
Crianças palestinas deslocadas são vistas em um abrigo temporário na Cidade de Gaza, em 12 de junho de 2026. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
Gaza, 5 ago (Xinhua) -- O recente anúncio do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre um acordo para desarmar completamente o Hamas e outros grupos armados em Gaza provocou reações fortemente divergentes de Israel e do Hamas, expondo diferenças persistentes e não resolvidas sobre questões fundamentais entre os dois arqui-inimigos.
Embora Washington tenha apresentado o acordo como um avanço histórico, analistas o veem como uma manobra política calculada dos EUA para moldar as negociações, e não como um acordo finalizado. Sua viabilidade depende de os mediadores conseguirem superar as divergências fundamentais entre os dois lados.
DECLARAÇÕES CONFLITANTES
Trump anunciou na quinta-feira, em sua plataforma Truth Social, que o chamado "Conselho de Paz" havia garantido um acordo para o "desarmamento completo" do Hamas e de outras facções armadas em Gaza.
Ele descreveu o acordo como algo que abre caminho para uma nova administração palestina, a qual trabalhará com o "Conselho de Paz", liderado pelos EUA, para governar Gaza, dizendo que isso aumentará a segurança de Israel e impedirá que o enclave seja usado para futuros ataques.
Segundo Trump, as forças israelenses se retirarão após a conclusão do processo de desarmamento, e uma força internacional de estabilização, juntamente com uma nova força policial palestina, assumirá as responsabilidades de segurança.
Um dia após o anúncio do acordo por Trump, o Hamas declarou ter concordado com a "versão mais recente do roteiro" para a segunda fase do acordo de cessar-fogo em Gaza, após negociações "intensas", mas condicionou os arranjos relativos ao armamento à interrupção total da "agressão", à retirada israelense do enclave e a progressos na reconstrução.

Ismail Thawabta, diretor-geral do escritório de mídia administrado pelo Hamas em Gaza (direita, frente), e o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem (esquerda, frente), participam de uma coletiva de imprensa conjunta em Deir al-Balah, no centro de Gaza, em 6 de julho de 2026. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
Na terça-feira, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse que Israel não retirará suas forças de suas posições atuais em Gaza até que o Hamas seja totalmente desarmado.
Em relação ao acordo anunciado por Trump, Netanyahu disse que a Casa Branca "nos enviou uma minuta", mas "não concordamos com ela".
"Não é nossa minuta. Enviamos nossos comentários", disse ele.
IMPASSE INSOLÚVEL
Apesar de Washington descrever o acordo como "histórico", analistas apontaram um problema estrutural irreconciliável.
Bao Chengzhang, professor associado do Instituto de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Estudos Internacionais de Shanghai, observou que o Hamas condiciona o desarmamento ao fim da "ocupação" por parte de Israel, enquanto Israel insiste no desarmamento antes de qualquer retirada. As posições fundamentalmente opostas de ambos os lados criaram um impasse insolúvel.

Palestinos deslocados são vistos perto de tendas danificadas após um ataque aéreo israelense na Rua Al-Jalaa, na Cidade de Gaza, em 27 de junho de 2026. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
O analista Wissam Afifa, sediado em Gaza, disse que, embora o acordo anunciado por Trump vincule o desarmamento a uma retirada israelense gradual, ele precisa de cronogramas vinculativos, garantias confiáveis e mecanismos de verificação independentes. Sem esses elementos, alertou Afifa, cada lado mantém a capacidade de acusar o outro de violar o acordo, deixando-o mais próximo de uma estrutura de negociação do que de um acordo viável.
Nizar Nazzal, especialista em assuntos israelenses sediado em Ramala, disse que Israel pode buscar apenas uma retirada limitada em troca de acordos de segurança de longo prazo, deixando uma lacuna significativa entre as exigências palestinas por uma retirada completa e a preferência de Israel por termos condicionais.
CÁLCULOS MAIS AMPLOS DE WASHINGTON
Analistas consideram que o momento e a natureza do anúncio de Trump refletem as considerações estratégicas mais amplas de Washington, para além da própria situação em Gaza.
O analista político palestino, Akram Atallah, observou que Washington frequentemente anuncia resultados políticos antes que os detalhes de implementação estejam definidos, com o objetivo de exercer pressão sobre as partes negociadoras.
"Divulgar progressos pode, por si só, se tornar uma ferramenta de negociação", já que isso torna a rejeição politicamente custosa, disse Atallah.
"Isso eleva as expectativas, molda a narrativa política e incentiva todos os lados a se adaptarem à estrutura anunciada, em vez de voltarem à estaca zero nas negociações", disse Atallah.

Foto tirada em 7 de junho de 2026 mostra placa de pare com o Capitólio dos EUA ao fundo, em Washington, D.C., Estados Unidos. (Xinhua/Li Rui)
Enquanto isso, como o anúncio de Trump ocorreu em meio a tensões regionais mais amplas, incluindo desdobramentos relacionados ao Irã e preocupações de segurança no Estreito de Ormuz, analistas acreditam que o momento escolhido demonstra um esforço deliberado de Washington para projetar um impulso diplomático e desviar a atenção de outros desafios.
Gaza se tornou um componente de negociações regionais mais amplas, com os desdobramentos no enclave cada vez mais vinculados a cálculos estratégicos mais abrangentes que envolvem o Irã e a segurança regional, disse Nazzal.
Apresentar avanços em relação a Gaza permite a Washington projetar um engajamento diplomático em um momento em que enfrenta múltiplas pressões regionais e internas, observou Afifa.

