
Uma participante compete na final da 25ª edição do concurso de proficiência em língua chinesa "Ponte Chinesa" para estudantes universitários estrangeiros, no Cairo, Egito, em 15 de maio de 2026. (Xinhua/Zhang Haobo)
Por Abbas Sayed
Cairo, 28 ago (Xinhua) -- Os primeiros caracteres chineses que vi não significavam nada para mim.
Era 2002, e as aulas na Universidade Ain Shams, no Cairo, ainda não haviam começado. Entrei na biblioteca do Departamento de Chinês por pura curiosidade. Eu queria ver qual era a aparência, no papel, do idioma que estava prestes a estudar.
Vi fileiras de traços desconhecidos. Fiquei olhando para eles, com incerteza. Deveria mesmo escolher o chinês? Por fim, decidi tentar.
Eu não imaginava onde aquela decisão me levaria. Eu só sabia que queria aprender aquele idioma diferente e belo.
Durante meu primeiro ano, criei o hábito de falar chinês sempre que podia. Cheguei a conversar comigo mesmo em chinês, evitando o árabe tanto quanto possível. Meus professores me incentivaram, e desenvolvi um vínculo próximo com um professor chinês que passou apenas um ano no Egito.
Olhando para trás, percebo que estava gradualmente me apaixonando pelo idioma. Eu não pensava em emprego ou carreira. Simplesmente queria falar bem chinês e expressar meus pensamentos e sentimentos por meio dele.

Uma participante compete na final da 25ª edição do concurso de proficiência em língua chinesa "Ponte Chinesa" para estudantes universitários estrangeiros, no Cairo, Egito, em 15 de maio de 2026. (Xinhua/Zhang Haobo)
Com o tempo, descobri que o verdadeiro valor de um idioma vai muito além de garantir o sustento. Ele pode remodelar a maneira como você pensa e abrir caminho para outra cultura.
A língua chinesa fez exatamente isso por mim.
Sempre amei a antiga civilização egípcia. Após me formar, tornei-me guia de turismo porque queria apresentar o Egito a visitantes chineses no idioma deles. Mas meu trabalho também se tornou uma forma de eu aprender sobre a China.
Cada visitante chinês que conheci me ensinou algo novo. Por meio do turismo, da tradução e de conversas, aprendi com pessoas de várias idades e origens. Mais tarde, visitei a China mais de 10 vezes, viajando para cidades como Beijing, Shanghai e Urumqi.
Minha favorita é Shenzhen.
Quando visitei a cidade pela primeira vez, fiquei impressionado com sua abertura e a velocidade de seu desenvolvimento. Compreendi por que as pessoas a chamavam de "cidade dos milagres".
Mas o que mais me impressionou na China não foram apenas os edifícios, as estradas ou a infraestrutura. Além dessas mudanças visíveis, por meio de minhas viagens e conversas com as pessoas de lá, também me interessei pela forma como elas entendiam a vida, a felicidade e a cultura.

Uma participante compete na final da 25ª edição do concurso de proficiência em língua chinesa "Ponte Chinesa" para estudantes universitários estrangeiros, no Cairo, Egito, em 15 de maio de 2026. (Xinhua/Zhang Haobo)
Uma palavra que ficou marcada em mim é "harmonia".
Repetidas vezes, fui tocado pela receptividade que os chineses demonstravam aos visitantes estrangeiros. Eles eram amigáveis, respeitosos e dispostos a compreender o próximo. Acredito que esse espírito de harmonia está profundamente enraizado na cultura chinesa.
Meu trabalho como guia de turismo também me ensinou o verdadeiro significado do intercâmbio cultural.
Ainda me lembro de levar visitantes chineses ao aeroporto no final de suas viagens. Às vezes, ao nos despedirmos, lágrimas vinham aos meus olhos. Minha maior sensação de realização é vê-los deixar o Egito levando belas memórias do meu país e, por vezes, desejando ficar mais tempo.
É por isso que acredito que os guias de turismo são embaixadores no sentido mais verdadeiro da palavra. Representamos nosso país, mas também podemos nos tornar pontes entre as pessoas.
Mais tarde, também tive a oportunidade de ajudar a construir essa ponte no sentido inverso.
De 2010 a 2013, trabalhei no Centro Cultural da China no Cairo, onde mudei meu foco: deixei de apresentar o Egito aos visitantes chineses para apresentar a China aos egípcios. Eu sabia que muitos egípcios ainda tinham pouco conhecimento sobre a cultura chinesa.
Assim, ajudei a criar o que chamamos de "Casa Chinesa", um espaço de exposição que reunia elementos como os 12 animais do zodíaco chinês, exemplos da famosa arquitetura chinesa e fotografias do patrimônio cultural da China.
Eu não esperava que isso despertasse tanto interesse. Escolas da região começaram a trazer estudantes ao centro especificamente para visitar a Casa Chinesa.
Ver jovens egípcios descobrirem uma cultura sobre a qual sabiam pouco me fez perceber que a ponte que imaginei como guia turístico poderia assumir outra forma.

Público aplaude participantes na final da 25ª edição do concurso de proficiência em língua chinesa "Ponte Chinesa" para estudantes universitários estrangeiros, no Cairo, Egito, em 15 de maio de 2026. (Xinhua/Zhang Haobo)
Já se passaram mais de duas décadas desde que estive naquela biblioteca universitária, incapaz de decifrar um único caractere chinês. Hoje, esses caracteres estão entrelaçados no meu dia a dia. Às vezes, o chinês me vem aos lábios com tanta naturalidade que nem percebo que mudei de idioma.
Eles me levaram à China, a amizades e a uma cultura que passei a amar. Também me conduziram a uma missão que jamais imaginei quando entrei pela primeira vez naquela biblioteca: ajudar os egípcios a compreender a China e os chineses a compreender o Egito.
Talvez esse seja o maior presente que um idioma pode nos oferecer. Ele não nos ensina apenas a falar com alguém de outro país, mas abre uma janela para um outro mundo e ajuda a construir uma ponte entre civilizações.
Nota da edição: Abbas Sayed é guia de turismo egípcio, pesquisador da cultura chinesa e membro honorário da Associação de Amizade Egito-China.


