O que impulsiona a escalada dos Houthis contra a Arábia Saudita?-Xinhua

O que impulsiona a escalada dos Houthis contra a Arábia Saudita?

2026-08-07 13:30:00丨portuguese.xinhuanet.com

Combatentes e apoiadores do grupo Houthi do Iêmen participam de uma manifestação armada contra Israel no distrito de Arhab, ao norte de Sanaa, Iêmen, em 3 de novembro de 2025. (Foto de Mohammd Mohammd/Xinhua)

Sanaa, 5 ago (Xinhua) -- O grupo Houthi do Iêmen disse na quarta-feira que lançou ataques com mísseis balísticos contra petroleiros sauditas ao largo de Yanbu, no norte do Mar Vermelho, e no Golfo de Áden, ampliando uma campanha marítima que já prejudicou significativamente as exportações de petróleo bruto saudita através do Estreito de Bab al-Mandab.

Embora os Houthis apresentem sua campanha como uma resposta de "bloqueio por bloqueio" às restrições sauditas impostas às áreas do Iêmen sob controle Houthi, especialistas dizem que a escalada é o resultado de anos de tensões não resolvidas entre os dois lados.

Ao atacar navios sauditas no Estreito de Bab al-Mandab em um momento em que o tráfego pelo Estreito de Ormuz já está restrito, os Houthis colocam Riad diante de um dilema: suportar a pressão e correr o risco de encorajar os Houthis, ou responder com mais força e correr o risco de reacender uma guerra custosa.

QUAL É A DIMENSÃO DO IMPACTO?

O porta-voz militar Houthi, Yahya Sarea, disse na manhã de quarta-feira que o petroleiro "Wafa" foi alvo de um ataque ao largo de Yanbu, um dos principais centros de exportação de petróleo da Arábia Saudita na costa oeste.

Ele disse que o ataque elevou para oito o número de petroleiros sauditas visados ​​desde o início da campanha e disse que outros 29 foram forçados a retornar.

Em uma declaração posterior, Sarea disse que o grupo atacou outro petroleiro saudita com um míssil balístico no Golfo de Áden.

O porta-voz informou que o petroleiro, identificado como "Daisy", foi atingido por um míssil balístico e "forçado a retornar".

As alegações não foram verificadas de forma independente, e as autoridades sauditas não comentaram o assunto de imediato.

Dados de navegação mostram que o tráfego no Mar Vermelho sofreu graves interrupções desde 20 de julho, quando os Houthis anunciaram a proibição da navegação de embarcações ligadas à Arábia Saudita, em resposta ao que alegaram ser um bloqueio saudita a áreas do Iêmen controladas pelo grupo.

Um navio-tanque transportando derivados de petróleo navega pelo Mar Vermelho, próximo à entrada do Canal de Suez, na província de Suez, Egito, em 11 de março de 2026. (Xinhua/Ahmed Gomaa)

Segundo a Kpler, empresa de dados do setor marítimo, o volume de petróleo bruto carregado em Yanbu e que transita pelo Estreito de Bab al-Mandab caiu cerca de metade, passando de aproximadamente 3 milhões de barris por dia antes dos ataques para cerca de 1,5 milhão de barris por dia.

Apesar da ameaça de ataques Houthis, navios-tanque carregados na Arábia Saudita continuam utilizando essa rota marítima. Com o transporte pelo Estreito de Ormuz prejudicado pelo conflito mais amplo, a Arábia Saudita vem recorrendo cada vez mais ao seu oleoduto Leste-Oeste para transportar petróleo bruto dos campos de extração do leste para Yanbu. Grande parte do petróleo destinado à Ásia segue então para o sul, passando pelo Estreito de Bab al-Mandab.

O QUE IMPULSIONA A ESCALADA?

O caminho para o confronto atual começou com uma disputa relacionada à aviação, e não ao petróleo.

Em 3 de julho, uma aeronave iraniana pousou no aeroporto de Sanaa, controlado pelos Houthis, e embarcou uma delegação que viajava a Teerã para as cerimônias fúnebres do falecido líder supremo do Irã, Ali Khamenei.

As tensões aumentaram em 13 de julho, quando a mesma aeronave retornou. O governo do Iêmen disse ter atingido a pista do aeroporto de Sanaa para impedir o pouso, forçando o avião a desviar para Hodeidah, na costa iemenita do Mar Vermelho.

Fumaça após ataques aéreos ao Aeroporto Internacional de Sanaa, no Iêmen, em 13 de julho de 2026. (Centro de Mídia Houthi/Divulgação via Xinhua)

Os Houthis culparam a Arábia Saudita pelo ataque e, posteriormente, reivindicaram ataques ao aeroporto de Abha, no sudoeste saudita, as primeiras ações ofensivas anunciadas pelo grupo contra o reino desde que os combates diretos haviam diminuído significativamente em 2022.

Em 20 de julho, eles ampliaram o confronto para incluir a navegação de embarcações ligadas à Arábia Saudita.

Os Houthis acusam Riad de impor um bloqueio ao restringir as operações no aeroporto de Sanaa e nos portos marítimos do norte. A Arábia Saudita rejeita essa caracterização, dizendo que centenas de navios comerciais continuam chegando a portos controlados pelos Houthis e que as inspeções visam impedir o contrabando de armas.

Por trás dessas narrativas conflitantes, há uma negociação inacabada.

As negociações entre a Arábia Saudita e os Houthis, iniciadas após a trégua de 2022 mediada pela ONU, chegaram perto de definir um roteiro preliminar no final de 2023, antes de estagnarem. Os Houthis têm exigido repetidamente a redução das restrições a aeroportos e portos, o pagamento de salários do setor público em suas regiões com recursos provenientes das receitas de petróleo e gás do Iêmen, controladas pelo governo apoiado pela Arábia Saudita, uma troca abrangente de prisioneiros e financiamento saudita para a reconstrução e indenizações. Eles também buscam o fim do envolvimento militar saudita e do apoio a facções iemenitas da oposição.

O analista político iemenita, Yasin Al-Tamimi, disse à Xinhua que a recente escalada visa principalmente fortalecer a posição de negociação dos Houthis e garantir mais concessões. Ele disse que a medida "não pode ser dissociada da agenda regional mais ampla do Irã", acrescentando que "Teerã e seus aliados já atacaram instalações sauditas anteriormente".

QUAIS SÃO AS OPÇÕES DA ARÁBIA SAUDITA?

Até o momento, a Arábia Saudita vem evitando lançar uma retaliação em larga escala contra os ataques dos Houthis.

A contenção do reino não reflete uma incapacidade de atacar os Houthis, mas sim uma relutância em "voltar a um conflito prolongado após anos de guerra inconclusiva", disse Muqbil Naji, analista sediado em Áden.

Anos de operações militares lideradas pela Arábia Saudita não conseguiram expulsar os Houthis de Sanaa e de grande parte do norte do Iêmen, ao passo que o grupo desenvolveu mísseis e drones capazes de alcançar cidades, aeroportos e instalações de energia sauditas.

Naji observou que Riad tem "vasta infraestrutura, investimentos e prioridades de desenvolvimento a proteger, enquanto os Houthis passaram anos operando em condições de guerra".

A Arábia Saudita preferiria que o governo do Iêmen, reconhecido internacionalmente, assumisse maior responsabilidade no enfrentamento aos Houthis, acrescentou ele, mas as divisões entre suas facções limitaram a capacidade do governo de organizar uma resposta unificada.

Fragmentos de metal são vistos no Aeroporto Internacional de Sanaa, no Iêmen, em 13 de julho de 2026. (Centro de Mídia Houthi/Divulgação via Xinhua)

Isso deixa Riad com três opções difíceis: manter os canais diplomáticos abertos, fortalecer a proteção marítima por meio da coalizão de defesa multinacional que está sendo formada ou ampliar os ataques militares contra os Houthis.

Nenhuma delas garante uma saída fácil. As defesas marítimas podem reduzir, mas não eliminar, a ameaça, enquanto uma campanha militar mais ampla poderia desencadear novos ataques em território saudita e reabrir uma guerra sem prazo para terminar, segundo Naji.

Analistas acreditam que, por enquanto, os Houthis parecem testar quanta pressão Riad está disposta a tolerar para evitar outro conflito mais amplo, enquanto a Arábia Saudita busca uma maneira de restaurar a capacidade de dissuasão sem desencadear uma guerra em larga escala. As implicações dos próximos passos de ambos os lados vão muito além do Iêmen e da Arábia Saudita, com possíveis consequências para a navegação no Mar Vermelho e para os mercados globais de energia.

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