Como o BRICS está remodelando o lugar do Sul Global no mundo-Xinhua

Como o BRICS está remodelando o lugar do Sul Global no mundo

2026-09-15 11:49:31丨portuguese.xinhuanet.com

Um guindaste iça um contêiner na Estação Port Reitz, na Ferrovia de Bitola Padrão (SGR, na sigla em inglês) Mombasa-Nairóbi, em Mombasa, Quênia, em 9 de julho de 2026. (Xinhua/Xie Jianfei)

Por Sithembiso Bhengu

A ascensão do Sul Global está remodelando a arquitetura do poder mundial. O que começou em 2006 como um agrupamento modesto de economias emergentes, com a África do Sul aderindo oficialmente em 2011, transformou-se em um grupo de 11 membros abrangendo quatro continentes, contando com um círculo crescente de países parceiros que participam ativamente da cooperação.

Esse interesse crescente conta sua própria história: pela primeira vez na memória recente, muitos dos que buscam a adesão não procuram entrar em um clube liderado pelo Ocidente, mas sim em uma instituição construída, explicitamente, em torno do princípio de que nenhuma potência isolada deve ditar os termos do desenvolvimento global.

Para a África, esse não é um acontecimento periférico. É, em muitos aspectos, um retorno às origens.

Embora a África do Sul estivesse entre os membros fundadores do BRICS, a cúpula de 2023 sinalizou um aprofundamento da participação do continente africano no grupo. Com o Egito e a Etiópia agora como membros plenos ao lado da África do Sul, a África ocupa três assentos em uma mesa que representa, coletivamente, quase metade da população mundial e uma parcela crescente da produção global.

Trata-se de algo raro na ordem do pós-guerra: ter uma instituição na qual os Estados africanos não são meros solicitantes à margem de decisões tomadas em outros lugares, mas sim coarquitetos das próprias regras.

Essa distinção é importante porque aborda uma queixa que moldou o desenvolvimento africano por mais de 70 anos. As instituições de Bretton Woods, surgidas dos acordos do pós-guerra, traziam condições atreladas, impondo austeridade, liberalização e programas de ajuste estrutural, que prenderam grande parte da África Subsaariana em ciclos de dependência da dívida muito depois de conquistada a independência formal. O BRICS, e o Novo Banco de Desenvolvimento que ele criou, oferecem um modelo diferente: financiamento ao desenvolvimento sem condicionantes ideológicas e investimentos em infraestrutura que tratam a soberania como um pré-requisito, e não como uma moeda de troca.

Passageiros embarcam em um trem no terminal de Nairóbi da ferrovia Mombasa-Nairóbi, no Quênia, em 17 de fevereiro de 2026. (Xinhua/Xie Jianfei)

Independentemente de outros debates sobre a trajetória do grupo, essa fonte alternativa de capital proporcionou aos ministérios das finanças africanos uma segunda opção real pela primeira vez em uma geração, além de conferir poder de negociação nas relações internacionais.

Os números confirmam isso. Apenas no primeiro semestre de 2025, os investimentos da Iniciativa Cinturão e Rota na África atingiram 39 bilhões de dólares americanos, tornando o continente o maior destino individual desse capital em todo o mundo, um montante cerca de cinco vezes superior ao recebido no mesmo período do ano anterior.

A ferrovia de bitola padrão do Quênia, os portos do Djibuti, a expansão da infraestrutura da Etiópia e as zonas econômicas especiais da Nigéria não são abstrações. São provas concretas de um Sul Global que começa a comercializar e construir segundo seus próprios termos, ao longo de corredores cuja construção não exigiu pedidos de permissão.

Foto tirada em 8 de novembro de 2024 mostra o Porto Multiuso de Doraleh, na cidade do Djibuti, capital do país. (Xinhua/Wang Guansen)

Embora desafios persistam, a trajetória geral da cooperação do BRICS é clara e significativa. À medida que o BRICS continua evoluindo como uma plataforma de cooperação do Sul Global, e enquanto a União Africana pressiona, tanto no âmbito do BRICS quanto no do G20, por uma reforma do Conselho de Segurança da ONU, o rumo está se tornando cada vez mais claro: os Estados africanos estão deixando de ser meros objetos da governança global para se tornarem agentes que a moldam.

As vastas reservas de minerais críticos do continente, sua força de trabalho jovem e sua área de livre-comércio continental em rápida expansão dão um poder de influência real nessa nova arquitetura, um tipo de influência que raramente exerceu no passado. O desafio agora é transformar essas oportunidades em maior espaço para políticas industriais, transferência de tecnologia, agregação de valor e acordos de beneficiamento, capazes de converter recursos brutos em prosperidade compartilhada, em vez de simplesmente trocar um conjunto de condições externas por outro.

Desde sua fundação, o mecanismo de cooperação do BRICS tornou-se uma plataforma importante para o Sul Global. A África, com o seu papel crescente no mecanismo, contribui cada vez mais para esse esforço.

Nota da edição: Sithembiso Bhengu é diretor do Chris Hani Institute, um think tank sediado na África do Sul.

As opiniões expressas neste artigo são do autor e não refletem necessariamente as da Agência de Notícias Xinhua.

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