Entrevista: Revelar história sombria da Unidade 731 requer uma cooperação internacional mais ampla, diz historiador de Cingapura-Xinhua

Entrevista: Revelar história sombria da Unidade 731 requer uma cooperação internacional mais ampla, diz historiador de Cingapura

2026-08-15 13:16:05丨portuguese.xinhuanet.com

O historiador de Cingapura, Lim Shao Bin, examina materiais em sua casa em Cingapura, em 31 de julho de 2026. (Xinhua/Then Chih Wey)

Cingapura, 13 ago (Xinhua) -- "Mais de 80 anos se passaram, e só agora estamos começando a perceber o quanto o Japão ainda não nos revelou", disse Lim Shao Bin, um historiador de cingapuriano que passou décadas rastreando as atividades de guerra biológica do Japão no Sudeste Asiático, em uma entrevista recente à Xinhua.

Como cada nova descoberta serve para lembrar o quanto ainda permanece sem documentação, Lim disse que preencher essas lacunas exigiria uma cooperação internacional mais ampla entre governos e pesquisadores, não apenas para avançar nas pesquisas interdisciplinares, mas também para incentivar a divulgação de mais registros históricos.

Desde a década de 1980, Lim tem colecionado documentos japoneses da época da guerra, adquiridos em sebos e arquivos governamentais no Japão. Na última década, sua pesquisa focou na Unidade 9420, uma unidade de guerra biológica menos conhecida do Exército Imperial Japonês que operou no Sudeste Asiático.

A Unidade 9420 foi criada como parte da rede mais ampla de guerra biológica do Japão, com pessoal recrutado de unidades já estabelecidas, incluindo a Unidade 731 em Harbin e outras unidades em Nanjing e no próprio território japonês.

Segundo Lim, a Unidade 9420 "montou uma linha de produção de bombas bacteriológicas em Cingapura e no que hoje é a Malásia". Vegetais eram cultivados para alimentar ratos. Ratos eram criados para produzir pulgas. As pulgas eram então infectadas com a bactéria da peste antes de serem acondicionadas em bombas de vidro e transportadas para os campos de batalha.

Com sede em Cingapura, a unidade mantinha ramificações nos atuais territórios da Malásia, da Indonésia, das Filipinas, da Tailândia, do Vietnã e de Mianmar.

"Os militares japoneses vieram para o Sudeste Asiático porque o clima era ideal", disse Lim. Pesquisadores japoneses haviam concluído que as pulgas se reproduziam com maior eficiência em temperaturas entre 27 e 30 graus Celsius e níveis de umidade em torno de 90%.

Muitas dessas descobertas apareceram em "Oka 9420 Unit, Japanese South Army BW Troop" ("Unidade Oka 9420, Tropa de Guerra Bacteriológica do Exército Japonês do Sul", em tradução livre), um livro que Lim escreveu em coautoria com o pesquisador chinês Wang Xuan e que foi publicado em 2025.

No entanto, novas evidências continuaram surgindo.

Entre as mais significativas está um depoimento recém-revelado, preservado nos Arquivos Nacionais do Reino Unido, de um ex-prisioneiro de guerra identificado como W. B. Williams. O relato pode oferecer novas pistas de que prisioneiros britânicos também foram submetidos a experimentos em humanos.

Capturado em Cingapura em fevereiro de 1942, Williams escreveu que ele e muitos outros prisioneiros foram vacinados e inoculados. Amostras de sangue foram coletadas e "um tubo de vidro foi introduzido pelo reto".

Ele relembrou que, em poucos dias, um grande número de prisioneiros, inclusive ele mesmo, apresentou fortes dores de cabeça, diarreia, disenteria e sintomas abdominais.

De acordo com seu depoimento, procedimentos semelhantes foram repetidos três vezes ao longo de três anos em diferentes campos, sendo seguidos, em cada ocasião, pelos mesmos sintomas.

"Se isso não são experimentos, não sei como mais podem ser chamados", escreveu Williams.

"Antes disso, não havíamos encontrado registros indicando que cidadãos britânicos também tivessem sido submetidos a experimentos em seres humanos", disse Lim.

A possibilidade, no entanto, não foi totalmente surpreendente para Lim. Em seu livro de 2025, ele já havia levantado questões sobre se a Unidade 9420 realizava experimentos em humanos com cidadãos britânicos.

Em junho de 1944, observou ele, 17 prisioneiros de guerra britânicos mantidos em Cingapura contraíram tifo tsutsugamushi (ou tifo dos matagais), uma doença que não era endêmica em Cingapura na época, e três morreram.

Separadamente, um relatório médico produzido pela Unidade 9420 registrou que médicos militares haviam isolado o patógeno relacionado a partir de ratos selvagens e transportado agente para "Syonan-to", nome usado pelo Japão para a Cingapura ocupada.

"A doença não era nativa daqui", disse Lim. "Ela foi trazida para cá".

Lim também apontou para outro capítulo ainda não esclarecido.

Após a rendição do Japão, os Estados Unidos enviaram várias equipes para investigar a Unidade 731. É relatado que a unidade entregou cerca de 8.000 lâminas de patologia ao lado americano. No entanto, os materiais nunca foram divulgados ao público, nem foram instaurados processos por crimes de guerra contra membros da unidade.

"A cooperação internacional é essencial", disse Lim, observando que apenas esforços coordenados de governos e instituições de pesquisa podem incentivar o Japão, os Estados Unidos e outros países a divulgar materiais de arquivo adicionais.

"Se apenas pesquisadores individuais ou universidades solicitarem a divulgação, é muito difícil avançar", acrescentou ele.

Para Lim, a cooperação internacional vai além da abertura de arquivos. A compreensão das evidências remanescentes exige, cada vez mais, conhecimentos especializados de múltiplas disciplinas.

Ele recordou ter descoberto um inventário de 1942 que listava centenas de agentes químicos transferidos da sede da Unidade 731 para a Unidade 9420, para uso durante um período de seis meses. Cada item estava registrado em katakana. "Se você não tiver especialistas na área, é quase impossível interpretar".

"Precisamos de pessoas de diversas áreas para expor plenamente essa malignidade histórica", disse ele.

Em junho deste ano, a emissora Channel NewsAsia, de Cingapura, lançou o documentário "Inside Unit 731: Japan's Secret Human Experiments" ("Por Dentro da Unidade 731: Os Experimentos Secretos do Japão com Seres Humanos", em tradução livre). Lim disse que muitos espectadores em Cingapura ficaram chocados ao saber que o país teve ligação com o programa de guerra biológica do Japão.

"Muitas pessoas achavam que a Unidade 731 era uma história que dizia respeito apenas à China", disse ele. "Agora que a emissora de Cingapura contou essa história, o público, incluindo muitas pessoas na Europa e na América do Norte, está percebendo que o assunto envolvia muito mais".

Para Lim, documentar a história da Unidade 731 e de suas unidades afiliadas não é apenas um exercício de reconstrução do passado. Trata-se também de compreender os sinais de alerta que precedem conflitos futuros.

O histórico de expansão militar do Japão, argumentou ele, demonstra que os preparativos para a guerra muitas vezes começam anos antes do início das hostilidades declaradas.

"A comunidade internacional deve permanecer vigilante", disse ele. "É preciso haver mecanismos de supervisão mais eficazes para os antigos Estados agressores, a fim de evitar que tragédias semelhantes voltem a ocorrer".

O historiador cingapuriano, Lim Shao Bin, concede entrevista à Xinhua em sua casa, em Cingapura, em 31 de julho de 2026. (Xinhua/Then Chih Wey)

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