
Foto tirada em 1º de agosto de 2026 mostra o rio Pó, atingido pela seca, em Mântua, Itália. (Foto de Alberto Lingria/Xinhua)
A Europa está enfrentando um calor prolongado e uma seca generalizada, que estão exercendo uma pressão crescente sobre o abastecimento de água potável, a geração de energia, a agricultura e o transporte terrestre, além de interromper a vida cotidiana e a atividade econômica em todo o continente.
Varsóvia, 3 ago (Xinhua) -- A Europa está enfrentando um calor prolongado e uma seca generalizada, que estão exercendo uma pressão crescente sobre o abastecimento de água potável, a geração de energia, a agricultura e o transporte terrestre, além de interromper a vida cotidiana e a atividade econômica em todo o continente.
Governos estão se mobilizando para implementar medidas emergenciais a fim de garantir o abastecimento de água e energia e manter as operações de transporte, visto que a seca não dá sinais de arrefecimento.
VIDA COTIDIANA SOB PRESSÃO
Os efeitos do calor e da seca prolongados estão sendo sentidos no abastecimento de água e eletricidade das residências, assim como na produção agrícola.
No Vale do Pó, na Itália, o nível de emergência devido à seca foi elevado para "alto", segundo a Autoridade da Bacia do rio Pó.
Mais de 100 municípios nas regiões do norte do Piemonte e da Lombardia enfrentam problemas críticos no abastecimento de água potável. Em diversos municípios, caminhões-pipa têm sido utilizados há dias para reabastecer reservatórios e manter o abastecimento das residências.
O uso da água também está sendo restringido na Bélgica. O governo regional de Bruxelas pediu aos moradores que adiem atividades não essenciais, como lavar carros, encher piscinas e regar gramados. Oito municípios da Valônia impuseram restrições ao uso da água, enquanto a Flandres emitiu um alerta laranja de seca.
No Chipre, as temperaturas próximas a 43 graus Celsius no final de julho elevaram a demanda por eletricidade a um recorde de 1.341 megawatts, com residências e empresas dependendo fortemente de aparelhos de ar-condicionado.
Com duas unidades geradoras da Usina Termoelétrica de Dhekelia fora de operação, a Autoridade de Eletricidade do Chipre e a operadora do sistema de transmissão do país implementaram apagões rotativos controlados em diversas áreas. Os cortes de energia, geralmente com duração entre 20 e 30 minutos, visavam manter a estabilidade da rede.
A agricultura também está sob pressão.
De acordo com a Associação de Agricultores da Federação da Bósnia e Herzegovina, a seca afetou severamente as plantações e a pecuária. O milho comercial e para silagem foi particularmente atingido, enquanto fruticultores e pecuaristas também sofreram perdas.
A queda na produtividade e os altos custos de produção podem elevar os preços agrícolas, disse a associação.

Foto tirada em 25 de julho de 2026 mostra uma vista da eclusa em Eefde, uma aldeia na província de Gelderland, na Holanda. (Xinhua/Shao Haijun)
BAIXA DO NÍVEL DOS RIOS INTERROMPE TRANSPORTE E GERAÇÃO DE ENERGIA
Em toda a Europa, a queda do nível dos rios está afetando a navegação interior, o transporte de cargas e a geração de energia elétrica.
Em 30 de julho, o Reno atingiu seu nível mais baixo já registrado na Holanda. Em Lobith, onde o rio entra no país vindo da Alemanha, a água estava a 6,47 metros acima do Normaal Amsterdams Peil, o nível de referência nacional holandês, ligeiramente abaixo do recorde anterior estabelecido em 2022.
Na Alemanha, o nível da água no importante gargalo de Kaub caiu para 28 centímetros na segunda-feira e a previsão era de que caísse para menos de 20 centímetros no final da semana, de acordo com a Administração Federal de Vias Navegáveis e Navegação.
Embora a leitura da régua não represente a profundidade do canal de navegação em si, o baixo nível obrigou as embarcações a reduzirem suas cargas, afetando o transporte de carvão, minérios, grãos, combustíveis e materiais de refinaria.
Problemas de transporte semelhantes estão sendo relatados na Bélgica. Em algumas vias navegáveis, as embarcações tiveram que deixar de 10 a 20% de sua carga em terra, de acordo com a associação de navegação interior Koepel Binnenvaart Vlaanderen.
Mais da metade das mercadorias que saem do Porto de Antuérpia-Bruges são transportadas por vias navegáveis interiores. Os operadores de navegação alertaram que os atrasos contínuos em navios-tanque de diesel e gasolina podem afetar as entregas aos postos de abastecimento.
A Polônia registrou este ano a maior temperatura em mais de um século. O Instituto de Meteorologia e Gestão de Recursos Hídricos do país emitiu recentemente alertas de seca hidrológica abrangendo 64 bacias hidrográficas em todo o país, dizendo que a seca persistente deixou os níveis de água baixos em alguns rios e que as condições hidrológicas difíceis também estão afetando a navegação interior.
Na Hungria, a usina nuclear de Paks pode enfrentar a primeira paralisação completa em seus 44 anos de história devido aos níveis recordes de baixa no Danúbio. A usina normalmente responde por quase metade da geração de eletricidade do país.
Ao longo do rio Danúbio, vazões excepcionalmente baixas reduziram a geração de eletricidade nas usinas hidrelétricas sérvias de Djerdap ao nível mais baixo desde o início de suas operações. A usina Djerdap I está operando com cerca de 20% de sua capacidade normal, e a Djerdap II, com cerca de 30%, informou a ministra de Minas e Energia da Sérvia, Dubravka Djedovic Handanovic.
A usina termelétrica de Kostolac, que depende do rio Danúbio para o resfriamento, também reduziu a produção de algumas unidades geradoras em cerca de um terço. A redução da profundidade do rio diminuiu a capacidade de carga das barcaças que transportam derivados de petróleo, forçando a transferência de parte do transporte de combustíveis do modal hidroviário para o ferroviário.
O operador do sistema de transmissão da Sérvia disse que os baixos níveis dos rios estão afetando a geração de energia hidrelétrica, nuclear e térmica em toda a Europa. Países vizinhos, incluindo Hungria e Croácia, solicitaram recentemente apoio emergencial de eletricidade à Sérvia.

Foto tirada em 2 de agosto de 2026 mostra vista da usina nuclear de Paks, perto de Dunaszentbenedek, na Hungria. (Foto de David Balogh/Xinhua)
MEDIDAS DE CONSERVAÇÃO ENTRAM EM VIGOR
A Hungria autorizou reduções obrigatórias no consumo para grandes usuários industriais, caso necessário, embora a conservação voluntária tenha ajudado, até o momento, a evitar o racionamento compulsório.
Cerca de 300 empresas, juntamente com estatais, governos locais, grupos da sociedade civil e igrejas, se comprometeram a reduzir o consumo de eletricidade.
A iluminação decorativa de marcos importantes, como o Parlamento Húngaro, o Castelo de Buda e a Ponte das Correntes, foi desligada. O governo também colocou unidades de reserva de energia em prontidão, maximizou as importações de eletricidade e suspendeu a maior parte das operações de transporte ferroviário de carga durante os horários de pico noturno. Restrições ao consumo doméstico permanecem como último recurso.
A Sérvia anunciou a realização de reuniões diárias de coordenação entre os órgãos competentes a partir de 4 de agosto. As autoridades pediram a residências, empresas e governos locais que utilizem eletricidade e água com mais cautela, especialmente a água para irrigação.
O governo manteve o armazenamento dos reservatórios em cerca de 75% da capacidade, ao mesmo tempo em que aumentou as reservas de carvão, óleo combustível e eletricidade. Os estoques de diesel e gasolina são suficientes para cerca de 90 dias de consumo médio de verão, enquanto parte do transporte de derivados de petróleo foi transferida do modal hidroviário para o ferroviário.
As autoridades de gestão de águas da Bélgica também introduziram medidas para estabilizar os níveis hídricos. A região de Flandres proibiu a captação de água dos rios, restringiu o calado das embarcações e exigiu que várias embarcações passem pelas eclusas simultaneamente para economizar água. O Porto de Bruxelas concentrou as operações das eclusas e restringiu a navegação de lazer.

Níveis baixos de água expõem áreas rasas do rio Vístula em Varsóvia, Polônia, em 13 de julho de 2026. (Foto de Jaap Arriens/Xinhua)
Na Holanda, a Equipe Nacional de Gestão de Escassez de Água se reuniu em 30 de julho e concluiu que não eram necessárias medidas adicionais, sejam nacionais ou suprarregionais, no momento. As autoridades informaram que não havia gargalos no abastecimento de água potável, mas instaram as residências e empresas a continuarem utilizando a água de forma responsável.
Enquanto isso, o Chipre planeja desenvolver cerca de 120 megawatts de capacidade de armazenamento em baterias a partir de 2027. Espera-se que os projetos permitam que uma maior quantidade de energia solar gerada durante o dia seja utilizada nos horários de pico à noite, reduzindo o risco de futuras situações de escassez de energia.
Thierry Vanelslander, economista de transportes da Universidade de Antuérpia, disse que medidas como a operação mais eficiente de eclusas e o transporte de água por meio de afluentes e canais poderiam limitar o impacto apenas temporariamente. Essas medidas são limitadas pela seca generalizada e pela necessidade de preservar água potável suficiente, acrescentou ele.
Ele alertou que a situação poderia se agravar ainda mais caso a seca persistisse durante os meses de agosto e setembro.

