataques iranianos.

Um militar dos EUA morreu em combate no norte do Iraque durante a detonação controlada de munição não detonada proveniente de um drone iraniano de ataque unidirecional abatido no sábado, informou o Comando Central dos EUA (CENTCOM, na sigla em inglês) no domingo.

Separadamente, militares dos EUA encontraram restos mortais não identificados no domingo, depois que o CENTCOM anunciou, no sábado, a morte de dois militares americanos e o desaparecimento de um terceiro na Jordânia, na sequência de um ataque iraniano ocorrido na sexta-feira.

O fator-chave que impulsiona essa nova rodada de combates é a tentativa de Washington de minar o controle do Irã sobre o Estreito de Ormuz e, assim, reduzir a influência iraniana sobre os preços do petróleo, disse Sourabh Gupta, pesquisador sênior do Instituto de Estudos China-América, em Washington, D.C.

Teerã vê essa tentativa de minar sua posição como uma manobra enganosa de Washington para anular as conquistas duramente obtidas pelo Irã na rodada anterior de confrontos. Por isso, ambos os lados estão agora entrincheirados e voltaram a lutar, disse ele.

A retomada dos ataques reflete a fragilidade do cessar-fogo. Eyal Zisser, vice-reitor da Universidade de Tel Aviv e especialista em questões do Oriente Médio, disse que o problema com o MoU existia desde o início, pois o documento continha compromissos políticos amplos, mas pouquíssimos detalhes operacionais, deixando muitas das questões mais sensíveis sem solução.

Mustafa Ibrahim, analista político sediado em Gaza, disse que o MoU não resolveu nada, apenas adiou a discussão sobre as questões mais controversas.

Essas questões incluem o programa de enriquecimento de urânio e o programa de mísseis balísticos do Irã, as sanções dos EUA e as disputas sobre a gestão do Estreito de Ormuz, as taxas cobradas de petroleiros e as exportações de petróleo por essa via navegável, disse ele.

Por sua vez, Refaat Badawi, analista político e ex-assessor presidencial no Líbano, disse que, apesar da assinatura do MoU, é difícil para os Estados Unidos implementá-lo e também difícil para o Irã aceitar qualquer transgressão aos termos desse memorando.

"Acredito que as principais razões que levaram a essa nova escalada, e de forma mais profunda do que anteriormente, são a perda de confiança entre os Estados Unidos e o Irã. Essa questão não terá solução tão cedo, pois o fator confiança entrou em uma fase muito delicada, especialmente depois que Trump retirou os EUA do acordo de 2015", disse ele.

Edifício com uma placa referente às negociações entre o Irã, os Estados Unidos e os mediadores é fotografado em Burgenstock, perto de Lucerna, na Suíça, em 22 de junho de 2026. (Xinhua/Lian Yi)

DESCONFIANÇA ESTRATÉGICA

Para muitos observadores, os pontos de tensão imediatos representam apenas uma parte da história. Por trás dos ciclos recorrentes de escalada, existe um confronto estratégico muito mais profundo que molda as relações entre Washington e Teerã há mais de quatro décadas, com ambos considerando a influência regional como um elemento central para sua segurança nacional e seus interesses de longo prazo.

"Qualquer entendimento alcançado entre Washington e Teerã é frequentemente difícil de sustentar devido à profunda desconfiança entre as duas partes", disse Naji Ajeeb, pesquisador sudanês especializado em conflitos. "A disputa entre eles é enraizada em fatores históricos, de segurança e geopolíticos, em vez de se limitar à questão nuclear ou aos desdobramentos políticos atuais".

Desde a Revolução Islâmica do Irã em 1979, as relações entre Washington e Teerã evoluíram para um estado institucionalizado de hostilidade, enquanto décadas de crises aprofundaram a rivalidade, desde a crise dos reféns na embaixada dos EUA em Teerã até sanções econômicas, disputas sobre o programa nuclear iraniano e confrontos indiretos por meio de aliados regionais, observou ele.

"Nenhum dos lados vê as ações do outro como movimentos isolados", disse ele. "Em vez disso, cada um as interpreta dentro de uma percepção mais ampla de ameaça, tornando até mesmo acordos temporários frágeis e suscetíveis ao colapso".

ALTO CUSTO

Apesar da retomada dos combates, analistas acreditam que o alto custo de uma escalada maior torna improvável uma guerra em grande escala.

Nem Washington nem Teerã parecem interessados ​​em uma guerra em grande escala, dado o potencial de enormes perdas. Os Estados Unidos enfrentam pressões econômicas internas crescentes, incluindo a disparada dos preços do petróleo, enquanto o Irã sofreu ataques militares pesados ​​que prejudicaram ainda mais sua economia, disse Mustafa Ibrahim.

Um acordo permanece possível se ambos os lados conseguirem chegar a um entendimento sobre questões-chave, particularmente o alívio das sanções, as políticas dos EUA em relação ao Estreito de Ormuz e outras disputas não resolvidas, disse ele.

Foto fornecida pelo Ministério da Informação de Omã em 20 de junho de 2026 mostra o Estreito de Ormuz. (Xinhua)

Sourabh Gupta, pesquisador sênior do Instituto de Estudos China-América, argumentou que qualquer tentativa de Washington de assumir o controle do Estreito de Ormuz ou dos terminais de exportação de petróleo do Irã acarretaria um alto custo militar e econômico, tornando mais provável que os dois lados acabem retornando às negociações para resolver questões que não podem ser solucionadas por meios militares.

Analistas observaram, no entanto, que evitar uma guerra em grande escala não significa necessariamente estabilidade duradoura. Eles disseram que a diplomacia provavelmente coexistiria com uma competição estratégica contínua, mantendo o risco de escaladas periódicas e repercussões regionais e globais mais amplas.

"A equação atual se baseia na tentativa de cada lado de fortalecer sua posição de negociação sem empurrar a região para um conflito aberto", disse o economista sudanês Mohamed Al-Nayer. "Mas, enquanto a confiança mútua não existir, o risco de uma nova escalada sempre persistirá".

Se o conflito persistir, ele acabará transformando o Oriente Médio em uma arena aberta onde os limites de todos serão testados, deixando de poupar até mesmo os Estados do Golfo, disse Jumaa Mohammed, professor de política da Universidade de Tikrit, no Iraque.

Com ataques atingindo o Bahrein, o Kuwait e a Jordânia, todos os países da região estão agora na linha de frente, diante de um dilema crítico: abrigar bases dos EUA ou correr o risco de se tornarem alvos iranianos, disse ele.

Abu Bakr al-Deeb, consultor do Centro Árabe de Pesquisas e Estudos, sediado no Cairo, disse que uma escalada do conflito poderia desmantelar a arquitetura de segurança liderada pelo Ocidente que ainda resta, expondo os Estados Unidos como uma fonte de instabilidade global, em vez de um garantidor da segurança.

"Vejo países da região, que antes dependiam da proteção militar dos EUA, começando a perceber que esse alinhamento traz apenas conflitos, ruína econômica e guerras por procuração para suas portas, forçando-os a reconsiderar suas alianças", disse ele.

Em uma perspectiva ampla, tensões prolongadas entre os EUA e o Irã deixariam o Oriente Médio em um cenário de segurança muito mais frágil, observou Eyal Zisser.

"Em vez de caminhar para uma ordem regional estável após o recente cessar-fogo, a região poderia entrar em um período prolongado de crises recorrentes, confrontos militares limitados e incerteza constante", disse Zisser.

(Repórteres de vídeo: Nick Kolyohin, Feng Guorui, He Yiping, Basel Quol e Xu Haofu, Adel Ahmed, Huang Zemin, Zhao Weihong, Sana Kamaile e Hadeer Abu Keweike; edição de vídeo: Zhang Yichi, Wei Yin e Wang Han)

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