O que saber sobre a votação na Islândia a respeito da retomada das negociações de adesão à UE-Xinhua

O que saber sobre a votação na Islândia a respeito da retomada das negociações de adesão à UE

2026-08-30 12:28:01丨portuguese.xinhuanet.com

Foto tirada em 7 de fevereiro de 2026 mostra uma paisagem de inverno na Islândia. (Xinhua/Zhu Haochen)

Os islandeses irão às urnas no sábado para decidir se a nação insular nórdica deve retomar as negociações de adesão à UE, mais de uma década após a suspensão das conversas. Por que a questão retornou à pauta agora?

Reykjavik, 28 ago (Xinhua) -- Os islandeses irão às urnas no sábado para decidir se a nação insular nórdica deve retomar as negociações de adesão à União Europeia (UE), mais de uma década depois de as conversas terem sido suspensas.

O referendo ocorre em um momento em que a Islândia reavalia sua relação com a Europa, em meio a preocupações internas com a economia e à crescente incerteza geopolítica no Atlântico Norte.

No entanto, o resultado ainda é imprevisível.

Então, sobre o que exatamente os islandeses estão votando? Por que a questão da UE retornou agora? E o que significaria um voto "Sim" ou "Não"?

SOBRE O QUE EXATAMENTE A ISLÂNDIA ESTÁ VOTANDO?

O referendo nacional será realizado em 29 de agosto. Os eleitores serão questionados se a Islândia deve retomar as negociações de adesão à UE, com uma escolha simples entre "Sim" ou "Não". O parlamento da Islândia, o Althingi, aprovou o referendo no final de maio por 34 votos a oito, com 14 abstenções.

Será a primeira vez que os islandeses serão consultados diretamente nas urnas sobre se o país deve buscar negociações de adesão à UE.

Um voto "Sim" não significaria que a Islândia está entrando para o bloco. Em vez disso, daria ao governo um mandato para retomar as negociações e verificar quais termos a Islândia poderia obter.

Se as conversas eventualmente resultassem em um tratado de adesão, o acordo seria submetido aos islandeses em um segundo referendo. A primeira-ministra, Kristrún Frostadóttir, enfatizou que a Islândia não ingressaria na UE a menos que os eleitores dissessem "Sim" duas vezes.

A Islândia já é estreitamente integrada à UE. O país integra o Espaço Econômico Europeu (EEE) desde 1994 e é também membro do Espaço Schengen e da Associação Europeia de Livre Comércio. Por meio do EEE, participa do mercado único da UE e aplica uma parcela significativa da legislação do bloco, mas não tem direito a voto em muitas das regras que posteriormente implementa.

Foto tirada em 15 de março de 2025 mostra uma vista de Reykjavik, na Islândia. (Xinhua/Zhang Fan)

POR QUE A QUESTÃO DA UE VOLTOU À TONA AGORA?

A Islândia solicitou a adesão à UE em julho de 2009, depois que a crise financeira global devastou seu sistema bancário e enfraqueceu drasticamente a coroa islandesa. As negociações formais de adesão começaram em 2010.

O processo estagnou após as eleições de 2013, que levaram ao poder os partidos da Independência e Progressista, ambos eurocéticos. O governo da época suspendeu as conversas, deixando pendentes algumas das questões mais sensíveis, particularmente a pesca e a agricultura. Em 2015, o país informou à UE que não deveria mais ser considerado um candidato à adesão.

A questão retornou após uma nova mudança no cenário político. A coalizão formada em dezembro de 2024 pela Aliança Social-Democrata, pelo Partido da Reforma e pelo Partido do Povo se comprometeu a realizar um referendo sobre a continuidade das negociações de adesão à UE até 2027. Posteriormente, o parlamento marcou a votação para 29 de agosto.

Preocupações econômicas continuam sendo um fator importante por trás desse novo impulso. O acordo de coalizão de 2024 associou a promessa do referendo a uma revisão das opções cambiais da Islândia, ao passo que a inflação, as altas taxas de juros e as vulnerabilidades de uma economia pequena e aberta têm ocupado, há muito tempo, um lugar de destaque no debate do país sobre a Europa.

Lassi Heininen, especialista finlandês em geopolítica do Ártico, disse à Xinhua que o referendo é "impulsionado principalmente pela política interna da Islândia", incluindo considerações financeiras e políticas, assim como as dificuldades econômicas haviam contribuído para impulsionar a primeira tentativa de adesão do país.

No entanto, o cenário externo também mudou significativamente. Tobias Etzold, consultor sênior do Centro de Política Europeia, sediado em Bruxelas, disse que a crescente competição entre grandes potências no estrategicamente importante Atlântico Norte aumentou a incerteza para os Estados menores e deu novo fôlego ao debate islandês sobre a UE.

Etzold apontou para as "crescentes dúvidas sobre os EUA, considerados pouco confiáveis", o interesse declarado de Washington em "comprar" ou "tomar" a Groenlândia e as preocupações com uma OTAN enfraquecida.

Para a Islândia, membro da OTAN que não possui exército permanente, a incerteza quanto ao compromisso do presidente dos EUA, Donald Trump, com a segurança do país reforçou o argumento a favor de uma aproximação maior com a Europa, disse Etzold.

A ministra das Relações Exteriores da Islândia, Thorgerdur Katrin Gunnarsdóttir, também apontou para um cenário internacional mais protecionista, tarifas repentinas impostas pelos EUA e o uso crescente do comércio como ferramenta de política externa.

Foto de arquivo tirada em 4 de fevereiro de 2010 mostra bandeiras da Islândia e da União Europeia (UE) hasteadas em frente à sede da UE. (Xinhua/Wu Wei)

O REFERENDO PODE SER APROVADO? E O QUE ACONTECE DEPOIS?

A votação permanece muito acirrada, dificultando a previsão do resultado. Uma pesquisa do instituto Gallup divulgada na quinta-feira apontou 51,6% para o "Não" e 48,4% para o "Sim" entre os eleitores decididos, sendo a diferença estatisticamente insignificante. Um levantamento divulgado na terça-feira pelo instituto Maskina mostrou o cenário inverso, atribuindo 51,3% ao "Sim" e 48,7% ao "Não".

A pesca e a agricultura continuam entre as questões mais sensíveis no debate sobre o referendo. Os produtos de origem marinha representaram 38,9% das exportações de mercadorias da Islândia em 2025, enquanto as preocupações se concentram no controle dos recursos naturais, na segurança alimentar e em como as políticas comuns da UE poderiam afetar o setor pesqueiro e o setor agrícola, altamente protegido, da Islândia.

Ainda assim, Bruxelas sinalizou alguma margem para negociação. O Comissário da UE para Pesca e Oceanos, Costas Kadis, disse em abril que havia "definitivamente espaço para flexibilidade" na questão da pesca, ao passo que Marta Kos sugeriu que "soluções criativas" poderiam ser exploradas para a agricultura e a pesca islandesas.

Caso o "Sim" vença, o governo declarou que notificará a UE, formará uma equipe de negociação e buscará retomar as conversas.

As autoridades islandesas estimam que as negociações possam levar de um ano e meio a dois anos, enquanto a Comissária da UE para o Alargamento, Marta Kos, disse que elas poderiam ser concluídas em um ou dois anos, visto que a Islândia já aplica grande parte das normas da UE por meio do EEE.

O processo, no entanto, não seria simplesmente retomado de onde parou em 2013. Uma comissão parlamentar islandesa disse em maio que as posições de negociação relativas a todos os capítulos precisariam ser revistas após mais de uma década de mudanças, inclusive as que foram encerradas provisoriamente.

O resultado também poderia ter implicações além da Islândia. Steven Blockmans, vice-diretor do Centro Internacional de Defesa e Segurança, disse que um resultado positivo poderia manter o ímpeto do alargamento da UE e fortalecer a credibilidade geopolítica do bloco, enquanto uma rejeição poderia reforçar o ceticismo em relação ao alargamento.

Heininen disse à Xinhua que um voto pelo "Sim" poderia exercer "influências diretas" na política interna da Noruega e, possivelmente, da Groenlândia. Se o processo levasse, por fim, à adesão da Islândia à UE, segundo ele, a política nórdica e algumas questões de segurança regional se tornariam mais "europeizadas", ao passo que a UE ganharia maior peso nas questões e na cooperação relacionadas ao Ártico.

Se o "Não" vencer, o atual governo islandês disse que as negociações de adesão não serão retomadas, ao passo que a Islândia continuaria mantendo sua relação com a UE, em grande medida, por meio das estruturas do EEE e do Espaço Schengen.

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