Beijing, 13 ago (Xinhua) -- O Brasil se tornou o maior destino das exportações de veículos de nova energia (NEVs) da China e o segundo maior mercado das exportações totais de veículos do país no primeiro semestre de 2026, de acordo com dados industriais.
Impulsionadas tanto pela estratégia de localização quanto pela competitividade dos produtos, as montadoras chinesas têm alcançado um aumento constante nas vendas no mercado brasileiro, delineando uma trajetória de evolução que vai da "exportação de produtos" à "expansão internacional da indústria" e, por fim, ao "enraizamento do ecossistema".
MUDANÇAS NO PANORAMA DO MERCADO GLOBAL
O Brasil está se tornando um mercado fundamental para as exportações automotivas da China e a cooperação na área de veículos de nova energia passou a ser um destaque nas relações comerciais bilaterais.
Entre janeiro e junho deste ano, as exportações acumuladas de veículos de nova energia da China totalizaram 2,42 milhões de unidades, um aumento anual de 70%, de acordo com dados recém-divulgados pela Associação de Carros de Passageiros da China (CPCA, sigla em inglês).
As exportações de NEVs para o mercado brasileiro chegaram a 299.803 unidades nos primeiros seis meses, subindo 158% em relação ao mesmo período do ano passado. Isso contribuiu diretamente para que o Brasil substituísse a Bélgica como o maior mercado de exportação de veículos de nova energia da China.
O avanço constante na localização da produção, com a implantação de fábricas pelas montadoras chinesas, foi um fator importante para o aumento acentuado das exportações ao Brasil, disse Cui Dongshu, secretário-geral da CPCA.
Considerando o volume total das exportações automotivas da China, o Brasil ocupou o segundo lugar de janeiro a junho, com 410.825 veículos, ficando atrás apenas da Rússia, com 448.157 veículos. Já em 2025, o Brasil ficou na quinta posição desse ranking.
Segundo Cui, os principais impulsionadores do crescimento das exportações deste ano continuam sendo os altos preços do petróleo, o aumento da competitividade dos produtos chineses e o crescimento contínuo da demanda dos países do Sul Global.
ATUALIZAÇÃO DA LÓGICA DE LOCALIZAÇÃO
Diferentemente da exportação tradicional de veículos completos, cada vez mais montadoras chinesas construíram fábricas no Brasil, integrando a cadeia industrial ao mercado local e acelerando seu posicionamento industrial sistemático no país.
Em março de 2024, a BYD iniciou oficialmente as obras do complexo da fábrica de veículos elétricos em Camaçari, no estado da Bahia, a primeira planta da marca fora da Ásia destinada à produção de automóveis. Em 16 de julho deste ano, o 100 milésimo veículo de nova energia saiu oficialmente da linha de produção nessa fábrica e o número de funcionários em atividade na fábrica atingiu 5.500 pessoas.
A Great Wall Motor (GWM) inaugurou em agosto de 2025 sua primeira fábrica no continente americano em Iracemápolis, no estado de São Paulo, a primeira planta da marca no Hemisfério Sul e a terceira de produção de veículos completos fora da China. Em fevereiro deste ano, a GWM fechou um acordo com o governo do Espírito Santo sobre sua segunda fábrica no país, acelerando sua presença industrial local.
Também em novembro do ano passado, a Renault da França e a Geely da China anunciaram o investimento de R$ 3,8 bilhões (US$ 751,03 milhões) no estado do Paraná, onde as duas montadoras estabeleceram uma parceria local para a pesquisa, o desenvolvimento e a produção de NEVs, entre outros.
"Não nos limitamos a vender e fabricar carros, estamos comprometidos em trazer tecnologias, empregos, cadeia industrial e ecossistema, integrando-nos plenamente ao desenvolvimento local", destacou Tyler Li, presidente da BYD Brasil.
Por meio da promoção contínua da produção localizada e do aperfeiçoamento da rede de vendas, o Brasil poderá oferecer um importante apoio à expansão das marcas automotivas chinesas para os mercados da América do Sul, observou Liu Yan, especialista da Aliança para a Inovação e o Desenvolvimento Internacional das Montadoras Chinesas.
COEXISTÊNCIA DE OPORTUNIDADES E DESAFIOS
Os veículos de nova energia da China atendem à demanda do povo brasileiro por mobilidade ecológica, enquanto o mercado desses carros no Brasil apresenta tanto oportunidades quanto desafios.
Desde 2024, o governo federal do Brasil vem retomando a cobrança do imposto de importação sobre carros elétricos e híbridos em quatro etapas. Conforme o cronograma, todos os veículos eletrificados importados pagariam uma tarifa máxima de 35% a partir de 1º de julho de 2026.
Segundo a decisão recente do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex), os veículos eletrificados semidesmontados (SKD) terão a tarifa de importação de 35% a partir de julho e os modelos desmontados (CKD) continuarão com a alíquota reduzida de 14% até o fim de 2026, passando também para 35% em janeiro de 2027.
Quanto aos dados de junho, o crescimento anual dos NEVs vendidos pelas marcas chinesas no mercado brasileiro caiu para 2%, enquanto países como a Bélgica e o Reino Unido registraram aumentos superiores a 100%.
Liu Yan afirmou que, diante do complexo cenário internacional, o modelo que depende exclusivamente da exportação de produtos é insustentável. Buscar novos mercados, construir um ecossistema industrial e reformular a identidade da marca estão se tornando os três principais pilares estratégicos para que a indústria automotiva chinesa supere os desafios da expansão internacional.
Carlos Augusto Serra Roma, diretor técnico da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), disse que a China possui escala industrial, expertise tecnológica e capacidade de investimento em tecnologias verdes, e o Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com enorme potencial nas áreas de biocombustíveis, minerais críticos, agricultura sustentável e indústria verde.
A combinação dessas vantagens gerou oportunidades de cooperação históricas, que não apenas beneficiam o Brasil e a China, mas também contribuem de forma concreta para a descarbonização global, de acordo com Roma.

