Gaza, 12 ago (Xinhua) -- O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, rejeitou recentemente um plano de 15 pontos apoiado pelos EUA para encerrar o conflito em Gaza, insistindo que as forças israelenses não se retirariam de Gaza antes que o Hamas fosse completamente desarmado.
Analistas disseram que a rejeição, motivada por cálculos políticos e de segurança de Netanyahu, lança novas incertezas sobre o processo de paz em Gaza, embora não sinalize necessariamente o colapso imediato dos esforços de paz.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, fala na sede militar de Kirya, em Tel Aviv, Israel, em 1º de março de 2026. (GPO/Divulgação via Xinhua)
MANUTENÇÃO DO STATUS QUO
Netanyahu "se beneficia da manutenção do status quo", disse à Xinhua o analista político Esmat Mansour, sediado em Ramala, argumentando que uma transição rápida para a segunda fase do plano de paz poderia forçá-lo a fazer concessões políticas, particularmente uma retirada israelense enquanto o Hamas permanece ativo.
A estrutura de paz apoiada pelos EUA se baseia em compromissos recíprocos de Israel e do Hamas. O Hamas teria concordado em tratar da questão de seu armamento, sob a condição de que Israel cumprisse seus compromissos correspondentes de retirada.
Ao tornar o desarmamento completo do Hamas uma pré-condição para a retirada israelense, Netanyahu poderia adiar a segunda fase sem abandonar formalmente o acordo, disse Mansour.
Aram Kiwan, analista político e colunista do jornal árabe Al-Ittihad, sediado em Haifa, foi além ao apontar que Israel está "tentando mudar a própria base da implementação" ao alterar a sequência e as condições de execução.
Essa mudança, segundo ele, daria a Israel maior controle sobre o cronograma e as condições de sua retirada. "A questão, portanto, não é apenas o desarmamento em si, mas quem determina quando a condição terá sido cumprida".
"Se o acordo não definir claramente o que constitui desarmamento, quem é responsável por verificá-lo e qual cronograma se aplica, a expressão ‘desarmamento completo’ poderá se tornar um obstáculo indefinido", disse Kiwan. Qualquer divergência sobre o cumprimento das condições poderia fazer as negociações voltarem à estaca zero, alertou ele.

Palestinos participam do funeral coletivo de 112 vítimas na Cidade de Gaza, em 4 de agosto de 2026. O funeral ocorreu após os corpos das vítimas terem sido recentemente recuperados dos escombros de casas destruídas em um ataque aéreo israelense em novembro de 2023. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
NECESSIDADES INTERNAS VERSUS PRESSÃO DOS EUA
A rejeição de Netanyahu também reflete, em parte, as pressões políticas conflitantes que ele enfrenta internamente e por parte de Washington, segundo Aida Touma-Suleiman, uma parlamentar árabe do Knesset israelense.
Ela disse à Xinhua que o avanço para a segunda fase ocorria em um momento politicamente difícil para Netanyahu, que precisa preservar o apoio de sua coalizão de direita antes das eleições de outubro, ao mesmo tempo em que sofre pressão de Washington para fazer avançar o processo de paz em Gaza.
Os aliados de direita de Netanyahu, que desejam intensificar os ataques israelenses a Gaza e estabelecer assentamentos dentro do território, elogiaram a rejeição do primeiro-ministro ao plano para Gaza.
Ao mesmo tempo, o presidente dos EUA, Donald Trump, precisa demonstrar progresso na questão de Gaza e em seus esforços mais amplos de paz, enquanto um avanço concreto para a segunda fase poderia colocar Netanyahu sob maior pressão política interna.
Nesse contexto, analistas dizem que Netanyahu parece estar priorizando a sobrevivência política interna e a estabilidade da coalizão, optando por resistir às exigências dos EUA em vez de arriscar um colapso político.

Ismail Thawabta, diretor-geral do escritório de mídia administrado pelo Hamas em Gaza (direita, frente), e o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem (esquerda, frente), participam de uma coletiva de imprensa conjunta em Deir al-Balah, no centro de Gaza, em 6 de julho de 2026. O Hamas anunciou a transferência da administração da Faixa de Gaza para o Comitê Nacional. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
PROCESSO DE PAZ À PROVA
Apesar do atual impasse, analistas dizem que a rejeição de Netanyahu não sinaliza necessariamente o colapso imediato do acordo.
O primeiro-ministro israelense já desafiou presidentes americanos no passado, observaram os analistas, ressaltando que essa postura traz riscos maiores agora, uma vez que as campanhas militares de Israel deixaram o país cada vez mais isolado diplomaticamente e dependente do apoio dos EUA. A pressão contínua dos EUA e os esforços de mediação poderiam, com o tempo, levar Israel a uma implementação gradual, apesar da retórica de linha dura de Netanyahu, disse Mansour.
Touma-Suleiman também disse que Washington poderia dar maior ênfase a medidas práticas do que à retórica política, abrindo espaço para que Netanyahu mantenha uma postura pública de linha dura enquanto aceita medidas limitadas na prática. A disparidade entre a retórica política e a implementação prática poderia ajudar a manter o acordo vivo enquanto as negociações prosseguem, disse ela.
A analista política Tamara Haddad, sediada em Ramala, disse que a posição de Netanyahu equivale, na prática, a rejeitar a segunda fase em sua forma atual, em vez de rejeitar totalmente o conceito de uma segunda fase.
Ela espera que as negociações continuem no curto prazo, com a fase atual provavelmente sendo prorrogada, em vez de o acordo ruir imediatamente ou avançar rapidamente para a segunda fase.
O papel de Washington pode ser decisivo, disse ela. Se Trump exercer pressão constante, Netanyahu poderá aceitar um acordo provisório que preserve sua exigência de desarmamento, permitindo, ao mesmo tempo, a retirada gradual das tropas israelenses.
Contudo, se Netanyahu receber apoio firme dos EUA para sua posição atual, a segunda fase poderá enfrentar obstáculos ainda maiores, deixando o acordo apenas como uma estrutura no papel, alertou Haddad.











