De uma calma frágil a uma guerra em expansão, a escalada no Iêmen pode ser contida?-Xinhua

De uma calma frágil a uma guerra em expansão, a escalada no Iêmen pode ser contida?

2026-09-12 11:18:41丨portuguese.xinhuanet.com

Foto fornecida pelo Centro de Mídia Houthi mostra o lançamento de um drone supostamente em direção a Mocha, no Iêmen, em 9 de agosto de 2026. (Centro de Mídia Houthi/Divulgação via Xinhua)

Por Murad Abdo

Aden, Iêmen, 10 set (Xinhua) -- Após mais de quatro anos de uma calma frágil ao longo das principais linhas de frente do Iêmen, combates intensos entre as forças governamentais e os Houthis se espalharam pelas regiões oeste e norte do país, enquanto os Houthis retomaram ataques em larga escala à Arábia Saudita.

Analistas dizem que a escalada mais recente está exercendo uma pressão crescente sobre os entendimentos informais entre a Arábia Saudita e os Houthis, firmados após a trégua mediada pela ONU em 2022; caso a recente troca de ataques e retaliações evolua para um ciclo prolongado, o risco de uma escalada mais ampla aumentaria substancialmente.

SITUAÇÃO ATUAL

A escalada mais recente ganhou força inicialmente no oeste do Iêmen, onde combates intensos eclodiram no sudoeste da província de Taiz e na província vizinha de Hodeidah, banhada pelo Mar Vermelho. As forças Houthis tentaram cortar estradas estratégicas que ligam Taiz ao porto de Mocha, controlado pelo governo e localizado no Mar Vermelho, e avançar em direção a territórios próximos a Bab al-Mandab.

"A batalha por Bab al-Mandab não se trata apenas de conquistar território dentro do Iêmen", disse à Xinhua o analista político Muqbil Naji, sediado em Aden. "Quem consegue ameaçar essa via navegável adquire uma vantagem estratégica que vai muito além das fronteiras do Iêmen".

Os combates não ficaram restritos ao oeste do Iêmen. Posteriormente, as forças governamentais lançaram uma grande ofensiva em Al-Jawf, uma província ao norte que faz fronteira com a Arábia Saudita e está localizada a leste de Sanaa, a capital controlada pelos Houthis. Os confrontos também se intensificaram em outras frentes.

A expansão do campo de batalha alterou a dinâmica militar. Inicialmente, os Houthis intensificaram sua ofensiva no oeste do Iêmen em direção a áreas próximas a Bab al-Mandab, mas posteriormente foram abertas outras frentes, forçando-os a redistribuir suas forças. "A abertura de múltiplas frentes pelo governo do Iêmen enfraquecerá os Houthis", disse Abdul-Salam Mohamad, presidente do Centro de Estudos e Pesquisas Abaad.

À medida que a pressão militar aumentava dentro do Iêmen, os Houthis ampliaram o confronto para além das fronteiras do país. O grupo disse na terça-feira ter disparado dezenas de mísseis balísticos e drones contra instalações militares e de energia no sul da Arábia Saudita. Autoridades sauditas informaram que ataques a alvos civis e econômicos em Abha, Khamis Mushait, Jazan e Najran deixaram 73 pessoas feridas e provocaram incêndios em várias instalações de energia.

"Os ataques à Arábia Saudita não devem ser vistos isoladamente do que está acontecendo em solo iemenita", disse Naji, acrescentando que, ao aumentar os custos para Riad, os Houthis podem estar tentando criar uma nova equação na qual a Arábia Saudita tenha maior incentivo para conter a pressão militar das forças do governo iemenita.

O enviado especial da ONU para o Iêmen, Hans Grundberg, descreveu na segunda-feira a nova escalada como "extremamente alarmante", alertando que confrontos cada vez mais intensos ameaçavam expandir o conflito e complicar ainda mais as perspectivas de uma solução política.

Um drone em chamas após ser abatido na província de Al-Jawf, Iêmen, em 26 de julho de 2026. (Centro de Mídia Houthi/Divulgação via Xinhua)

POR TRÁS DA ESCALADA

O Iêmen está mergulhado em conflito desde o final de 2014, quando os Houthis tomaram Sanaa e grande parte do norte do Iêmen, forçando o governo reconhecido internacionalmente a deixar a capital. Uma coalizão liderada pela Arábia Saudita interveio no conflito em 2015 em apoio ao governo iemenita.

A trégua mediada pela ONU, iniciada em abril de 2022, expirou formalmente seis meses depois, mas uma relativa calma persistiu em grande parte nos anos seguintes. O período de confronto direto entre a Arábia Saudita e os Houthis deu lugar, gradualmente, a um acordo tácito no qual os ataques transfronteiriços e as operações aéreas sauditas diminuíram drasticamente, embora nenhum acordo de paz abrangente tenha sido alcançado.

Esse arranjo informal está agora no centro da crise atual. Salah Ali Salah, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos de Sanaa, descreveu o que resta dessa relação como uma "zona cinza".

Salah disse que anos de gestão do conflito, sem resolver as disputas políticas, de segurança e econômicas fundamentais da guerra, contribuíram para a vulnerabilidade atual. Uma desescalada temporária pode dar às partes tempo para "recuperar o fôlego e reposicionar suas estratégias militares e políticas", disse ele.

Segundo Salah, os ataques recentes não significam necessariamente que os entendimentos não declarados tenham fracassado, mas eles estão se tornando mais frágeis e menos capazes de conter a escalada. "Tanto Riad quanto os Houthis compreenderam os enormes custos de um retorno a um conflito direto e sustentado", disse ele, acrescentando que o maior perigo está na possibilidade de que "trocas de ataques recorrentes se transformem em um ciclo contínuo de retaliação".

Se isso acontecer, disse Salah, ambos os lados poderão começar a reavaliar as "regras de engajamento" informais que ajudaram a conter confrontos diretos nos últimos anos, aumentando o risco de que "uma escalada calibrada se torne mais difícil de controlar".

Por enquanto, no entanto, Naji acredita que a Arábia Saudita ainda não decidiu retornar à intervenção militar prolongada das fases iniciais da guerra no Iêmen. "A Arábia Saudita ainda parece estar calibrando sua resposta", disse ele. "O objetivo nesta fase parece ser a dissuasão e a pressão gradual, em vez de entrar imediatamente em uma guerra decisiva".

Captura de tela mostra caminhões em chamas após serem atingidos por mísseis balísticos lançados pelo grupo Houthi perto do acampamento militar de Al-Wadiah, na província de Hadramout, Iêmen, em 7 de setembro de 2026. (Centro de Mídia Houthi/Divulgação via Xinhua)

PARA ONDE A ESCALADA LEVA?

Os analistas iemenitas concordam que o retorno à relativa calma dos últimos anos está se tornando mais difícil, mas divergem sobre o que pode acontecer a seguir.

Mohamad destacou três cenários possíveis. Seu cenário mais provável é a continuidade dos combates, seguida por outra trégua temporária após mudanças significativas no campo de batalha. "A guerra pode parar, ou uma trégua temporária pode ser alcançada", disse ele.

Em sua avaliação, no entanto, essa pausa ocorreria após mudanças no equilíbrio militar, e não por meio de uma restauração imediata do status quo anterior à escalada.

Uma segunda possibilidade é uma guerra muito mais ampla. Ataques contínuos dos Houthis dentro da Arábia Saudita poderiam alterar os cálculos de Riad, disse Mohamad, levando potencialmente a um apoio saudita mais forte a uma ampla ofensiva governamental.

Seu terceiro cenário, um movimento inicial dos Houthis em direção à desescalada e à restauração do status quo anterior, é menos provável, pois as condições militares e econômicas subjacentes ao confronto atual já mudaram. "A situação está prestes a explodir", disse Mohamad.

Salah descreveu "um confronto em larga escala entre a Arábia Saudita e os Houthis como o resultado potencial mais perigoso, embora não o mais provável por enquanto". Esse cálculo poderia mudar, disse ele, "se os ataques transfronteiriços persistirem, as operações terrestres se ampliarem ou um ataque de alto impacto causar baixas suficientes para forçar qualquer um dos lados a reavaliar fundamentalmente sua resposta".

O risco, disse Salah, é que um confronto possa escapar aos cálculos que inicialmente o desencadearam. Um confronto pode começar com ataques controlados destinados a demonstrar determinação, disse ele, mas ataques e retaliações poderiam desencadear uma reação em cadeia cada vez mais difícil de conter.

Segundo Salah, o cenário mais provável é o de "um período prolongado de escalada limitada e intermitente". Nesse cenário, as partes continuariam utilizando pressão militar para conquistar território e fortalecer sua posição de negociação, mantendo, ao mesmo tempo, alguns canais de comunicação abertos e buscando evitar uma guerra em larga escala.

Fale conosco. Envie dúvidas, críticas ou sugestões para a nossa equipe através dos contatos abaixo:

Telefone: 0086-10-8805-0795

Email: portuguese@xinhuanet.com