
Foto aérea tirada por drone em 25 de março de 2024 mostra vista de Swakopmund, na Namíbia. (Xinhua/Chen Cheng)
Poucos lugares no planeta apresentam contrastes tão marcantes quanto este trecho da costa da Namíbia, no sudoeste da África. Séculos de colonização deixaram uma marca europeia permanente no local. Hoje, a cooperação no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota está abrindo uma nova rota marítima rumo ao futuro.
Por Yang Dingdu, Lin Jing e Musa C. Kaseke
Walvis Bay, Namíbia, 22 jul (Xinhua) -- Poucos lugares no planeta apresentam contrastes tão marcantes quanto este trecho da costa da Namíbia, no sudoeste da África.
Aqui, o Deserto do Namibe mergulha diretamente no Atlântico, e a linha da costa divide o mundo em dois: de um lado, areia que se estende além do alcance da vista; do outro, um azul que se funde ininterruptamente com o céu.
O ar quente do deserto encontra a corrente oceânica fria ao largo da costa e se condensa em uma neblina marinha que nunca se dissipa totalmente, envolvendo duas cidades vizinhas, Walvis Bay ao sul e Swakopmund ao norte, em uma umidade revigorante, em uma região costeira que registra um dos índices pluviométricos mais baixos do planeta.
Séculos de colonização deixaram uma marca europeia permanente no local. Hoje, a cooperação no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota está abrindo uma nova rota marítima rumo ao futuro.
SAINDO DA NEBLINA
A neblina ergue-se do oceano e instala-se sobre a costa, onde o ar abrasador do Namibe encontra as águas geladas da Corrente de Benguela, e se transforma em uma massa densa de tom cinza-esbranquiçado. Séculos atrás, eram as canhoneiras coloniais que rasgavam essa neblina.
Por ser o único porto de águas profundas ao longo de quase 3.000 km de litoral no sudoeste da África, Walvis Bay foi palco de disputas durante séculos. Navegadores portugueses chegaram a esta costa primeiro. Holandeses e britânicos vieram em seguida. Em 1878, o Reino Unido proclamou a posse de Walvis Bay, incorporando-a à Colônia do Cabo em 1884, o mesmo ano em que a Alemanha reivindicou o vasto interior como Sudoeste Africano Alemão.
Como o Reino Unido detinha o único porto natural, os alemães construíram o seu próprio. Em 1892, fundaram Swakopmund, a cerca de 30 km ao longo da costa, na esperança de dar à sua colônia uma saída para o mar. As duas cidades seguiram caminhos distintos: em Walvis Bay fala-se inglês; em Swakopmund, alemão. As ruas de Walvis Bay são ladeadas por bangalôs coloniais com varandas frontais e lojas de esquina que vendem peixe com fritas; as de Swakopmund exibem fileiras de construções alemãs em estilo enxaimel, com telhados íngremes e empena, e tavernas que exalam o aroma de chope e joelho de porco assado.
Entre 1904 e 1908, tropas coloniais alemãs, ao reprimirem uma revolta dos povos Herero e Nama, perpetraram massacres que chocaram o mundo: inúmeras pessoas morreram a tiros, e muitas outras foram forçadas a adentrar o deserto, onde pereceram de sede e desespero. A pitoresca cidade litorânea de Swakopmund abrigou um dos campos de concentração onde essas pessoas foram mantidas. Mais tarde, Walvis Bay se tornou um exclave sul-africano, sendo devolvida à Namíbia apenas em 1994, e só então as cidades-irmãs, separadas pela rivalidade colonial, passaram a pertencer verdadeiramente a um mesmo país.
Hoje, a memória daquela matança e opressão vai se dissipando. Nos arredores de Walvis Bay, cerca de 5.000 hectares de salinas brilham em tons de rosa, tanque após tanque, colorindo a neblina e as nuvens acima. Ali, a Walvis Bay Salt Holdings extrai mais de 1 milhão de toneladas de sal marinho por ano, utilizando a força do sol e do vento, o que a torna a maior produtora de sal marinho solar da África Subsaariana. Em Swakopmund, a antiga estação ferroviária se transformou em hotel, e o farol centenário, com suas cores vermelha e branca, continua piscando em meio à névoa. Elegantes edifícios europeus de época e a autêntica cerveja alemã permanecem vivos. Os vestígios do colonialismo adquiriram uma aura romântica.

Flamingos são vistos em Walvis Bay, na Namíbia, em 5 de junho de 2022. (Xinhua/Chen Cheng)
Os cafés, restaurantes e butiques de Swakopmund ficam lotados principalmente de visitantes europeus, sobretudo alemães, e a língua alemã ecoa por suas ruas. Isso ocorre, neste verão, mais do que nunca, enquanto ondas de calor sucessivas castigam a Europa e recordes de temperatura são quebrados em todo o continente, ao passo que este trecho do litoral, em pleno período de temperaturas mais amenas do hemisfério sul, permanece envolto em neblina marinha, um mundo à parte.
Ao passar de carro por uma casa de repouso, é possível avistar em um pátio de estilo europeu uma idosa de cabelos brancos cortando o cabelo de um senhor. É uma cena de ternura tranquila e, no entanto, remete à inflação, ao mal-estar e à divisão que marcam a Europa atual. Quantos europeus, nos próximos anos, ainda terão condições de pagar por férias do outro lado do mundo? Por quanto tempo pode durar uma prosperidade que depende de turistas vindos de longe?
VIDA JUNTO AO MAR
Swakopmund transformou a neblina marinha em lazer. Walvis Bay, situada a cerca de 30 km de distância, fez do mar sua fonte de sustento.
A nordeste das salinas rosadas, dezenas de milhares de flamingos se alimentam calmamente nas águas rasas da lagoa costeira, abrindo de tempos em tempos suas asas carmesim para planar rente à superfície da água.
Ao redor da lagoa, na ponta da restinga, milhares de lobos-marinhos-do-cabo descansam nas margens e brincam nas ondas. Em um breve passeio de barco, golfinhos acompanham a embarcação, e os mais sortudos podem avistar o dorso arqueado de uma baleia-jubarte e o movimento lento de sua cauda batendo na água.
Esse espetáculo natural atrai mais do que apenas europeus. Por mais longa que seja a viagem, grupos de turistas chineses agora aparecem regularmente nos restaurantes chineses de Walvis Bay. Mesmo que o número de visitantes europeus um dia diminuísse, é pouco provável que esta costa ficasse silenciosa.
E as dádivas que o mar oferece a essas cidades vão muito além da paisagem.
A Corrente de Benguela segue para o norte ao longo da costa, trazendo águas profundas ricas em nutrientes para a superfície e sustentando um dos ecossistemas marinhos mais produtivos da Terra. Todas as manhãs, pescadas, carapaus e peixes-sapo são desembarcados dos barcos, e unidades de processamento enviam filés, farinha de peixe e conservas para o exterior. Em toda a Namíbia, cerca de 16.000 pessoas trabalham diretamente na pesca, no processamento e na logística relacionada, a maioria delas sediada nas cidades portuárias de Walvis Bay e de Luderitz. As exportações de pesca e aquicultura do país totalizaram cerca de 794 milhões de dólares americanos em 2024, segundo a Agência de Estatísticas da Namíbia.
As ostras da Namíbia são a marca registrada dessas águas frias. O plâncton trazido pela corrente é tão abundante que as larvas de ostra, suspensas na baía, engordam apenas filtrando a água e atingem o tamanho de exportação em oito a dez meses, um tamanho que poderia levar um ou dois anos para ser alcançado em outros lugares. Antes vendidas principalmente para a vizinha África do Sul, agora elas também chegam à China, a Cingapura e a outros mercados asiáticos.

Foto aérea feita por drone em 23 de março de 2024 mostra vista de Swakopmund, na Namíbia. (Xinhua/Chen Cheng)
Além das ostras, lagostas, caranguejos e outros frutos do mar são exportados em grande quantidade. A Namíbia está entre as principais nações africanas em produção e exportação pesqueira; 90% de sua captura é destinada ao exterior, e a pesca representa cerca de 15% das exportações do país.
PROSPERIDADE JUNTO AO PORTO
Mais a leste, ao longo da lagoa, os guindastes pórtico do porto erguem-se imponentes sobre os navios atracados. Em períodos de grande movimento, a fila de embarcações aguardando ao largo se estende até desaparecer na neblina a oeste.
O novo terminal de contêineres foi desenvolvido pela Autoridade Portuária da Namíbia, com financiamento significativo do Banco Africano de Desenvolvimento e a China Harbour Engineering Company atuando como empreiteira principal. A construção começou em 2014, e mais de 100 especialistas de cerca de 30 países enfrentaram o desafio de lidar com um leito marinho de diatomáceas poroso e de baixa densidade para aterrar cerca de 40 hectares de terra na baía. Desde que o terminal entrou em operação em 2019, a capacidade anual de movimentação projetada do porto dobrou, passando de cerca de 350.000 para 750.000 TEUs, e o tempo médio de espera dos navios caiu para menos de oito horas, segundo um relatório do projeto elaborado pelo Banco Africano de Desenvolvimento.
O que sai do porto já não é apenas peixe e sal, mas também minerais e produtos manufaturados. A mina de urânio de Husab, que conta com investimento chinês, emprega milhares de trabalhadores locais. Durante sua construção, a equipe chinesa solicitou a especialistas ambientais que desviassem uma estrada para evitar a Welwitschia, a planta nacional da Namíbia, que crescia na areia ao longo do trajeto.
O porto está conectado a toda uma região de influência no interior do continente. A partir dele, ramificam-se corredores rodoviários transnacionais: para o leste, em direção a Botsuana e à África do Sul; e para o nordeste, rumo à Zâmbia, ao Zimbábue e à República Democrática do Congo. De acordo com estimativas de tempo publicadas pelo Walvis Bay Corridor Group, as cargas que saem do porto chegam a Lusaca ou Ndola, na Zâmbia, em um prazo de três a cinco dias, e a Lubumbashi, na República Democrática do Congo, em cerca de seis a sete dias.
Minerais da Zâmbia e da República Democrática do Congo cruzam o oceano a partir deste cais, enquanto maquinário, fertilizantes e bens de consumo seguem o caminho inverso em direção ao interior da África. Para um país sem saída para o mar, cada novo corredor representa uma nova janela para o mundo. O oceano nutre a vida, conecta o mundo e impulsiona o desenvolvimento. Os navios e comboios de caminhões que circulam pelo porto diariamente são um retrato vivo da comunidade marítima de futuro compartilhado proposta pela China.
À medida que o porto prosperou, a cidade também cresceu. Em 1994, ano em que foi reintegrada à Namíbia, Walvis Bay tinha pouco mais de 20.000 habitantes. O censo de 2023 apontou uma população superior a 100.000 pessoas, um aumento de cinco vezes. Os mercados matinais exalam o aroma de peixe em conserva ao curry, trabalhadores do turno da noite se agacham à beira da estrada para tomar chá e crianças correm atrás de uma bola na areia. A confiança das cidades já não depende dos caprichos de turistas distantes.
Os empregos e o desenvolvimento trazidos pelos investimentos chineses aumentaram o interesse e o carinho locais pela China. Na Conferência de Comunicadores Eficazes em Swakopmund, exemplares em inglês de "A Governança da China sob a Liderança de Xi Jinping", livro compilado pela Xinhua, foram rapidamente disputados pelos delegados da Namíbia. Natalia Goagoses, governadora da região de Erongo, recebeu um exemplar e mal podia esperar para abri-lo. "A China é notável. Turistas e investidores chineses serão sempre bem-vindos aqui", disse ela.
Ao anoitecer, a neblina avança novamente vinda do Atlântico, envolvendo o antigo farol de Swakopmund e, a cerca de 30 km de distância, os guindastes do porto de Walvis Bay.
Centenas de anos atrás, canhoneiras romperam esse mesmo véu, com seus canhões apontados para a costa. Esta noite, o que emerge do nevoeiro é o chamado longo e baixo dos navios de carga, o som do desenvolvimento pacífico viajando através da água. Ao longo do cais, luzes se acendem uma a uma e iluminam durante a noite inteira.



