Um visitante fotografa um veículo da BYD em exposição no Salão do Automóvel da Grande Área da Baía (GBA, na sigla em inglês) Guangdong-Hong Kong-Macau 2026 , em Shenzhen, na província de Guangdong, sul da China, em 29 de maio de 2026. (Xinhua/Liang Xu)
Por Julia Pierrepont III
Los Angeles, 24 ago (Xinhua) -- À medida que as montadoras americanas se concentram cada vez mais em veículos de preços mais elevados e maior lucratividade, um número crescente de americanos comuns deseja a entrada de veículos chineses de excelente custo-benefício no mercado para suprir essa lacuna.
"Sou mecânico automotivo", disse Juan Vega, morador de Los Angeles, à Xinhua em uma entrevista recente. "E os carros chineses oferecem um ótimo custo-benefício em comparação com os carros americanos. Nos EUA, dizemos que tudo gira em torno da concorrência de mercado, então, por que não posso comprar um carro chinês acessível se eu quiser?".
Esse sentimento está se tornando cada vez mais comum, pois carros fabricados na China por empresas como BYD e Geely podem custar o equivalente a apenas 10.000 a 20.000 dólares americanos, mas estão efetivamente excluídos do mercado de carros de passeio dos EUA devido a tarifas e outras restrições. Enquanto isso, os preços médios de transação de veículos novos no país subiram para a faixa de 49.000 a 50.000 dólares nos últimos anos. As prestações mensais típicas permaneceram elevadas, uma vez que taxas de juros altas, prêmios de seguro e custos de reparo aumentaram o peso financeiro.
Apesar de enfrentar tarifas elevadas, a Waymo, que opera serviços públicos comerciais de robotáxi em várias áreas metropolitanas dos EUA, importou mais de 3.200 minivans elétricas Zeekr, fabricadas na China, para os Estados Unidos desde 2024. No entanto, para milhões de americanos comuns, o mercado de carros novos está deixando de ser um espaço de livre comércio para se tornar algo semelhante a um condomínio fechado e exclusivo.
A estratégia de produtos das montadoras de Detroit mudou decisivamente para picapes, SUVs e modelos premium, pois esses veículos oferecem margens de lucro mais elevadas. A Ford praticamente abandonou os sedãs tradicionais no mercado dos EUA, enquanto a General Motors e a Stellantis apostaram fortemente em picapes, SUVs grandes e modelos de preços mais elevados, deixando muitos consumidores americanos com menos opções acessíveis.
Sam Fiorani, vice-presidente de Previsão Global de Veículos da AutoForecast Solutions, argumentou que as montadoras chinesas conseguiram produzir carros pequenos e médios a preços razoáveis que atraem os consumidores.
"O dirigir, a estabilidade, o conforto e a tecnologia de luxo eram excepcionais", disse o entusiasta de carros Ken Wheeler, 39 anos, que fez um test-drive em um veículo chinês durante um evento da Feira de Produtos Eletrônicos de Consumo (CES, na sigla em inglês). "E o preço... estou convencido!".
Com os custos dos carros tão elevados nos EUA, a Edmunds, uma empresa de pesquisa sobre compra de veículos, informou em uma pesquisa recente que 73% dos consumidores americanos adiaram a compra de um veículo devido aos preços altos. "As preocupações com a acessibilidade financeira entre os compradores de carros americanos não desaparecerão tão cedo", concluiu a empresa.
"Os preços dos carros nos EUA estão acabando com a gente", disse R. Clark, 39 anos, natural da Califórnia e funcionário de restaurante com salário modesto e uma família de três pessoas. "Preciso adiar novamente a compra de um carro novo este ano, mesmo que o meu atual passe metade do tempo na oficina".
Para trabalhadores que precisam de transporte confiável para chegar ao trabalho, à escola, a consultas médicas e a locais de assistência infantil, a perda do acesso a carros acessíveis pode ter consequências que vão muito além do orçamento doméstico.
No entanto, carros acessíveis da China permanecem praticamente fora do alcance dos consumidores americanos, em grande parte devido a tarifas elevadas e outras restrições comerciais e de segurança.
O resultado, segundo defensores do consumidor e alguns analistas do setor, é um conflito de políticas: Washington diz estar protegendo empregos americanos e a segurança nacional, enquanto muitas famílias enfrentam dificuldades com contas de carro mais altas e menos opções de transporte acessível.

Homem abastece um carro em um posto de gasolina em Nova York, Estados Unidos, em 12 de agosto de 2026. (Xinhua/Zhang Fengguo)
As montadoras chinesas fabricaram carros elétricos compactos que são vendidos no exterior a preços bem abaixo de muitas opções dos EUA e receberam elogios por sua eficiência, tecnologia e custo-benefício. Mesmo assim, a barreira tarifária impossibilita a concorrência direta no mercado dos EUA, impedindo testes de mercado. O problema se agravou desde que os Estados Unidos impuseram tarifas elevadas sobre veículos elétricos chineses.
As montadoras chinesas têm recorrido cada vez mais a celebridades internacionais para promover suas marcas. Leonardo DiCaprio se tornou embaixador da marca de veículos de nova energia da BYD na China em 2016, enquanto Daniel Craig apareceu mais recentemente em anúncios da Denza, a marca premium da BYD.
Opiniões da comunidade automotiva lançam luz sobre a questão.
Clint Simone, editor sênior de matérias especiais da Edmunds, disse à agência britânica de notícias Reuters que dirigiu vários veículos chineses na CES, no início deste ano, e ficou impressionado com a proposta de valor deles. "A tecnologia que eles oferecem por esses preços mais baixos era surpreendente", disse Simone.
Ben Nelmes, CEO da New Automotive, disse ao canal americano de notícias CBS News, no início deste ano: "A China está muito à frente do resto do mundo".
"Se eles estiverem dispostos a fabricar um carro bom que eu realmente possa pagar, e Detroit não está, então que venham", disse à Xinhua um homem de família que se identificou como Clark. "O governo deveria ajudar pessoas como nós, pressionando as montadoras americanas a oferecerem veículos dentro da nossa faixa de preço, ou então sair do caminho e deixar a China fazer isso".
No entanto, apesar de terem abandonado o mercado de sedãs de baixo custo, as montadoras de Detroit e seus aliados alertam que uma onda de veículos chineses baratos poderia prejudicar as fábricas, os fornecedores e as concessionárias dos EUA.
"Eles usaram aquele argumento batido contra os carros japoneses na década de 1970, e Detroit não quebrou naquela época, não é?", disse Vega à Xinhua.
Críticos dizem que esses argumentos antigos podem proteger acionistas, executivos e lobistas em detrimento dos consumidores americanos comuns. Eles argumentam que a política criou uma barreira de proteção em torno de empresas que preferem, cada vez mais, vender menos veículos, porém mais caros, em vez de competir agressivamente pela preferência de compradores preocupados com o orçamento.
As discussões políticas em Washington se concentram frequentemente na estratégia industrial, na rivalidade geopolítica e nos lucros das grandes fabricantes. Os formuladores de políticas podem acabar ignorando o quanto a acessibilidade dos meios de transporte impacta a vida dos americanos comuns. Uma medida que parece prudente sob a ótica da segurança nacional pode ser punitiva para um trabalhador que não tem condições de comprar os veículos que restam nos pátios das concessionárias.







