
Uma tela exibe a dívida pública dos EUA ultrapassando 40 trilhões de dólares americanos, em Nova York, Estados Unidos. (Xinhua/Zhang Fengguo)
* A dívida total do governo federal dos EUA atingiu novamente um recorde histórico, ultrapassando 40 trilhões de dólares americanos na quarta-feira.
* No século 21, a dívida federal se transformou em uma ferramenta de financiamento rotineira, desencadeando um efeito "bola de neve” no endividamento.
* O mais recente Relatório de Estabilidade Financeira Global do FMI alerta que a crescente fragilidade no mercado de títulos do Tesouro dos EUA pode amplificar a propagação de riscos entre diferentes mercados.
Beijing, 20 ago (Xinhua) -- A dívida total do governo federal dos EUA atingiu novamente um recorde histórico, ultrapassando 40 trilhões de dólares americanos na quarta-feira.
Dados recentes do Departamento do Tesouro dos EUA mostraram que o novo recorde de dívida, de 40,047 trilhões de dólares, supera em quase 10 trilhões de dólares o Produto Interno Bruto (PIB) do ano passado, o que equivale a aproximadamente 116.480 de dólares de dívida federal por habitante dos EUA.
Como os Estados Unidos possuem o maior mercado de dívida soberana do mundo, o crescimento desenfreado de sua dívida não apenas expõe problemas fiscais estruturais profundos internamente, mas também exporta riscos por meio do sistema financeiro baseado no dólar, representando uma ameaça constante à estabilidade financeira global e à recuperação econômica.
Como a dívida dos EUA disparou para esse nível recorde? Qual é a situação fiscal crítica? E de que maneira essa situação eleva os riscos financeiros globais?
BOLA DE NEVE DA DÍVIDA
"A escala do endividamento dos EUA se expandiu exponencialmente e atingiu um nível quase incompreensível ao longo de dois séculos e meio”, disse um artigo on-line da revista americana Newsweek.
A dívida pública dos EUA, segundo os registros do Departamento do Tesouro, começou em modestos 71 milhões de dólares no final do século 18, mais de uma década após a independência do país em 1776.
Ela atingiu a marca de 1 trilhão de dólares em cerca de 200 anos, e a de 10 trilhões de dólares nos aproximadamente 27 anos seguintes. Depois disso, a dívida dos EUA saltou para 30 trilhões de dólares em apenas 14 anos, e para mais de 40 trilhões de dólares nos quatro anos subsequentes.

Pessoas passam pelo Capitólio dos EUA em Washington, D.C., em 19 de janeiro de 2025. (Xinhua/Wu Xiaoling)
A história revela um ritmo acelerado de crescimento da dívida dos EUA ao longo do último meio século.
No século 20, a dívida pública se tornou uma ferramenta fundamental da política fiscal federal e um instrumento essencial para responder a grandes crises. Em 1981, sob a administração do presidente Ronald Reagan, ela ultrapassou a marca de 1 trilhão de dólares.
No século 21, a dívida federal se transformou em uma ferramenta de financiamento rotineira, desencadeando um efeito bola de neve no endividamento.
Nos últimos anos, apesar da ausência de qualquer grande crise ou perturbação, o aumento anual da dívida dos EUA manteve um ritmo superior a 2 trilhões de dólares, o dobro da taxa de expansão econômica. Isso demonstra um efeito bola de neve cada vez mais intenso, ocorrendo sob uma estrutura fiscal que ainda precisa de mecanismos automáticos para frear esse ímpeto.
PROBLEMAS FISCAIS
"A maior ameaça ao nosso futuro está escondida à vista de todos”, alertou um comentário recente no canal americano de notícias Fox News. O texto apontou que a crescente dívida federal é o maior perigo oculto: com a dívida aumentando ano após ano, Washington ainda não apresentou soluções substanciais.
A marca de 40 trilhões de dólares não é apenas um número. Ela sinaliza uma deterioração significativa na sustentabilidade fiscal dos EUA, indicando o agravamento de crises fiscais estruturais e o acúmulo contínuo de múltiplos riscos.
Primeiro, o nível persistentemente elevado de endividamento enfraqueceu a resiliência fiscal. À medida que a dívida total dispara, a relação dívida/PIB do governo dos EUA permanece elevada, atingindo 123% no final do primeiro trimestre de 2026, muito acima do nível de alerta de 60% reconhecido internacionalmente.
O peso crescente da dívida continua restringindo a disponibilidade de recursos fiscais, deixando o governo com uma flexibilidade fiscal cada vez menor para apoiar setores industriais, investir no bem-estar público e financiar o desenvolvimento de infraestrutura.
Kenneth Rogoff, professor da Universidade de Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), disse em entrevista recente ao jornal japonês Asahi Shimbun que a disparada da dívida, a alta das taxas de juros e o impasse político minaram a resiliência da economia dos EUA, fatores que constituem sinais de alerta típicos de um país que caminha para uma crise da dívida.

Uma cliente faz compras em uma loja em Nova York, nos Estados Unidos, em 12 de agosto de 2026. (Xinhua/Zhang Fengguo)
Em segundo lugar, os enormes pagamentos de juros estão pressionando os orçamentos públicos e agravando os desequilíbrios fiscais. Nos níveis atuais de endividamento, os custos anuais com juros atingiram patamares recordes, desviando vultosas quantias de recursos públicos e fazendo com que o sistema fiscal dos EUA passe a se concentrar, gradualmente, em grande parte no pagamento da própria dívida.
Segundo a revista americana Fortune, os pagamentos de juros dos EUA no primeiro semestre do ano fiscal de 2026 totalizaram 529 bilhões de dólares, ou mais de 88 bilhões de dólares por mês, montante equivalente aos gastos combinados com defesa e educação. Isso deixa o governo com muito menos margem para alocar gastos públicos discricionários.
Em terceiro lugar, a emissão prolongada e desordenada de dívida está corroendo a confiança do mercado, ofuscando a tradicional aura de "ativo livre de risco” dos títulos do Tesouro dos EUA. Amparada pela hegemonia do dólar, a dívida dos EUA tem sido, há muito tempo, um importante ativo global de refúgio seguro. No entanto, o endividamento incessante levantou dúvidas entre investidores globais quanto à sua capacidade de crédito a longo prazo.
Instituições soberanas ao redor do mundo continuam ajustando a alocação de suas reservas cambiais, reduzindo suas participações em títulos do Tesouro dos EUA e aumentando a alocação em ouro e outros ativos diversificados. Como resultado, o prêmio de refúgio seguro global dos títulos do Tesouro dos EUA continuou diminuindo, o que aumentou significativamente a vulnerabilidade do mercado.
Dados do Banco Central Europeu mostram que, até o final de 2025, a participação dos títulos do Tesouro dos EUA nos ativos de reserva oficiais globais caiu por dois anos consecutivos, recuando 4 pontos percentuais em relação ao final de 2023.
CUSTO GLOBAL
Como âncora para a precificação financeira global e um barômetro fundamental dos fluxos de capital transfronteiriços, a carga da dívida de 40 trilhões de dólares dos EUA pode transmitir riscos globalmente por meio de canais que incluem custos de financiamento mais elevados, perturbações nos movimentos de capital transfronteiriços e redução da liquidez do mercado, desencadeando efeitos de transbordamento negativos, prolongados e generalizados.

Foto tirada em 20 de janeiro de 2023 mostra o Departamento do Tesouro dos EUA em Washington, D.C., Estados Unidos. (Xinhua/Liu Jie)
A enorme oferta de dívida dos EUA eleva as taxas globais livres de risco, sufocando a recuperação. Com Washington continuando a contrair empréstimos vultosos para cobrir déficits fiscais, as crescentes preocupações com a sustentabilidade de sua enorme carga de dívida estão impulsionando os prêmios de risco e elevando constantemente os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA a longo prazo.
Como referência para a precificação de ativos globais, rendimentos mais altos dos títulos do Tesouro dos EUA elevam os custos de empréstimo para títulos soberanos, dívidas corporativas em dólar e crédito ao consumidor em todo o mundo. Mercados emergentes enfrentam cargas mais pesadas de dívida em moeda estrangeira, enquanto os custos globais de investimento e financiamento corporativo aumentam, freando a expansão industrial, o investimento transfronteiriço e a demanda por crédito ao consumidor.
A alta dos rendimentos de longo prazo atrai recursos para ativos em dólar, intensificando a volatilidade global de capitais e moedas. Os títulos do Tesouro dos EUA, com seus rendimentos elevados, continuam atraindo fundos globais de volta aos Estados Unidos, provocando saídas de capital em larga escala dos mercados de ações e títulos de países emergentes.
Dados da agência de notícias britânica Reuters e da americana Bloomberg mostram que, à medida que a dívida dos EUA se aproxima da marca de 40 trilhões de dólares, os rendimentos dos títulos de longo prazo têm oscilado para cima, impulsionando mudanças frequentes e em grande escala nos fluxos de capital transfronteiriços e ampliando ainda mais a divergência entre os mercados financeiros das economias desenvolvidas e os dos mercados emergentes.
A expansão desordenada da dívida também distorce as estruturas do mercado de títulos, reduz a liquidez e aumenta os riscos sistêmicos globais. O mercado de títulos do Tesouro dos EUA, antes um pilar da estabilidade financeira global, enfrenta agora desequilíbrios entre oferta e demanda.
Sua estrutura de propriedade mudou fundamentalmente: investidores de longo prazo, como bancos centrais estrangeiros e fundos soberanos, estão reduzindo consistentemente suas participações, enquanto agentes alavancados de curto prazo, como fundos de cobertura, assumem o papel de principais compradores.
Como resultado, os títulos do Tesouro dos EUA, há muito considerados um fator de estabilização global, estão cada vez mais se tornando uma fonte de volatilidade no mercado. Qualquer alteração nos dados econômicos, na política monetária ou nas condições geopolíticas pode desencadear vendas concentradas, levando a movimentos bruscos nos rendimentos e a congelamentos repentinos de liquidez.
O mais recente Relatório de Estabilidade Financeira Global do FMI alerta que a crescente fragilidade no mercado de títulos do Tesouro dos EUA pode amplificar a propagação de riscos entre mercados, transformando choques financeiros localizados em perturbações globais e enfraquecendo progressivamente a capacidade de autocorreção do sistema financeiro internacional.
Observadores internacionais concordam, em grande parte, o peso da dívida de 40 trilhões de dólares dos EUA não é apenas uma questão fiscal restrita aos Estados Unidos, mas também se tornou uma fonte de riscos sistêmicos globais.
Os Estados Unidos utilizam a posição dominante do dólar para externalizar os custos de seus desequilíbrios fiscais, sobrecarregando a recuperação econômica global e continuando a minar a ordem financeira internacional vigente.
A longo prazo, as vulnerabilidades do sistema financeiro global e os desequilíbrios estruturais subjacentes continuarão se acumulando.







