
Palestinos participam de protesto contra planos israelenses de deslocamento forçado na Cidade de Gaza, em 23 de julho de 2026. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
A rejeição formal de Israel ao plano de paz de 15 pontos para Gaza, apoiado pelos EUA, evidencia a disputa com o Hamas sobre a sequência e as condições para encerrar as hostilidades de longa data, aumentando a incerteza quanto ao futuro do enclave.
Jerusalém, 10 ago (Xinhua) -- O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, rejeitou formalmente, no domingo, um plano de 15 pontos apoiado pelos EUA para encerrar o conflito em Gaza, insistindo que Israel não retirará suas forças do enclave até que o Hamas seja totalmente desarmado.
A rejeição marca a primeira oposição explícita de Israel à estrutura de paz para Gaza proposta pelo chamado "Conselho de Paz" liderado pelos EUA, expondo grandes divergências entre Israel e o Hamas sobre a sequência e as condições para o fim das hostilidades.
Netanyahu disse que Israel "não aceita o documento de 15 pontos", argumentando que qualquer retirada israelense deve ocorrer apenas após o "desarmamento genuíno" do Hamas. "Quando falo em desarmar o Hamas, me refiro às armas pesadas, às armas menos pesadas, a todas as armas", disse Netanyahu em uma reunião semanal do gabinete.
QUAL É O PLANO?
O plano foi elaborado em maio por Nickolay Mladenov, "alto representante para Gaza" do "Conselho de Paz", e anunciado oficialmente pelo presidente dos EUA, Donald Trump, no final de julho. Na ocasião, Trump disse que o conselho havia chegado a um acordo sobre o "desarmamento completo" do Hamas e de outros grupos armados em Gaza.
Segundo a proposta, o Hamas entregaria suas armas, enquanto as forças israelenses se retirariam gradualmente de Gaza e seriam substituídas por uma Força Internacional de Estabilização, atuando em conjunto com uma estrutura policial palestina reformada.

Um palestino examina escombros após ataque aéreo israelense atingir um apartamento na Cidade de Gaza, em 2 de agosto de 2026. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
O plano também prevê acesso humanitário, esforços de reconstrução e o estabelecimento de um órgão interino para administrar Gaza, com o objetivo final de permitir que a Autoridade Palestina retome suas responsabilidades em Gaza e na Cisjordânia, segundo autoridades egípcias envolvidas na mediação do plano e nas próximas etapas de sua implementação.
Um dia após o anúncio de Trump, o Hamas disse ter aceitado a versão mais recente do plano após negociações, mas condicionou os acordos sobre armamentos a várias exigências, incluindo a interrupção total da "agressão", a retirada israelense do enclave e avanços na reconstrução.
QUAL É O PRINCIPAL PONTO DE DISCÓRDIA?
O principal obstáculo está em uma disputa fundamental sobre qual passo deve vir primeiro: o desarmamento do Hamas ou a retirada de Israel.
Israel insiste que o Hamas deve primeiro abrir mão de todas as armas antes de qualquer retirada das forças israelenses de Gaza, argumentando que um acordo de cessar-fogo sem a eliminação completa das capacidades militares do Hamas deixaria uma ameaça à segurança sem solução.
"Eles têm ideias, algumas das quais são aceitáveis para nós e outras não, e sabemos como manter nossa posição nessas questões", disse Netanyahu, ressaltando que Israel continuaria realizando ataques no enclave para "neutralizar ameaças".
O Hamas, no entanto, rejeitou o desarmamento unilateral antes do fim das operações israelenses e da retirada de Gaza. O grupo argumenta que qualquer discussão sobre armas deve fazer parte de um acordo político mais amplo e estar vinculada a garantias de reconstrução e aos direitos dos palestinos.

Foto tirada em 25 de julho de 2026 mostra uma criança palestina deslocada na Cidade de Gaza. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
QUAL É O PRÓXIMO PASSO PARA O PLANO?
A disputa em torno do plano para Gaza ocorre em meio à incerteza contínua sobre o futuro do enclave após meses de conflito. Após o anúncio de Netanyahu, o Hamas reafirmou seu compromisso com o plano e pediu às partes envolvidas que ajudem a implementar o acordo.
Analistas dizem que a rejeição do plano de paz por Netanyahu reflete considerações de política interna. A ministra das Relações Exteriores da Palestina, Varsen Aghabekian Shahin, acusou Netanyahu de tentar adiar um acordo sobre Gaza para depois das eleições de outubro em Israel, dizendo que o líder israelense "não quer chegar a um acordo".
Basem Naim, funcionário do gabinete político do Hamas, disse na rede social X que o grupo esperava que os mediadores e os EUA, como fiadores do processo, impedissem o governo de Netanyahu de obstruir as negociações por "razões políticas e eleitorais internas".
O Egito, mediador-chave nas negociações de cessar-fogo em Gaza, também instou todas as partes a honrarem seus compromissos e a se absterem de ações que pudessem comprometer os avanços alcançados.
O ministro das Relações Exteriores do Egito, Badr Abdelatty, ressaltou a necessidade de implementar as medidas acordadas, incluindo o acesso humanitário contínuo, a retirada completa de Israel de Gaza e a organização de uma Força Internacional de Estabilização.
Netanyahu também reiterou que, "enquanto eu for primeiro-ministro, um Estado palestino não será estabelecido", uma posição que parece entrar em conflito com o objetivo declarado do plano de criar condições para um "caminho crível" rumo à autodeterminação e à condição de Estado dos palestinos.
Apesar da incerteza, as negociações continuam. Netanyahu disse que seu país ainda estava discutindo o documento com os Estados Unidos e que algumas de suas propostas eram aceitáveis para Israel.

Palestinos participam do funeral coletivo de 112 vítimas na Cidade de Gaza, em 4 de agosto de 2026. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
Desde que um cessar-fogo entre o Hamas e Israel entrou em vigor em outubro de 2025, ataques israelenses mataram mais de 1.250 pessoas e feriram mais de 4.100 outras em Gaza, segundo autoridades de saúde locais.

