Vidas salvas, vidas transformadas -- Médicos chineses marcam sua trajetória na África-Xinhua

Vidas salvas, vidas transformadas -- Médicos chineses marcam sua trajetória na África

2026-08-21 13:03:37丨portuguese.xinhuanet.com

* A cooperação médica entre a China e a África salva vidas ao mesmo tempo em que desenvolve a capacidade médica local.

* Seis décadas de cooperação promoveram uma forte confiança entre médicos chineses e comunidades africanas.

Por Chen Chen, Hua Hongli e Liu Jie

Nairóbi, 19 ago (Xinhua) -- Durante três anos, Seif Amour Rajab quase não conseguia abrir a boca.

Seif tinha 16 anos quando caiu de uma mangueira e fraturou a mandíbula. Na remota Ilha de Pemba, na Tanzânia, o hospital pouco podia fazer. A mandíbula foi gradualmente ficando travada. Comer virou um desafio, falar também. O adolescente, antes ativo, se isolou no silêncio.

Foi apenas em dezembro passado, após uma cirurgia de quatro horas realizada por médicos chineses, que Seif finalmente conseguiu movimentar a boca e voltar a falar com facilidade. "Obrigado, médicos chineses!", disse ele.

Os cirurgiões que trataram Seif integram uma missão que já atravessa sua sétima década. Desde que a China enviou sua primeira equipe médica ao exterior em 1963, para a Argélia, cerca de 30.000 profissionais de saúde chineses atuaram em 76 países e regiões, tratando aproximadamente 290 milhões de pacientes, a maioria na África.

A cooperação continua em expansão. No âmbito do Plano de Ação de Beijing do Fórum de Cooperação China-África (2025-2027), a China planeja enviar 2.000 profissionais de saúde e especialistas em saúde pública para a África, construir centros conjuntos de medicina convencional e tradicional, e apoiar o desenvolvimento da sede do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (CDC África) e de seus centros sub-regionais.

VIDAS DEVOLVIDAS

Em janeiro do ano passado, cinco crianças com idades entre três e sete anos foram submetidas a cirurgias cardíacas para correção de cardiopatias congênitas no Instituto Cardíaco Jakaya Kikwete, construído pela China em Dar es Salã, na Tanzânia. Os procedimentos foram realizados com uma técnica minimamente invasiva pioneira dos médicos chineses, dispensando a necessidade de cirurgia de peito aberto ou exposição à radiação. Quando Husna Shabaan Kingwande soube que a cirurgia de seu filho de três anos, Ikram, foi bem-sucedida, a jovem mãe chorou de alegria.

Em junho daquele ano, a equipe responsável por essas operações, a 27ª equipe médica chinesa na Tanzânia, perdeu seu líder. O anestesiologista Zhang Junqiao viu uma mulher se afogando em uma praia de Dar es Salã e mergulhou sem hesitar. Ele a manteve acima da água e deu a ela seu próprio colete salva-vidas. Ela conseguiu chegar em segurança à terra firme, mas Zhang não retornou.

Ao longo das seis décadas do programa, mais de 50 profissionais das equipes médicas chinesas no exterior morreram longe de sua terra natal, assim como Zhang.

Meio século atrás, Mei Gengnian, que liderou a primeira equipe médica da China na Etiópia, morreu em um acidente de trânsito ao retornar de uma missão de assistência após um desastre. Na cidade etíope de Jimma, uma família cuida de seu túmulo há duas gerações. Mais tarde, o filho de Mei também passou a integrar as equipes na Etiópia.

Pessoas se despedem do corpo de Zhang Junqiao, líder da 27ª equipe médica chinesa na Tanzânia e anestesiologista que perdeu a vida ao resgatar uma mulher que se afogava, no Hospital Nacional Muhimbili, em Dar es Salã, Tanzânia, em 20 de junho de 2025. (Xinhua)

HABILIDADES DEIXADAS COMO LEGADO

Os médicos chineses tratam pacientes e também capacitam profissionais locais. Desde 1963, as equipes médicas chinesas treinaram mais de 100.000 profissionais de saúde locais.

Em uma noite de novembro do ano passado, um menino de dois anos foi levado às pressas ao Hospital Abdulla Mzee, na Ilha de Pemba, após ter engolido uma moeda mais de 48 horas antes.

Emergências como essa costumavam exigir a transferência do paciente para fora da ilha ou a espera pela visita de especialistas. Naquela noite, o médico local Harun Maisara Mahkum realizou pela primeira vez a extração da moeda, sob a orientação de He Zhilong, um otorrinolaringologista da 35ª equipe médica chinesa.

"Eu estava nervoso", relembrou Mahkum. "Mas o Dr. He confiou em mim para liderar o procedimento".

Mahkum, hoje com 30 anos, trabalha ao lado de equipes médicas chinesas há oito anos. "Antes da chegada dos médicos chineses, não realizávamos cirurgias como essa por conta própria. Dependíamos de especialistas de fora", disse ele. "Agora, posso agir imediatamente em emergências. Isso nos capacita e muda a forma como atendemos a comunidade".

Em Dar es Salã, uma sessão de treinamento sobre a tecnologia utilizada na cirurgia cardíaca de Ikram reuniu cerca de 50 cardiologistas tanzanianos. Em um país onde aproximadamente um em cada 100 recém-nascidos apresenta cardiopatia congênita, essa é uma tecnologia que pode salvar vidas, disse o pediatra tanzaniano Theophylly Ludovick.

Esse tipo de capacitação agora se estende por todo o continente. Em 27 de julho, foi lançada em Adis Abeba a parceria China-África em medicina minimamente invasiva, ocasião em que foram inaugurados centros etíopes de treinamento em cirurgia assistida por robô e técnicas laparoscópicas.

"Estes dois centros de treinamento são apenas um ponto de partida", disse Liu Longfei, vice-presidente do Hospital Xiangya da Universidade Central do Sul, instituição que lidera o programa.

Foto tirada com celular mostra o cirurgião de coluna chinês Zhou Chao (direita) e uma médica local realizando uma cirurgia em um paciente tanzaniano no Hospital de Referência Zonal de Mbeya, em Mbeya, Tanzânia, em 15 de junho de 2026. (28ª equipe médica chinesa na Tanzânia/Divulgação via Xinhua)

CORAÇÕES UNIDOS

Ao longo de décadas de trabalho lado a lado, a confiança cresceu entre as equipes médicas e as comunidades.

Em Afanoya, uma aldeia nos arredores de Yaoundé, capital de Camarões, Marceline Mbo e seus dois filhos já estavam sentados fora do centro de saúde às seis da manhã. Ela foi a uma clínica gratuita administrada pela equipe médica chinesa para tratar sua dor de dente e seu problema de visão e a malária de seus filhos. Ao amanhecer, a fila atrás dela já estava longa.

Essa foi uma das quase 200 clínicas gratuitas realizadas por equipes médicas chinesas em Camarões desde 1975. Ao longo de mais de 50 anos, 24 equipes trataram mais de 3,3 milhões de pacientes no país.

Para alguns, o atendimento significou uma vida devolvida. Liliane Mfoumou, 72 anos, sofria de dores nas costas há anos até que um acupunturista chinês a tratou durante uma visita à sua aldeia. "Hoje, vou à fazenda regularmente e faço outras atividades. Não sinto dor", disse ela.

Em Dacar, Senegal, funcionários da 21ª equipe médica chinesa passaram um dia de folga em um orfanato, onde uma sala de aula se transformou em clínica. Lá, 84 crianças de 2 a 14 anos foram atendidas por diversos especialistas e cada uma saiu com sua própria ficha de saúde.

"A consulta de hoje não é a única", disse o chefe da equipe, Lan Jinkai. "Continuaremos acompanhando a saúde das crianças".

"Isso nos ajuda a saber se as crianças têm problemas de saúde desconhecidos", disse Fatou Ba, que trabalha no orfanato.

Hospitais chineses e africanos formaram dezenas de parcerias e construíram em conjunto mais de 20 importantes centros especializados, enquanto campanhas de clínicas gratuitas, como a "Jornada Brilhante" para catarata, beneficiaram centenas de milhares de pacientes.

"A China não apenas dá, ela compartilha. Ela não dita, ela propõe. Ela não se impõe, ela coopera", disse o ministro da Saúde camaronês, Manaouda Malachie.

Seif, agora com 20 anos, recuperou a confiança. "Ele tem talento para jogar futebol, esporte que agora volta a apreciar", disse seu tutor, Mohamed, aliviado, enquanto o observava correr pelo campo.

(Repórteres de vídeo: Bao Jiayi, Hua Hongli, Lin Guangyao, Liu Jie, Dai he, You Huiyuan, Chen Chen, Wang Ze, Si Yuan e Zhang Jian; edição de vídeo: Yang Zeyi, Zhu Cong, Hong Yan e Wang Han)

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