Teerã, 17 ago (Xinhua) -- O prazo de 60 dias que Washington e Teerã estabeleceram para elaborar um acordo de paz definitivo expirou na segunda-feira. O período terminou não com avanços, mas com as duas partes ainda mais distantes quanto à forma de prosseguir.
A contagem regressiva começou em meados de junho, quando os Estados Unidos e o Irã assinaram um memorando de entendimento (MoU, na sigla em inglês) com o objetivo de encerrar a guerra, reabrir o Estreito de Ormuz e abrir caminho para um acordo de paz final. No entanto, em vez de aliviar as tensões, a situação desde então foi marcada por um novo impasse sobre o estreito, ataques de retaliação mútua e contatos diplomáticos esporádico.

Pessoas participam de manifestação para lamentar a morte do falecido líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e jurar lealdade ao atual líder supremo, Mojtaba Khamenei, em Teerã, Irã, em 7 de maio de 2026. (Xinhua/Shadati)
NOVA DISPUTA PELO ESTREITO
Pouco depois da assinatura do MoU, em 18 de junho, a redação ambígua do acordo sobre direitos de navegação no Estreito de Ormuz desencadeou novos confrontos.
O Irã exigiu que todas as embarcações comerciais navegassem por uma rota ao norte, do lado iraniano, enquanto os Estados Unidos defendiam uma rota ao sul, próxima a Omã. Os militares dos EUA atacaram alvos iranianos, citando ataques de Teerã a embarcações comerciais que tentavam utilizar a rota sul. O Irã respondeu fechando novamente o estreito.
As tensões escalaram rapidamente: forças dos EUA realizaram ataques aéreos contra o Irã por mais de 10 dias consecutivos, enquanto o Irã atingiu bases americanas na Jordânia, no Kuwait e no Bahrein. Em certo momento, ambos os lados declararam o MoU nulo.
Os Estados Unidos restabeleceram seu bloqueio naval para forçar Teerã a reabrir o estreito, ao passo que o Irã impôs suas próprias pré-condições. Nenhum dos lados cedeu.
Embora o MoU abranja diversas questões, incluindo um cessar-fogo na frente libanesa, a passagem segura pelo estreito e o alívio de sanções, o estreito se tornou o principal campo de batalha, deixando pouco espaço para negociar outros assuntos, dizem analistas, acrescentando que a ação militar provou ser incapaz de forçar concessões.
Os canais diplomáticos, no entanto, não foram totalmente interrompidos. O lado americano vem dizendo repetidamente que as negociações continuam, e mediadores, incluindo o Paquistão e o Catar, continuam ativamente envolvidos.
Teerã negou estar em negociações com Washington, mas reconheceu que Doha e Islamabad estavam transmitindo mensagens entre os dois lados.

Foto tirada em 7 de junho de 2026 mostra placa de pare com o Capitólio dos EUA ao fundo, em Washington, D.C., Estados Unidos. (Xinhua/Li Rui)
POUCA MARGEM PARA COMPROMISSO
Analistas dizem que o impasse prolongado e as posições de linha-dura adotadas por ambos os lados ressaltam a relutância de cada um em ceder.
À medida que as tensões persistem, cada lado busca usar sua postura firme para obter maior poder de barganha na mesa de negociações, restringindo ainda mais o já limitado espaço para um acordo a curto prazo.
Quanto à questão da passagem pelo Estreito de Ormuz, nem o Irã nem os Estados Unidos podem se dar ao luxo de ceder. Para o Irã, a via navegável estratégica, um ponto de estrangulamento essencial para o transporte global de petróleo, representa um instrumento de segurança e uma ferramenta de barganha para futuras negociações, disse Mohcine Karzazi, professor de relações internacionais na Universidade Hassan II, no Marrocos.
Para os Estados Unidos, aceitar as condições de Teerã para a reabertura do estreito provocaria uma reação política negativa internamente, em um momento em que faltam apenas três meses para as eleições de meio de mandato, disse Karzazi, acrescentando que a escalada da ação militar traz o risco de esgotar os estoques de munição e elevar os preços da energia e o custo de vida nos Estados Unidos.
Outras divergências são igualmente significativas. Jumaa Mohammed, professor de política na Universidade de Tikrit, no Iraque, observou que, na questão nuclear, os Estados Unidos exigem o desmantelamento completo das instalações de enriquecimento de urânio do Irã, enquanto o país está disposto apenas a congelar as atividades de enriquecimento em troca do alívio das sanções.
Quanto à influência regional, Washington insiste que Teerã cesse o apoio aos seus aliados, os Houthis do Iêmen, o Hezbollah do Líbano e as milícias xiitas no Iraque, enquanto o Irã não está disposto a abrir mão de sua influência na região, disse Mohammed.
A pressão de linhas-duras de ambos os lados, somada ao papel de Israel como fator que dificulta os acordos, reduz ainda mais qualquer margem para um compromisso, observou ele.

Foto tirada com um celular mostra navios mercantes parados nas águas do Estreito de Ormuz, perto de Khasab, uma pequena cidade no norte de Omã, em 29 de maio de 2026. (Xinhua/Wen Xinnian)
UMA GUERRA SEM FIM?
À medida que o conflito se prolonga, analistas destacam três cenários possíveis.
O mais provável é um impasse prolongado. Adel al-Ghurairi, professor da Universidade de Bagdá, disse que é pouco provável que o Irã abra mão de seu controle estratégico sobre o estreito, ao passo que os Estados Unidos podem preferir evitar retomar ataques em larga escala.
Em vez disso, Washington pode apostar na pressão econômica para subjugar Teerã, deixando ambos os lados em um impasse, sem qualquer avanço diplomático à vista, disse ele.
Uma segunda possibilidade é um acordo provisório limitado. Abdulaziz Alshaabani, pesquisador saudita do Centro Al Riyadh de Estudos Políticos e Estratégicos, sugeriu que ambos os lados, que ainda mantêm contato por meio de mediadores, têm interesse mútuo em evitar um conflito mais amplo.
Ele disse que as partes poderiam, primeiramente, chegar a um entendimento temporário sobre o estreito graças aos esforços diplomáticos de mediadores, antes de abordar outras questões complexas.
O terceiro cenário é um retorno à escalada aberta das tensões. O presidente dos EUA, Donald Trump, há muito ameaça atacar a infraestrutura energética do Irã e outras instalações vitais. Analistas alertam que esses ataques poderiam desencadear rapidamente um conflito militar em larga escala.
A recente nomeação, pelo Irã, de várias figuras da linha-dura para cargos militares estratégicos também é vista como uma medida para agilizar a tomada de decisões em tempo de guerra e preparar o país para uma possível escalada, disseram eles.











