Beijing, 16 ago (Xinhua) -- De veículos elétricos a empilhadeiras, as tecnologias verdes chinesas não estão apenas sendo exportadas, mas também incorporadas, à medida que uma filosofia de desenvolvimento que une proteção ecológica a crescimento econômico se estende muito além das fronteiras da China.
Da exportação à incorporação: Parceria verde China-Brasil
No setor automotivo, as marcas chinesas se tornaram uma força dominante. Em julho de 2026, três modelos chineses totalmente elétricos - o BYD Dolphin Mini, o BYD Dolphin e o Geely EX2 - figuraram entre os dez veículos leves mais vendidos no Brasil, de acordo com a Federação Nacional dos Distribuidores de Veículos Automotores do Brasil.
Considerando o volume total das exportações automotivas da China, o Brasil ocupou o segundo lugar de janeiro a junho de 2026, com 410.825 unidades. Já em 2025, o Brasil ficou na quinta posição deste ranking.
A parceria entre a Geely e a Renault, formalizada como uma joint venture em novembro de 2025, exemplifica como montadoras chinesas e estrangeiras estão unindo forças. A Geely contribui com sua plataforma GEA, compatível com sistemas totalmente elétricos, híbridos plug-in e metanol-elétricos. A Renault traz 27 anos de experiência em fabricação local, tendo produzido mais de 3,5 milhões de veículos no Brasil.
As vendas acumuladas de veículos de nova energia da Geely no Brasil ultrapassaram 20 mil unidades, com o EX2 registrando 5.898 vendas em julho. "Não há uma única resposta", disse a Geely. "A chave é adaptar o desenvolvimento aos recursos e características locais. A parceria com a Renault combina tecnologia de ponta com capacidade local para um modelo de globalização mais eficiente."
Pelo menos oito marcas chinesas já estão produzindo ou anunciaram planos de produção no Brasil.
Além dos automóveis, as tecnologias verdes chinesas estão tornando a infraestrutura industrial do Brasil mais sustentável. A CHINT atua no Brasil há mais de 20 anos, construindo um ecossistema localizado que abrange operações, fabricação, entrega e P&D. Em 2025, a empresa inaugurou uma fábrica de medidores inteligentes em Manaus, gerando empregos locais e apoiando o desenvolvimento de tecnologias de energia em toda a América Latina.
"Ao trazer sua expertise em eletricidade e novas fontes de energia para o Brasil, a CHINT está aprofundando a cooperação energética e apoiando a transição de baixo carbono no Brasil", apontou Shan Hao, gerente nacional da CHINT Global para o Brasil.
Com sede em Zhejiang, leste da China, a EP Equipment é uma fabricante e provedora de serviços líder especializada em empilhadeiras elétricas e autônomas, ocupando o primeiro lugar nas vendas de empilhadeiras elétricas de armazém na China há 13 anos consecutivos. Sua linha completa de equipamentos verdes (de 0,6 a 45 toneladas) pode substituir empilhadeiras com motores a combustão altamente poluentes. Com sua tecnologia de "remanufatura circular verde", velhas empilhadeiras a diesel podem ser convertidas em empilhadeiras com bateria de lítio, reduzindo resíduos, emissões e custos.
"Para se adaptar às duras condições operacionais do Brasil, como clima tropical, solos lamacentos, poeira intensa e cargas pesadas, a EP Equipment melhorou a durabilidade de seus equipamentos e desenvolveu modelos com maior autonomia e baterias de troca rápida", apontou Zhao Hailiang, gerente geral da Zhejiang EP Equipment Imp. & Exp. Co., Ltd.
"Trazemos a experiência chinesa em desenvolvimento verde e inteligente para ajudar a indústria local a acelerar sua transição de baixo carbono", acrescentou ele.
A State Grid iniciou a construção de sua terceira linha de UHV no Brasil, de ±800 kV, no Nordeste. Financiada, construída e operada por sua subsidiária brasileira sob concessão de 30 anos, a linha de 1.468 km transportará energia renovável do Nordeste para os centros consumidores do Centro e do Leste. Com capacidade de 5 milhões de kW, o projeto deverá entrar em pleno funcionamento em 2029, viabilizando o consumo de mais de 20 bilhões de kWh de energia limpa por ano e reduzindo 6,84 milhões de toneladas de dióxido de carbono. O projeto estabelece um novo marco para a cooperação em infraestrutura energética na América Latina.
Esses projetos não são casos isolados. Por trás deles, há uma convergência mais profunda entre filosofia e estratégia que está transformando ideias ecológicas em ações concretas.
Da filosofia à prática: Lógica da cooperação verde
"O conceito de civilização ecológica da China integra a própria concepção de desenvolvimento na China", disse José Medeiros da Silva, professor e diretor do Centro de Estudos de Brasil da Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang.
Ele identifica que a China vem buscando conciliar desenvolvimento industrial e recuperação ambiental, e o Brasil enfrenta o desafio de compatibilizar a força de seus setores agrícola e mineral com a preservação de biomas estratégicos e o uso sustentável da biodiversidade. Na qualidade de grandes países em desenvolvimento, argumenta o professor, Brasil e China podem ser decisivos na defesa dessa agenda, buscando soluções que harmonizem desenvolvimento econômico, inclusão social e preservação ambiental.
A proteção ambiental e o desenvolvimento econômico estão agora encontrando eco no Brasil. "A China e o Brasil compartilham um alto grau de consenso sobre a civilização ecológica", disse Zhou Zhiwei, diretor-executivo do centro de estudos brasileiros e diretor do departamento de relações internacionais, ligados ao Instituto da América Latina da Academia Chinesa de Ciências Sociais. "Os dois países estão no mesmo caminho. A experiência da China com a governança ambiental eficaz oferece lições valiosas para o Brasil. Ambos os lados devem fortalecer e mostrar ao mundo que são parceiros nessa jornada."
O Brasil foi o principal destino do capital chinês em 2025, atraindo US$ 6,1 bilhões em 52 investimentos, de acordo com o Conselho Empresarial Brasil-China. Pelo quinto ano consecutivo, os investimentos em projetos de sustentabilidade e energia limpa cresceram, com 31 projetos lançados nas áreas de energia hidrelétrica, solar, eólica e mobilidade elétrica.
Zhou também destacou que o programa "Nova Indústria Brasil" está alinhado com a abordagem de desenvolvimento verde da China. "O Brasil colocou a reindustrialização no centro de sua estratégia nacional. A experiência da China, desde o desenvolvimento de infraestrutura até a modernização industrial e a inovação tecnológica, oferece uma referência valiosa. Nossas diretrizes estratégicas, incluindo desenvolvimento verde, transição energética e reindustrialização, são altamente consistentes", enfatizou ele, observando que o Brasil tem buscado aproveitar as oportunidades oferecidas pela China para alcançar suas metas de desenvolvimento nacional.
Essa transformação é exatamente o que as indústrias verdes chinesas estão ajudando a viabilizar. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) do Brasil e o Banco de Exportação e Importação da China (China EximBank) estão criando um fundo de investimento de US$ 1 bilhão, com o China EximBank contribuindo com US$ 600 milhões e o BNDES com US$ 400 milhões. Com lançamento previsto para 2026, o fundo apoiará projetos nas áreas de energia verde, infraestrutura, bioeconomia, mineração, agricultura, economia digital e inteligência artificial.
"O modelo de cooperação verde entre a China e o Brasil oferece lições que vão muito além desses dois países. Trata-se de uma parceria entre duas importantes economias do Sul Global - uma com capital, tecnologia e escala industrial; a outra com recursos naturais abundantes e uma necessidade urgente de industrialização sustentável. A mesma não se baseia em ajuda, mas no benefício mútuo. Também demonstra que a transição para uma economia verde pode ser um impulsionador do crescimento", avaliou Zhou.

