
Foto tirada em 28 de agosto de 2026 mostra Kenneth Salmon segurando o livro "Surviving the Lisbon Maru" ("Sobrevivendo ao Lisbon Maru", em tradução livre) em Fleet, no Reino Unido. (Xinhua/Zhang Feng)
Por Yu Aicen e Zhang Feng
Londres, 5 set (Xinhua) -- "Da ilha, uma visão inesquecível surgiu diante de nossos olhos: até onde a vista alcançava, o oceano estava pontilhado de homens e destroços..."
Estas são as palavras de Andrew Salmon, um sargento da Artilharia Real Britânica que foi resgatado por pescadores chineses no incidente do Lisbon Maru. Há uma calma incomum em seu relato ao relembrar a provação que o colocou frente a frente com a morte.
Andrew desejava que seu relato fosse publicado. Ele queria contar a história de sua experiência angustiante e como sobreviveu com a ajuda de pescadores chineses. No entanto, ele não conseguiu realizar esse desejo antes de morrer, em 2000. Mais de duas décadas depois, seu filho, Kenneth Salmon, assumiu a tarefa e finalmente viu o manuscrito ser publicado este ano sob o título "Surviving the Lisbon Maru" ("Sobrevivendo ao Lisbon Maru", em tradução livre).
"Eu sempre me senti um pouco culpado por não ter feito algo com o manuscrito do meu pai", disse Kenneth em uma entrevista recente à Xinhua, descrevendo como se sentia antes de iniciar o projeto. "Eu sabia que o último desejo dele, por assim dizer, era que seu livro fosse publicado".
O manuscrito de Andrew confirma, em grande parte, o que já se sabe sobre o incidente catastrófico. Em outubro de 1942, o navio Lisbon Maru, requisitado pelos japoneses e transportando mais de 1.800 prisioneiros de guerra (POWs, na sigla em inglês) britânicos, foi torpedeado por um submarino dos EUA perto de Dongji, em Zhoushan, no leste da China. Enquanto o navio afundava, pescadores chineses locais vieram em socorro. Registros históricos mostram que 198 pescadores chineses ajudaram 384 prisioneiros de guerra a chegar a um local seguro.
Após escapar do navio que afundava, Andrew passou cerca de duas horas na água antes de se juntar a outro sobrevivente, "Ginger" Howell, em um pedaço de destroço flutuante. Eles acabaram sendo resgatados depois que Ginger, que falava o dialeto de Shanghai, chamou um pescador em um sampana.
"O pescador nos recolheu e nos levou para o lado oposto da ilha, onde nos deixou em uma pequena praia, felizmente, pois o lado mais próximo do Lisbon Maru era íngreme e rochoso", escreveu Andrew.
Ele descreveu em seguida a primeira noite dos sobreviventes após o incidente em uma ilha desabitada, onde eles "se amontoaram para se aquecer". Mais tarde, foram levados por um pescador a "uma ilha maior", onde receberam comida e roupas, que aceitaram com gratidão, antes de serem recapturados por soldados japoneses.
"Ele teve sorte de conseguir sair...", disse Kenneth. "E teve sorte de ser levado para terra firme, onde a comunidade de pescadores chineses lhe ofereceu comida, bebida, abrigo e, claro, calor, o que era muito importante".
Mas muitos outros não tiveram a mesma sorte. Um total de 843 prisioneiros de guerra morreu no incidente. Alguns afundaram com o navio, enquanto outros se afogaram ou foram mortos por soldados japoneses durante a fuga desesperada.
A decisão de finalmente concluir o livro inacabado de seu pai tomou forma em 2024, quando Kenneth se inspirou no lançamento do documentário "The Sinking of the Lisbon Maru" ("O Naufrágio do Lisbon Maru", em tradução livre) e foi incentivado pelas pessoas ao seu redor.
"Quando meu pai se aposentou, ele desejava fazer algo concreto para homenagear as pessoas envolvidas no episódio do Lisbon Maru, não apenas os prisioneiros de guerra, mas também os pescadores chineses que os resgataram".
Ele, por sua vez, "acabou cedendo a essa pressão" e começou a trabalhar nos manuscritos inacabados. Eles incluem não apenas os textos de Andrew, mas também relatos em primeira mão de outros sobreviventes com quem ele mantinha contato.
Kenneth concluiu o livro utilizando o manuscrito inacabado de seu pai, que, por sua vez, se baseava no diário de guerra de Andrew. Ele acredita que seu pai levava o diário consigo quando escapou do Lisbon Maru, permitindo que suas páginas sobrevivessem, assim como seu autor, contra todas as adversidades.
Kenneth também escreveu partes do livro, preenchendo lacunas e acrescentando seu próprio relato sobre duas visitas a Dongji, em 2024 e 2025, para prestar homenagem às águas que testemunharam a experiência mais traumática de seu pai.
"Eu havia preparado uma coroa de papoulas com a foto do meu pai ao centro, que lancei ao mar", diz um trecho de um dos vários capítulos escritos por Kenneth, descrevendo sua viagem a Dongji em 2024. "Aquela coroa em particular adornou o caixão do meu pai no ano 2000, e parecia uma oferenda apropriada".
"Esses relatos em primeira mão, feitos por sobreviventes, oferecem uma perspectiva profundamente pessoal sobre a tragédia", disse Kenneth. "Eles mostram que as guerras são travadas por pessoas comuns, e esta história revela o melhor e o pior da natureza humana em meio à guerra".



