
Tóquio, 15 ago (Xinhua) -- Enquanto o Japão marca o 81º aniversário de sua rendição na Segunda Guerra Mundial, milhares de antigos registros médicos militares preservados no país oferecem raras provas documentais de atrocidades cometidas por soldados japoneses durante a guerra de agressão contra a China, registros que as forças armadas japonesas chegaram a ordenar que fossem destruídos.
Escondidos por décadas em recipientes de ferro sob o solo e, mais tarde, meticulosamente copiados à mão, os arquivos contêm confissões dos próprios soldados sobre o assassinato de civis, a queima de aldeias e o ataque a crianças com baionetas. Especialistas japoneses dizem que os registros não apenas documentam crimes de guerra, mas também revelam como a ideologia militarista normalizou a violência, enquanto os militares tentavam apagar as provas de sua responsabilidade.

Pessoas visitam o Museu da Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa em Beijing, capital da China, em 15 de agosto de 2026. (Xinhua/Zhang Xiaoyu)
REGISTROS PRESERVADOS
Em 15 de agosto de 1945, o Japão anunciou a aceitação da Declaração de Potsdam, concordando com a rendição incondicional. Nos dias que cercaram a derrota, os militares japoneses ordenaram a destruição de grandes quantidades de documentos confidenciais, incluindo os registros médicos de tropas japonesas que invadiram a China e receberam tratamento no Hospital do Exército de Kohnodai, na cidade de Ichikawa, província de Chiba, atualmente o Hospital Kohnodai, do Centro Nacional de Saúde e Medicina Global.
"Os militares queriam queimar documentos que pudessem revelar crimes de guerra e servir como prova para uma futura responsabilização", disse à Xinhua, Tomio Hosobuchi, professor emérito da Universidade de Saitama.
Felizmente, o então diretor do hospital preservou os registros médicos, reconhecendo seu valor como "materiais históricos importantes", disse Hosobuchi. Lacrados em barris de ferro e enterrados no subsolo, os registros foram preservados até hoje.
Os documentos originais estão agora guardados em uma instituição médica psiquiátrica na cidade de Chiba. Uma coleção completa de fotocópias está preservada nos arquivos do Hospital Asai, na cidade de Togane, também na província de Chiba.

Pessoas visitam o Museu da Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa em Beijing, capital da China, em 15 de agosto de 2026. (Xinhua/Zhang Xiaoyu)
CONFISSÕES DOS PACIENTES
Dentro do arquivo, milhares de fotocópias amareladas de prontuários médicos documentam as condições psicológicas de soldados japoneses hospitalizados durante a guerra.
Um prontuário médico analisado pela Xinhua contém a seguinte declaração de um ex-soldado: "Matei seis civis na província de Shandong. A lembrança frequentemente assombra meus sonhos e me impede de encontrar paz".
O soldado continuou: "A experiência de matar crianças pequenas, em particular, me causa profunda angústia quando penso em meus próprios filhos da mesma idade".
Antes de se alistar, esse soldado trabalhava em uma agência dos correios na província de Yamagata. Após o Japão iniciar sua invasão em larga escala da China, ele foi enviado para o norte do país e internado no Hospital do Exército de Kohnodai em agosto de 1938, após desenvolver uma "doença mental".
Hosobuchi explicou que alguns soldados japoneses desenvolveram dormência nos membros, tremores e outros sintomas psicológicos após vivenciarem o terror do campo de batalha ou traumas mentais graves. Durante a guerra, essas condições eram classificadas genericamente como "neurose de guerra", e o Hospital do Exército de Kohnodai se especializou no tratamento desses pacientes, recebendo cerca de 10.000 indivíduos.
Por que os militares queriam que os arquivos fossem apagados? Eri Nakamura, professora associada da Universidade Sophia, acredita que muitos casos de "neurose de guerra"estavam ligados ao próprio "uso de violência ou participação direta em atrocidades" por parte dos soldados. "Após a derrota do Japão, os militares temiam que esses registros se tornassem provas de responsabilidade pela guerra. Por isso, ordenaram sua destruição", acrescentou ela.
Nakamura mostrou à Xinhua outro prontuário médico de um soldado japonês. Ele continha um relato pessoal descrevendo como o soldado matou uma criança de 12 anos a golpes de baioneta: "Aquela criança me dava muita pena; a cena do golpe não sai da minha mente, e a imagem retorna sempre que tenho uma crise".
Nakamura observou que expressões como "lamentável" eram extremamente raras nos registros da época da guerra, pois os soldados japoneses haviam sido, em geral, condicionados a considerar o ato de matar como algo legítimo e a negar a humanidade de suas vítimas. Além disso, a censura em tempo de guerra desencorajava qualquer discussão sobre as atrocidades cometidas durante o conflito. Consequentemente, os soldados não apenas relutavam em falar sobre a dura realidade de "matar", mas também racionalizavam subconscientemente seus próprios atos, mesmo ao buscarem tratamento psiquiátrico.
Pessoas visitam o Museu da Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa em Beijing, capital da China, em 15 de agosto de 2026. (Xinhua/Zhang Xiaoyu)
NORMALIZAR VIOLÊNCIA
Hosobuchi disse que inúmeros arquivos registram explicitamente atrocidades cometidas pelos militares japoneses, incluindo relatos como "incendiamos a aldeia inteira" e "cheguei a matar bebês".
Mais impressionante ainda, observou Hosobuchi, é que descrições como "aniquilação total" ou "a aldeia foi incendiada" eram frequentemente registradas não como causas dos transtornos psicológicos dos soldados, mas sim como "feitos militares".
A razão para isso, argumenta ele, está na educação militarista promovida pelo Japão durante a guerra.
As pessoas eram intensamente doutrinadas com a ideologia do hakko ichiu, ou "o mundo todo sob o mesmo teto", disse Hosobuchi, se referindo ao slogan imperial que vislumbrava a dominação japonesa sobre a Ásia e, futuramente, sobre o mundo inteiro.
"Sob essa ideologia, governar e subjugar outros povos era apresentado como algo natural. Muitos foram levados ao campo de batalha justamente por essa forma de pensar", acrescentou Hosobuchi.
Essa atmosfera militarista não apenas distorcia a percepção dos soldados sobre a guerra e o ato de matar, mas também levava os militares japoneses a se esforçarem ao máximo para ocultar a existência da "neurose de guerra".
Segundo Nakamura, reconhecer a existência de traumas psicológicos generalizados teria feito os soldados perceberem o impacto destrutivo da guerra sobre si mesmos, abalado o moral e exposto a vulnerabilidade do Estado. Por isso, os militares japoneses ocultaram deliberadamente o fato do público. Na prática, tratava-se de uma forma de "gestão de imagem".
À medida que o número de mortes de militares japoneses aumentava durante a guerra, a disposição do público para continuar lutando enfraquecia progressivamente, acrescentou Hosobuchi. "Para sustentar a guerra, os militares japoneses passaram a ocultar a realidade de forma ainda mais deliberada".

Foto tirada em 15 de agosto de 2026 mostra uma vista da Ponte Lugou e do portão da cidade de Wanping, em Beijing, capital da China. (Xinhua/Hu Jingwen)
ALERTA PARA AS PRÓXIMAS GERAÇÕES
Os registros médicos adquiriram um profundo significado histórico justamente por terem escapado da destruição.
Nakamura disse que eles fornecem provas documentais de que as tropas japonesas cometeram inúmeras atrocidades na China, revelando também os mecanismos institucionais que tornaram essa violência possível.
"Essas atrocidades ocorreram porque os militares japoneses realizavam treinamentos concebidos para preparar as pessoas para cometer atos de violência", disse ela. "O objetivo era eliminar a resistência psicológica dos soldados em relação ao ato de matar".
Para Hosobuchi, os arquivos são mais do que evidências históricas, são um alerta. "A guerra faz com que as pessoas percam sua humanidade", disse ele. "Espero que as próximas gerações compreendam a crueldade da guerra por meio destes registros preservados, lembrem-se do sofrimento que ela causou e impeçam que essas tragédias se repitam".










