Beijing, 22 ago (Xinhua) -- O Team Brazil, formado por integrantes de cinco universidades brasileiras, está em Beijing para representar o país nos Jogos Mundiais de Robôs Humanoides (WHRG) 2026, que serão realizados de 22 a 26 de agosto com 666 equipes de 16 países.
ALGORITMOS BRASILEIROS GANHAM VIDA
No Oval Nacional de Patinação de Velocidade, o "Ice Ribbon", construído para os Jogos Olímpicos de Inverno de Beijing, vários robôs humanoides de porte adulto disputam a bola em uma área de treino semienterrada. Eles se posicionam, procuram a bola, avançam e chutam de forma autônoma.
À beira do campo, a brasileira Isabela Moura, de 21 anos, sentada diante do Game Controller, testa os robôs da equipe. Ao comando de "Stop", cessa de imediato o barulho metálico dos passos, e todos os robôs ficam completamente imóveis.
Moura é de Pernambuco, no nordeste do Brasil, e entrou há cerca de um ano e meio para a RoboCIn, equipe de robótica da Universidade Federal de Pernambuco. Em julho, fez sua primeira viagem ao exterior para participar da RoboCup, na República da Coreia, antes de seguir para Beijing.
"É uma experiência muito legal", disse ela. Em Beijing, teve contato com tecnologias pouco presentes em seu dia a dia.
No ano passado, a RoboFEI foi a única representante do Brasil e terminou em quinto lugar. Neste ano, integrantes de cinco universidades brasileiras que trabalham com robôs humanoides juntaram forças para formar o Team Brazil, que representa o país no futebol 5 contra 5.
"Este ano, decidimos reunir as equipes que trabalham com robôs humanoides", disse ela. Os integrantes passaram então a combinar algoritmos, estratégias de jogo e experiências de pesquisa desenvolvidos em diferentes universidades.
A preparação se estende da manhã à noite, entre treinos, testes e ajustes de código nos robôs da chinesa Booster Robotics, usados por todas as equipes na competição.
Para Moura, o mais emocionante é ver seus algoritmos ganharem vida nos robôs humanoides chineses.
Moura admitiu que o desenvolvimento de um robô do zero exigiria muito tempo dedicado a hardware, comunicação e sistemas embarcados. Com uma plataforma chinesa pronta, a equipe pode se concentrar mais em software, inteligência artificial e estratégia.
A chegada de robôs humanoides chineses a laboratórios de universidades brasileiras tem despertado grande interesse. Segundo ela, quando os robôs chineses funcionam no laboratório, outros estudantes param para observar, tirar fotos e gravar vídeos, e alguns acabam se interessando pela área.
"Ver o que desenvolvemos ao longo de um ano funcionando é extremamente gratificante", disse.
INTERCÂMBIOS CRUZAM FRONTEIRAS EM BEIJING
"Há competição aqui, mas não é apenas a competição que nos traz até aqui", disse João Aguiar, integrante do Team Brazil, formado pelo Centro Universitário FEI, que também participou da competição no ano passado.
Na véspera da entrevista, a equipe brasileira disputou um amistoso com a equipe italiana. Após a partida, as duas equipes conversaram sobre diferentes soluções adotadas para os chutes e o posicionamento dos robôs em campo.
"A gente conversa sobre o que cada equipe faz de diferente", disse Aguiar. "Com esse tipo de troca, todas as equipes conseguem evoluir."
Com as equipes chinesas, a troca avançou para a colaboração técnica. A equipe da Universidade Tsinghua participou do desenvolvimento de parte do código do Team Brazil, enquanto a Universidade Agrícola da China deu apoio em áreas como estratégia de jogo.
Esses vínculos continuaram mesmo após o fim da competição do ano passado. "A gente mantém contato, troca ideias sobre o que anda fazendo e também sobre questões de manutenção", disse Aguiar, ao lembrar os contatos estabelecidos com equipes chinesas em Beijing no ano passado.
Foi também nessa viagem que Aguiar teve seu primeiro contato de perto com robôs humanoides desenvolvidos por equipes chinesas, o que mudou sua percepção sobre o avanço da robótica humanoide na China.
"O nível de desenvolvimento nos últimos três ou quatro anos é impressionante. Você vê o quanto os robôs conseguem ser robustos, rápidos e inteligentes em diferentes cenários, como logística, indústria ou farmácia", manifestou.
Segundo ele, Beijing reúne equipes chinesas e estrangeiras em setores onde podem desenvolver, treinar e testar robôs, além de trocar experiências e comparar soluções técnicas. A competição, assim, também funciona como plataforma de pesquisa, desenvolvimento e intercâmbio internacional.
Beijing também vem conectando as competições de robótica à infraestrutura de pesquisa e desenvolvimento. Neste ano, autoridades anunciaram a construção de uma base de treinamento e avaliação de robôs humanoides, que oferecerá às equipes espaços permanentes para desenvolvimento e testes.
"Beijing tem se tornado um polo de robótica humanoide nos últimos dois anos", disse.
ROBÔS CHINESES ABREM CAMINHO PARA COOPERAÇÃO
Flávio Tonidandel, técnico do Team Brazil e diretor da Socialdroids Robotics, destaca o esforço da China para levar robôs humanoides a tarefas cada vez mais complexas e práticas, algo que, segundo ele, o país "está fazendo muito bem".
"Eu tenho certeza de que hoje a China lidera o desenvolvimento dos robôs humanoides em nível mundial", afirmou Tonidandel. Para ele, competições como os WHRG ajudam a testar até que ponto essas máquinas podem responder a necessidades reais da sociedade.
Essa orientação também aparece nos WHRG deste ano. Além das provas competitivas, como futebol e atletismo, o evento conta com 21 provas baseadas em cenários, que cobrem nove tipos de demandas reais, como serviços domésticos e de hotelaria, produção industrial e resposta a emergências.
A China tem promovido o desenvolvimento de novas forças produtivas de qualidade. Em 2025, o país tinha mais de 140 fabricantes de robôs humanoides, que lançaram mais de 330 modelos. Segundo o Ministério da Indústria e Informatização, os robôs humanoides estão acelerando sua transição dos palcos e arenas para residências e fábricas.
Tonidandel atribui o rápido avanço da robótica humanoide na China a três fatores principais: políticas claras de apoio, competições como esta e a entrada constante de novos talentos.
"Você vê estudantes universitários, pesquisadores e engenheiros já formados realmente envolvidos no desenvolvimento desses robôs", disse.
Com a ampliação das aplicações dos robôs humanoides, Tonidandel também vê espaço para uma participação maior do Brasil.
"A sociedade brasileira tem alguns problemas que a sociedade chinesa não tem, e vice-versa. Os algoritmos que desenvolvemos no Brasil precisam ser ajustados para os problemas locais do Brasil."
Para ele, a cooperação permitiria aos pesquisadores brasileiros ter contato com tecnologias avançadas e, ao mesmo tempo, contribuir para que robôs chineses sejam adaptados a diferentes necessidades e mercados.
"Essa colaboração é muito importante para os dois lados. No fim, os robôs humanoides serão usados no mundo inteiro", disse.

