Por Alessandra Scangarelli Brites e Zhou Yongsui
Rio de Janeiro, 5 ago (Xinhua) -- A modernização ecológica chinesa representa "uma nova concepção de desenvolvimento e de civilização", com desdobramentos institucionais concretos, metas de planejamento e políticas públicas coordenadas, segundo Walter Sorrentino, presidente da Fundação Maurício Grabois, em entrevista à Xinhua.
As declarações foram feitas por ocasião do lançamento, nesta segunda-feira, no Congresso Nacional do Brasil, da edição em português do livro Perspectiva Ecológica da Modernização Chinesa, de autoria de Zhang Yongsheng, diretor-geral do Instituto de Estudos da Civilização Ecológica da Academia Chinesa de Ciências Sociais.
A edição em português no Brasil foi publicada pela Editora Anita Garibaldi, em uma iniciativa promovida pela Fundação Maurício Grabois, pelo Centro de Estudos Avançados Brasil-China e pela Editora Chongqing. O livro integra a série Seis Perspectivas da Modernização Chinesa, organizada por Jiang Hui, pesquisador do socialismo com características chinesas e ex-vice-presidente da Academia Chinesa de Ciências Sociais.
"O objetivo principal é promover a circulação de ideias contemporâneas chinesas no Brasil, de sua modernização, contribuindo para qualificar o debate público, ao mesmo tempo que fortalece os laços de cooperação cultural e científica entre os dois países", observa Sorrentino.
Neste trabalho, o também professor Zhang introduz o conceito de civilização ecológica, proposta desenvolvida ao longo dos anos pela China e que passou a integrar as bases do planejamento governamental da modernização chinesa e o atual arcabouço ideológico do socialismo com características chinesas.
Essa concepção dialoga com reflexões desenvolvidas no Brasil e em outras partes do mundo. Porém, para Sorrentino, o diferencial da iniciativa chinesa está na articulação sistêmica entre projeto de desenvolvimento, ação estatal e transformação cultural, indo além de formulações normativas ou críticas abstratas.
"Trata-se de uma nova concepção de desenvolvimento e de civilização, conceitos incorporados à estratégia nacional, com desdobramentos institucionais concretos, metas de planejamento e políticas públicas coordenadas, o que lhe confere um caráter prático e operacional que nem sempre está presente em abordagens similares no Ocidente", detalha Sorrentino.
A obra também convida os países em desenvolvimento a não mais adotarem modelos de outras nações de forma acrítica, sem pensarem antes no contexto doméstico.
"É preciso adaptar experiências internacionais às especificidades históricas, sociais e ambientais nacionais. Sob a perspectiva brasileira, a obra suscita reflexões sobre questões universais para a presente época histórica, como sejam a da noção e concepção de desenvolvimento, do papel do Estado e do planejamento - obviamente nos marcos da formação econômico-social brasileira", salienta Sorrentino.
As questões levantadas pelo professor Zhang Yongsheng também levam o intelectual brasileiro a salientar que as experiências brasileira e chinesa convergem na busca por conciliar desenvolvimento econômico com preservação ambiental em contextos de grande diversidade territorial e desafios sociais complexos.
"Ambos os países enfrentam a necessidade de reduzir desigualdades, ampliar infraestrutura e, ao mesmo tempo, preservar biomas estratégicos, o que cria um terreno comum para troca de políticas, tecnologias e estratégias de planejamento sustentável. Entretanto, entre os dois países existem diferenças importantes de matrizes em termos institucionais, energéticos e biomas, que supõem soluções originais para serem equacionadas para a sustentabilidade ambiental".
Apesar das diferenças, Sorrentino acredita que há espaço para uma cooperação sino-brasileira mais aprofundada que almeje a parceria conjunta desde o início para encontrar soluções à equação: crise climática e desenvolvimento.
"Brasil e China podem avançar em formas de cooperação que envolvam pesquisa conjunta, desenvolvimento tecnológico compartilhado e planejamento integrado de políticas públicas, especialmente em áreas como energia renovável, agricultura sustentável, cidades verdes e manejos da urbanização em bacias hidrográficas. A chave é construir soluções desde a origem de forma colaborativa, combinando capacidades científicas, institucionais e produtivas, e com originalidade, em vez de simplesmente transferir modelos prontos".
Para propagar uma mudança na forma dos humanos verem e adaptarem seu desenvolvimento econômico e estilo de vida a uma realidade que respeite a natureza como um todo, como indica o acadêmico Zhang neste livro, Sorrentino concorda que obstáculos serão encontrados na força estrutural do paradigma produtivista-consumista mundial que rege hoje o sistema civilizacional.
"A China tem promovido mudanças por meio de políticas públicas e campanhas nacionais, enquanto o Brasil possui uma rica tradição de pensamento crítico, especialmente de matrizes indígenas e populares. Mas em ambos se exige maior integração entre políticas educacionais, culturais e econômicas para consolidar mudanças mais profundas".
Conforme Sorrentino, enfrentar a crise climática exige um novo arranjo que articule Estado forte, economia orientada por objetivos sociais e ambientais e participação democrática ampliada.
Da mesma forma que o acadêmico Zhang salienta na presente obra, Sorrentino também afirma que não se superará o desafio de mudar tal paradigma nos marcos de uma ou apenas de um conjunto de nações. "Isso nos fala a ideia chinesa de uma comunidade com um futuro compartilhado para propor um projeto coletivo de desenvolvimento, dignidade e sustentabilidade para toda a humanidade."
No caso de países como o Brasil, Sorrentino diz que é importante recuperar a capacidade estatal de atuar, o que passa por realizar reformas institucionais, fortalecimento do planejamento público e reconstrução de instrumentos de política industrial, científica e ambiental, com marcos regulatórios soberanos, em função de um projeto nacional de desenvolvimento.
No campo internacional, Sorrentino afirma que Brasil e China podem atuar conjuntamente na defesa de uma governança global mais equilibrada, promovendo o multilateralismo e iniciativas que priorizem o desenvolvimento sustentável. "Isso inclui cooperação em fóruns internacionais, financiamento de projetos verdes e construção de alternativas ao modelo industrial intensivo em carbono, contribuindo para difundir a ideia de civilização ecológica como horizonte comum."

