Surto de ebola com propagação mais rápida da história testa resposta de saúde global-Xinhua

Surto de ebola com propagação mais rápida da história testa resposta de saúde global

2026-07-25 13:14:59丨portuguese.xinhuanet.com

Profissionais de saúde vestem trajes de proteção em um centro de tratamento de ebola em Bunia, capital da província de Ituri, na República Democrática do Congo, em 6 de julho de 2026. (Xinhua)

Por Wang Yue e Shi Yu

Nairóbi, 23 jul (Xinhua) -- Em pouco mais de dois meses, o surto de ebola com propagação mais rápida da história, na República Democrática do Congo (RDC), deixou mais de 1.000 mortos.

A epidemia se tornou a terceira maior já documentada globalmente, um dado que, por si só, não reflete a gravidade do perigo. Os dois surtos maiores, na África Ocidental, entre 2014 e 2016, e no leste da RDC, entre 2018 e 2020, se desenvolveram ao longo de cerca de dois anos cada. Desta vez, a situação escalou rapidamente em questão de semanas.

A velocidade de propagação é inédita. O surto de 2018-2020 no leste da RDC levou mais de 10 meses para atingir 2.000 casos confirmados. Desta vez, foram necessários apenas dois meses. Recentemente, o país registrou quase 80 casos confirmados em um único dia e, em certo momento, 37 mortes em 24 horas.

"Observamos o crescimento mais rápido em um único mês desde o início do surto, e entre todos os surtos de ebola que já gerenciamos", disse Chikwe Ihekweazu, diretor-executivo do Programa de Emergências de Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS). Os Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças (CDC África) classificaram o surto como o de propagação mais rápida já visto no continente.

Até segunda-feira, o país havia relatado 2.473 casos confirmados e 999 mortes, enquanto Uganda registrou dois óbitos, elevando o total de vítimas para 1.001. A província de Ituri, o epicentro, concentra mais de 90% dos casos e 80% das mortes. A OMS relata mais de 100 infecções entre profissionais de saúde, incluindo pelo menos 36 óbitos.

O que torna este surto difícil de conter não é apenas sua velocidade, mas também a forma como um patógeno, contra o qual o mundo está mal preparado para lutar, colidiu com um cenário que frustra praticamente todas as etapas da resposta.

Profissionais de saúde em um centro de tratamento de ebola em Mongbwalu, província de Ituri, República Democrática do Congo, em 20 de junho de 2026. (Xinhua)

SITUAÇÃO PIOR

O que diferencia este surto é a cepa responsável por ele. Declarada em 15 de maio, sendo este o 17º surto na RDC desde que o vírus foi identificado pela primeira vez em 1976, a epidemia é causada pela cepa Bundibugyo, uma forma grave e frequentemente fatal de ebola para a qual não existem, atualmente, vacinas aprovadas ou tratamentos específicos.

As ferramentas que ajudaram a controlar as crises recentes de ebola, a vacina Ervebo e as terapias com anticorpos monoclonais, creditadas por salvar vidas durante o surto de 2018-2020 no leste da RDC, foram desenvolvidas para combater a cepa Zaire.

Elas não se aplicam a este surto. Na prática, especialistas médicos estão enfrentando a epidemia atual com grande parte do arsenal farmacêutico de uma década atrás, dependendo da detecção precoce, do encaminhamento rápido e de cuidados de suporte, em vez de vacinas e medicamentos eficazes.

O quadro clínico agrava o problema. Autoridades de saúde dizem que a doença, neste surto, frequentemente começa com sintomas semelhantes aos da gripe, incluindo febre, que podem ser confundidos com malária ou outras enfermidades comuns. Isso mascara a verdadeira natureza da doença e atrasa o diagnóstico justamente no momento em que o isolamento precoce é mais importante.

Se a biologia é desfavorável, a epidemiologia é ainda mais preocupante, uma vez que a resposta tenta acompanhar um cenário que não consegue visualizar plenamente.

Em uma coletiva de imprensa da ONU em Genebra, no dia 14 de julho, Ihekweazu alertou que "80% dos novos casos estão fora de nossas listas de contatos e, portanto, chegam até nós provenientes de cadeias de transmissão desconhecidas". Modelagens da OMS indicam que a escala da epidemia pode ser "pelo menos duas a quatro vezes" maior do que o número de casos notificados.

Essa avaliação é reforçada pelos locais onde as pessoas estão morrendo. Em um informe realizado em 17 de julho, o diretor regional da Organização Internacional para as Migrações (OIM), Frantz Celestin, disse que quase 66% das mortes registradas ocorreram nas comunidades, e não em unidades de saúde, ressaltando os desafios persistentes relacionados à detecção precoce, à vigilância e ao acesso oportuno ao tratamento.

Uma mulher e seus filhos são vistos no campo de Kigonze para pessoas deslocadas internamente (PDI), nos arredores de Bunia, província de Ituri, República Democrática do Congo, em 9 de junho de 2026. (Xinhua)

RESPOSTA MENOS EFICAZ

A resposta convencional ao ebola, isolar os doentes, rastrear seus contatos e sepultar os mortos de forma segura, pressupõe um certo grau de estabilidade. O leste da RDC apresenta o cenário oposto.

O vírus está se propagando por províncias marcadas por conflitos armados, deslocamentos recorrentes, mineração artesanal e trânsito constante entre cidades, aldeias, acampamentos de mineração e países vizinhos.

O gerente de crises da OIM, Andrew Mbala, disse que a organização documentou o transporte de corpos através de postos de controle internos. Alguns desses corpos testaram positivo para ebola. Os costumes funerários e a mobilidade, combinados, fazem com que o vírus se espalhe mais rapidamente do que as equipes conseguem acompanhar.

A organização também está reforçando a preparação em países de risco, incluindo Burundi, Etiópia, Quênia, Ruanda, Sudão do Sul, Tanzânia e Zâmbia, entre outros, por meio do aprimoramento dos sistemas de vigilância nos pontos de entrada e do mapeamento de rotas de viagem de alto risco e áreas de aglomeração, acrescentou.

A OMS admitiu que uma única estratégia não é adequada para esse cenário. Em uma coletiva de imprensa na terça-feira, o gerente de incidentes da OMS, Thierno Balde, disse que a agência agora observa três padrões distintos, transmissão de alta intensidade, áreas emergentes e locais que começam a se estabilizar, e está adaptando sua resposta a cada um deles.

Mongbwalu, onde o surto foi detectado pela primeira vez, está mostrando alguns sinais de estabilização, com uma tendência semelhante em Goma, capital da província de Kivu do Norte; em Kisangani, capital da província de Tshopo, todos os cinco casos foram importados de Ituri, sem casos secundários detectados até o momento, segundo Balde.

"Também trabalharemos em um novo projeto que visa reforçar as medidas de controle ao longo do Rio Congo, uma rota de trânsito crucial que exige nossa atenção para a rápida implementação de medidas de controle", disse Balde. "Mas sejamos claros, este surto ainda está à nossa frente e ainda estamos na fase de recuperação".

Uma lição do surto de ebola na RDC entre 2018 e 2020 foi que o combate à doença se dá em duas frentes, a médica e a social, e que perder a segunda pode comprometer a primeira. Essa lição está sendo reaprendida.

Pierre Akilimali, gerente de incidentes do Instituto Nacional de Saúde Pública da RDC, disse que quatro centros de tratamento de ebola em Ituri foram atacados desde a declaração do surto. "Esses incidentes interromperam o atendimento aos pacientes e expuseram os profissionais de saúde e nossos parceiros a sérios riscos de segurança", disse ele.

Ihekweazu, da OMS, disse que os ataques a centros de tratamento e a resistência às equipes de saúde só podem ser reduzidos por meio de maior abertura e transparência com as comunidades afetadas.

"Antes da abertura de qualquer novo centro, convidamos os líderes da comunidade para ver o que está sendo feito" e para conversar com os profissionais de saúde que deixaram suas casas para apoiar a resposta, disse ele.

Funcionária realiza a desinfecção em um centro de tratamento de ebola em Bunia, província de Ituri, República Democrática do Congo, em 9 de junho de 2026. (Xinhua)

CORRIDA MAIS ACIRRADA

Apesar dos crescentes esforços internacionais, a resposta continua ficando aquém do surto que se expande rapidamente.

A pressão é visível. Autoridades humanitárias da ONU relataram casos confirmados em pelo menos 16 locais de deslocados em Ituri, lar de mais de 270.000 pessoas, onde a superlotação e os serviços inadequados de água e saneamento aumentam os riscos de transmissão. Elas também alertaram que os recursos disponíveis ficam muito abaixo do necessário.

O apoio internacional está aumentando. Na segunda-feira, o Grupo Banco Africano de Desenvolvimento anunciou a aprovação de doações no valor de 13 milhões de dólares americanos para aprimorar as respostas nacionais de emergência ao surto de ebola e fortalecer os esforços para conter sua disseminação na República Democrática do Congo, no Sudão do Sul e em Uganda.

No final de junho, o Escritório Regional da OMS para a África e o CDC África, juntamente com o Ministério da Saúde de Uganda e parceiros, lançaram oficialmente uma plataforma de coordenação centralizada para fortalecer a capacidade da África de se preparar, coordenar e responder a emergências de saúde pública.

A convite da plataforma, conhecida como Equipe Conjunta de Apoio à Gestão de Incidentes Continentais do CDC África-OMS AFRO, dois especialistas chineses se juntaram à iniciativa em meados de julho, trabalhando em análises de surtos, avaliação de riscos transfronteiriços e coordenação laboratorial.

A China também enviou dois grupos de especialistas médicos à RDC, proporcionando intercâmbio técnico e apoio em investigação epidemiológica, testes laboratoriais, tratamento de casos, prevenção e controle de infecções e treinamento de pessoal.

Mas esses esforços não são suficientes. Em uma cúpula de saúde da União Africana realizada na terça-feira em Acra, capital de Gana, o diretor-geral do CDC África, Jean Kaseya, pediu um compromisso político mais forte, financiamento sustentável, sistemas de saúde resilientes e uma resposta de emergência liderada pela África.

As necessidades de financiamento para a resposta ao ebola aumentaram de uma estimativa de 518 milhões de dólares americanos em junho para 1,4 bilhão de dólares, o que evidencia a escala crescente do surto, disse ele.

Uma solução a longo prazo está sendo delineada. Instituições de pesquisa começaram a testar uma vacina candidata contra a cepa Bundibugyo, responsável por este surto, enquanto o Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica da RDC está ajudando a avaliar tratamentos experimentais.

Mas, com uma vacina ainda em fase inicial de testes, o combate ao surto será vencido ou perdido com as ferramentas já disponíveis. Essa é a dura realidade por trás do alerta de Kaseya: a ciência está correndo contra o tempo para alcançar um vírus que já está vários passos à frente.

"Se não pararmos este surto hoje, ele poderá se tornar um dos piores surtos de ebola que o mundo já documentou", disse ele.

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