Preservação das florestas sustenta agricultura e comércio de alimentos com China, dizem especialistas-Xinhua

Preservação das florestas sustenta agricultura e comércio de alimentos com China, dizem especialistas

2026-09-16 08:48:30丨portuguese.xinhuanet.com

Hangzhou, 15 set (Xinhua) -- A preservação das florestas brasileiras é importante para sustentar a produção agrícola do país no longo prazo e, por consequência, suas exportações de alimentos, inclusive para a China, disse André Guimarães, diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

Em entrevista à Xinhua durante o Simpósio Brasil-China sobre Florestas e Natureza 2026, em Hangzhou, Província de Zhejiang, no leste da China, Guimarães disse que cerca de 90% da agricultura brasileira não é irrigada e depende das chuvas. A Amazônia desempenha papel fundamental no ciclo da água e na distribuição das precipitações que abastecem cidades e regiões produtoras.

"Proteger a floresta significa segurança alimentar para o Brasil, para a China e, em alguma dimensão, para o planeta", disse.

A China é o principal mercado dos produtos agropecuários brasileiros. No primeiro semestre de 2026, as exportações do setor para o mercado chinês somaram cerca de US$ 30,5 bilhões, ou 35,1% do total.

Guimarães avaliou que não pode ser mantido mais o modelo de expansão agrícola baseado na criação contínua de novas áreas. Para aumentar a produção sem ampliar a área cultivada, o Brasil deve implantar cada vez mais ciência e tecnologia.

Nesse campo, ele vê espaço para a cooperação com a China. "A China tem tecnologia de imagens de satélite e de inteligência artificial. São ferramentas que podem ajudar o Brasil e a China a encontrarem caminhos para produzir mais usando menos terra", disse.

Outro campo apontado por ele é a agricultura familiar. O Brasil tem elevada capacidade tecnológica na agricultura de grande escala. Na Amazônia, porém, cerca de 600 mil agricultores familiares ainda têm acesso limitado a tecnologia e máquinas agrícolas.

"A tecnologia chinesa para a agricultura de pequena escala pode ser útil para os produtores da Amazônia brasileira, não só para melhorar suas condições de vida, mas também para reduzir a pressão pelo desmatamento", disse.

Uma experiência desse tipo já está em andamento no Nordeste brasileiro. Uma iniciativa China-Brasil de mecanização da agricultura familiar, com participação da Universidade Agrícola da China, introduz e testa pequenas máquinas agrícolas chinesas e oferece capacitação a produtores locais, buscando adaptar essas soluções às condições brasileiras.

Realizado de 12 a 14 de setembro, o Simpósio Brasil-China sobre Florestas e Natureza 2026 foi organizado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), pelo IPAM e pela China Jiliang University. O encontro reuniu representantes dos dois países e de organizações internacionais para discutir conservação florestal, restauração ecológica, agricultura sustentável e novas áreas de colaboração.

Mirey Atallah, chefe da área de Adaptação e Resiliência da Divisão de Mudanças Climáticas do PNUMA, afirmou que a experiência chinesa em restauração ecológica e combate à desertificação tem despertado crescente interesse internacional.

"A China já teve experiências bem-sucedidas na fixação de dunas, no enfrentamento da escassez de água e na agricultura em regiões com recursos hídricos limitados. Essas experiências podem ser compartilhadas com outros países", disse.

Atallah destacou também a continuidade das políticas chinesas de longo prazo em áreas como restauração ecológica, proteção florestal e combate à desertificação. Segundo ela, a manutenção desses objetivos ao longo de sucessivos planos quinquenais é uma característica que pode oferecer referências a outros países.

Essa continuidade também aparece no 15º Plano Quinquenal (2026-2030). O novo plano mantém a proteção e a restauração ecológica entre as prioridades e estabelece a meta de elevar o estoque florestal da China para 22,4 bilhões de metros cúbicos até 2030.

Yu Wei, diretor e pesquisador do Centro de Pesquisa sobre Neutralidade de Carbono e Desenvolvimento Verde da Universidade Jiliang da China, uma das organizadoras do simpósio, disse que o encontro passará a ser realizado anualmente, com um tema central de pesquisa definido a cada edição.

Segundo ele, uma das prioridades será estudar como experiências chinesas em governança favorável à biodiversidade podem ser aplicadas no Brasil e como práticas da Amazônia brasileira na proteção florestal e gestão comunitária podem contribuir para iniciativas na China.

Em setembro de 2025, a Universidade Jiliang da China e o IPAM lançaram, em Brasília, o Centro de Desenvolvimento Sustentável China-Brasil. Durante o simpósio deste ano, o centro promoveu o primeiro Diálogo da Juventude China-Brasil sobre Desenvolvimento Sustentável.

Segundo Yu, as duas partes também pretendem criar uma rede de cooperação entre jovens pesquisadores, com intercâmbios e visitas de campo.

"Esperamos que os jovens produzam seus próprios resultados de pesquisa e recomendações de políticas públicas, incorporando suas perspectivas à futura cooperação em governança ecológica e dando impulso contínuo à cooperação entre China e Brasil em desenvolvimento sustentável", disse.

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