Entenda por que o Yasukuni é um santuário para criminosos de guerra japoneses-Xinhua

Entenda por que o Yasukuni é um santuário para criminosos de guerra japoneses

2026-08-21 13:04:13丨portuguese.xinhuanet.com

Cerca de 90 legisladores japoneses de diversos partidos visitam o Santuário Yasukuni, em Tóquio, em 21 de abril de 2017. (Xinhua/Ma Ping)

Beijing, 19 ago (Xinhua) -- Quase todos os anos, em 15 de agosto, data que marca a rendição incondicional do Japão na Segunda Guerra Mundial, o notório Santuário Yasukuni, em Tóquio, se torna palco de ações de políticos japoneses que, previsivelmente, despertam a indignação em toda a Ásia e além.

Este ano não foi a exceção. O ministro da Defesa do Japão, Shinjiro Koizumi, e outros políticos visitaram o santuário, enquanto a primeira-ministra Sanae Takaichi optou por fazer uma reverência à distância e oferecer uma contribuição em dinheiro, um ritual que se tornou quase rotineiro ao longo dos anos.

Como era esperado, as visitas provocaram condenação imediata por parte dos países vizinhos. O Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Sul lamentou os "atos anacrônicos recorrentes", enquanto sua contraparte chinesa disse que visitar o "santuário de criminosos de guerra" constitui "uma afronta à justiça histórica, um desafio às normas fundamentais da civilização e uma provocação contra a ordem internacional do pós-guerra".

O que torna Yasukuni um lugar tão condenável? Por que ele é tão detestado pelos países vizinhos? E que vínculos ele mantém com o militarismo japonês?

QUEM SÃO OS HOMENAGEADOS?

Em meio às turbulências da Restauração Meiji, iniciada em 1868, o Santuário Yasukuni foi construído inicialmente por ordem do Imperador Meiji para homenagear aqueles que morreram na guerra civil que abriu caminho para a modernização e o militarismo do Japão.

Originalmente chamado de Shokonsha e dedicado aos espíritos dos mortos em combate, o santuário foi posteriormente renomeado como Yasukuni, termo que significa "preservar a paz para toda a nação".

Hoje, Yasukuni se apresenta como um "santuário da paz" e consagra 2,47 milhões de "divindades" que, segundo o local, "sacrificaram suas vidas ao cumprir o dever público de proteger a pátria". Vale destacar que 2,13 milhões de pessoas contribuíram para a agressão do Japão na Segunda Guerra Mundial.

Segundo o próprio relato do santuário, independentemente de sua patente, status social ou papel histórico, todos são homenageados de forma igualitária e "venerados como divindades respeitáveis".

No entanto, entre essas "divindades", escondem-se 14 criminosos de guerra da Classe A da Segunda Guerra Mundial, todos condenados nos Julgamentos de Crimes de Guerra de Tóquio a penas que variavam da morte à prisão, incluindo sete que foram executados, cinco que morreram enquanto cumpriam suas penas e dois que faleceram antes do julgamento final.

Os criminosos de guerra foram consagrados secretamente no Santuário Yasukuni em 1978. O ato foi realizado sem divulgação pública e permaneceu oculto até 19 de abril de 1979, quando grandes jornais finalmente trouxeram o fato a público.

Somados aos condenados das Classe B e C, o Yasukuni homenageia, ao todo, mais de 1.000 criminosos de guerra, responsáveis ​​por algumas das atrocidades mais hediondas cometidas na região da Ásia-Pacífico.

Ainda assim, em consonância com a posição do governo japonês, o Yasukuni se recusa a classificá-los como criminosos perante a legislação nacional.

Pessoas se reúnem em frente ao prédio do Parlamento em Tóquio, Japão, em 19 de abril de 2026, para protestar contra as tentativas do governo da primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi de revisar a constituição pacifista do país e para exigir a preservação do Artigo 9. (Xinhua/Jia Haocheng)

O QUE ELES FIZERAM?

Hideki Tojo, primeiro-ministro do Japão durante a Segunda Guerra Mundial, figura entre os 14 criminosos de guerra da Classe A. Foi sob sua liderança que o Japão iniciou sua agressão, resultando na morte brutal de milhões de pessoas em toda a região da Ásia-Pacífico.

O conflito logo se alastrou por grande parte do Leste e Sudeste Asiático, chegando até a Índia, então sob domínio britânico. Nesses territórios ocupados, militaristas japoneses perpetraram massacres em larga escala, impuseram trabalhos forçados e causaram devastação generalizada.

Dos 14 criminosos de guerra da Classe A consagrados no Yasukuni, 13 estiveram diretamente envolvidos na guerra de agressão do Japão contra a China ou tiveram responsabilidade direta na formulação e implementação das políticas de invasão.

Entre eles estava Iwane Matsui, que ordenou o Massacre de Nanjing em dezembro de 1937, uma das atrocidades mais brutais da história da China. Ao longo de várias semanas, soldados japoneses cumpriram as suas ordens e massacraram mais de 300.000 civis e soldados desarmados, fuzilados, esfaqueados, enterrados vivos ou afogados. Além disso, mais de 20.000 mulheres foram estupradas. As tropas japonesas saquearam e incendiaram a cidade, destruindo mais de um terço das edificações.

Segundo a sentença do Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, os militares japoneses perpetraram mais de 100 massacres em larga escala em locais como Malásia, Indonésia, Mianmar e Tailândia, muitos deles comandados por criminosos de guerra de Classe A.

Nas Filipinas, Akira Muto supervisionou o Massacre de Manila, no qual cerca de 100.000 civis filipinos foram mortos. Paralelamente, Heitaro Kimura, apelidado de "Açougueiro da Birmânia", comandou a construção da "Ferrovia da Morte", ligando a Tailândia à Birmânia, erguida por trabalhadores forçados de Mianmar, da Malásia e da Austrália, que resultou na morte de cerca de 100.000 pessoas.

As atrocidades cometidas pelas "divindades veneráveis" consagradas em Yasukuni vão muito além do campo de batalha, incluindo a imposição forçada do ensino da língua japonesa nos territórios ocupados, a escravização sexual de mulheres e meninas, a guerra biológica e as experiências com seres humanos realizadas pela Unidade 731... e a lista continua.

Pessoas com cartazes protestam em frente ao prédio da Dieta Nacional em Tóquio, Japão, em 10 de julho de 2026. (Xinhua/Yue Chenxing)

POR QUE AS VISITAS PROVOCAM INDIGNAÇÃO?

O revisionismo histórico e a persistente tentativa de amenizar ou ocultar a culpa do Japão na guerra estão personificados no santuário. É por isso que qualquer visita política desencadeia imediata indignação na região.

Dentro do museu Yushukan, o passado bélico do Japão é apresentado de forma deliberadamente higienizada: a conquista imperial é retratada como uma libertação da Ásia, e as atrocidades são sistematicamente minimizadas ou ignoradas. O Massacre de Nanjing é reduzido a uma breve menção sobre o julgamento de "soldados chineses disfarçados com roupas civis". A Ferrovia Tailândia-Birmânia, marcada por inúmeras mortes, é celebrada apenas por sua utilidade na engenharia.

Para os vizinhos do Japão, Yasukuni representa um trauma histórico não cicatrizado, um monumento ao revisionismo histórico e um símbolo espiritual do militarismo japonês.

No entanto, Sanae Takaichi disse, em um livro recente de entrevistas, que o problema do Japão não são as atrocidades cometidas, mas sim o fato de ter perdido a guerra.

"Se o Japão tivesse vencido a guerra, provavelmente não seria culpado por ninguém hoje, e aqueles que iniciaram o conflito seriam heróis", disse a primeira-ministra. "Quando os vencedores julgam os vencidos, é criada uma miséria duradoura, fruto da derrota e das adversidades para as gerações futuras. Contudo, acredito que é errado o povo japonês pedir desculpas incessantemente apenas por ter nascido japonês".

Takaichi, uma nacionalista de linha-dura e frequentadora assídua do Santuário Yasukuni, nega há muito tempo crimes de guerra japoneses amplamente documentados, incluindo o Massacre de Nanjing e o recrutamento forçado de "mulheres de conforto" e trabalhadores braçais.

Apesar da forte oposição da direita, Haruki Murakami, escritor japonês de renome mundial, continua sendo um crítico declarado das tentativas de ocultar ou amenizar a história.

Fazendo referência explícita ao Massacre de Nanjing em seu romance, ele argumentou que distorcer a história apenas alimenta o próprio sofrimento, defendendo que o Japão deve "continuar pedindo desculpas até que os países oprimidos as aceitem".

Especialistas ressaltaram que, mesmo 81 anos após sua derrota na Segunda Guerra Mundial, o Japão não respondeu a questões fundamentais sobre sua agressão e responsabilidade, revelando falta de remorso e uma compreensão distorcida da história.

Frank Schumann, editor e escritor alemão, disse à Xinhua que, enquanto a Alemanha confiscou os bens de autoridades nazistas e criminosos de guerra, removeu "vestígios nazistas" dos sistemas educacional e judiciário e introduziu uma educação antifascista, o Japão ainda reverencia criminosos de guerra de Classe A e se refere às atrocidades cometidas contra o povo chinês como "incidentes".

"O Japão não refletiu verdadeiramente sobre sua história de agressão até hoje", disse Schumann.

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