Rio de Janeiro, 5 ago (Xinhua) -- O Brasil planeja realizar sua primeira emissão soberana de Panda Bonds, títulos denominados em renminbi e negociados no mercado chinês, em 2026. Essa operação visa diversificar as fontes de financiamento do país e, se bem-sucedida, poderá servir de modelo para que mais empresas brasileiras captem recursos na China.
O subsecretário da Dívida Pública do Tesouro Nacional, Francisco Segundo, afirmou nesta quarta-feira, durante o seminário virtual "Panda Bonds: A Nova Fronteira da Cooperação Financeira entre Brasil e China", organizado pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), que o governo pretende repetir esse tipo de emissão anualmente.
O Tesouro Nacional informou aos reguladores chineses, em 25 de junho, sua intenção de emitir 5 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 740 milhões) em Panda Bonds. As emissões de títulos soberanos normalmente estabelecem parâmetros de custo e risco que são posteriormente utilizados por empresas privadas para acessar o mesmo mercado.
Segundo destacou que, embora neste caso o setor privado tenha agido antes do governo, uma emissão soberana ajudaria a consolidar uma curva de juros de referência para o Brasil no mercado chinês.
"Quando o governo acessa um mercado, permanece ativo e desenvolve uma curva de juros soberana, o interesse em emissões por parte de empresas brasileiras também cresce. Mesmo que a Suzano tenha entrado no mercado primeiro, uma emissão soberana pode abrir uma série de possibilidades para outras empresas interessadas em acessar o mercado chinês", afirmou.
A empresa brasileira Suzano foi a primeira empresa não financeira das Américas a emitir Panda Bonds, em 2024. De acordo com seu diretor financeiro para a Ásia, Emilio Chen Yeh, a empresa já captou 2,6 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 385 milhões) por meio de três emissões.
Chen Yeh explicou que a operação pioneira representou um desafio devido à falta de experiência prévia das empresas latino-americanas, mas enfatizou que as recentes mudanças regulatórias na China estão aumentando a atratividade do mercado. Entre essas mudanças, ele mencionou a possibilidade, exclusiva para empresas estrangeiras, de transferir os recursos para o exterior sem a necessidade de autorizações específicas, bem como a extensão gradual dos prazos de vencimento dos títulos, que agora chegam a até sete anos.
Por sua vez, Alexandre Lowenkron, CEO do banco BOCOM BBM, destacou que o mercado de Panda Bonds está crescendo aproximadamente 30% ao ano e atribuiu sua expansão ao alto nível de poupança interna na China, que gera amplos recursos disponíveis para investimento.
O executivo também observou que as condições atuais de financiamento são favoráveis devido às baixas taxas de juros na China. Ele explicou que, enquanto o governo chinês emitiu títulos a taxas próximas a 1,5% ao ano em renminbi, empresas com perfis de risco semelhantes ao da Suzano obtiveram financiamento a taxas próximas a 2,5% ou 3% ao ano.
Lowenkron também afirmou que não existem obstáculos significativos para a contratação de hedges cambiais para esses tipos de emissões e considerou que grandes empresas brasileiras com laços comerciais com a China, como Petrobras, Vale, JBS, WEG, Embraer e a própria Suzano, poderiam se beneficiar desse mercado.
O presidente do CEBC, embaixador Luiz Augusto de Castro Neves, afirmou que a cooperação financeira entre Brasil e China atingiu um novo patamar.
"A cooperação financeira não é mais apenas um instrumento de apoio ao comércio e ao investimento, mas tornou-se um pilar estratégico da relação bilateral. Mais do que transações isoladas, os Panda Bonds podem servir como porta de entrada para uma relação financeira mais ampla, sofisticada e permanente", declarou.
O seminário reuniu representantes do governo, do sistema financeiro e do setor empresarial para discutir as oportunidades oferecidas pela crescente integração financeira entre Brasil e China e o desenvolvimento do mercado de capitais chinês.

