
Fumaça e fogo sobem de um veículo incendiado após ataque de drone israelense na Cidade de Gaza, em 24 de setembro de 2026. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
Cairo, 7 out (Xinhua) -- Três anos após o início do conflito em Gaza, em 7 de outubro de 2023, o enclave costeiro encontra-se em ruínas e dezenas de milhares de pessoas foram mortas. Um cessar-fogo foi alcançado, mas o impasse fundamental permanece sem solução.
Analistas sustentam que as diferenças irreconciliáveis entre as demandas palestinas e israelenses, somadas à percepção de parcialidade dos Estados Unidos, tornaram inalcançáveis uma solução abrangente para o conflito e uma paz duradoura. A guerra também teve repercussões de grande alcance em toda a região, com a instabilidade se propagando para o Líbano, a Síria, o Irã e o Mar Vermelho.

Palestinos participam de protesto contra os planos israelenses de deslocamento forçado na Cidade de Gaza, em 23 de julho de 2026. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
GAZA EM RUÍNAS, CISJORDÂNIA SOB PRESSÃO
Em 7 de outubro de 2023, a ofensiva do Hamas, "Dilúvio de Al-Aqsa", envolveu o disparo de milhares de foguetes a partir de Gaza e a infiltração de combatentes no sul de Israel, resultando na morte de cerca de 1.200 pessoas e na tomada de aproximadamente 250 reféns.
Israel então declarou guerra e lançou a "Operação Espadas de Ferro", bombardeando Gaza com ataques aéreos e uma ofensiva terrestre que evoluiu para um conflito prolongado e devastador.
Ao longo dos últimos três anos, Gaza sofreu uma destruição catastrófica, provocando uma grave crise humanitária em todo o território. Mais de 74.000 pessoas foram mortas no enclave desde 7 de outubro de 2023, segundo as autoridades de saúde de Gaza.
"Uma campanha militar israelense de grande escala resultou em um número significativo de baixas, particularmente entre mulheres e crianças, além da destruição generalizada de casas e infraestrutura e do deslocamento de mais de dois milhões de palestinos", comentou o analista político bareinita Abdullah Al Huwaihi.
Em meio à crescente indignação global com as mortes em Gaza, um cessar-fogo foi finalmente alcançado em outubro de 2025. Sob a primeira fase do plano de cessar-fogo para Gaza proposto pelos EUA, as forças israelenses deveriam recuar para a "Linha Amarela" e trocar reféns por prisioneiros. A segunda fase, iniciada em meados de janeiro, se concentrou na desmilitarização de Gaza e no estabelecimento de uma governança tecnocrática.
No final de julho, o Hamas concordou em incluir a entrega de armas pesadas nos acordos de desmilitarização, sob a condição da retirada total das forças israelenses e da interrupção das "agressões".
No entanto, os acordos implementados em fases não resultaram em uma paz duradoura. Khaled Al Hroub, professor de conflitos internacionais na Universidade Northwestern no Catar, disse que o fracasso de sucessivas iniciativas demonstra que qualquer acordo real exige ir além da gestão da violência recorrente para enfrentar as raízes políticas do conflito.
Paralelamente à devastação em Gaza, a violência e a erosão do território palestino na Cisjordânia também se intensificaram.
Dados da ONU mostram que, até 10 de agosto, cerca de 3.800 palestinos haviam sido deslocados neste ano devido à violência de colonos, demolições de casas e despejos. A ONU registrou mais de 1.430 incidentes envolvendo colonos neste ano, afetando cerca de 260 comunidades palestinas.
"A Cisjordânia está no limite", disse Ramiz Alakbarov, coordenador humanitário da ONU para o território palestino ocupado.

Pessoas participam de um funeral coletivo de 105 vítimas cujos restos mortais foram recuperados quase três anos após um ataque israelense letal, na Cidade de Gaza, em 1º de outubro de 2026. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
IMPASSE E DILEMA DE WASHINGTON
Analistas atribuem o impasse prolongado em Gaza a diferenças irreconciliáveis entre Israel e o Hamas. Akram Attaallah, um analista político de Gaza, explicou que Israel insiste no desarmamento completo do Hamas antes de qualquer retirada total, enquanto o Hamas exige o fim das operações militares israelenses e uma retirada completa de Israel antes de discutir a questão das armas.
"Israel e o Hamas veem a questão como uma equação de soma zero. O Hamas quer permanecer, enquanto Israel quer eliminar qualquer presença do Hamas na Faixa de Gaza", disse ele. "Entre essas duas posições, a crise persiste".
O professor da Universidade de Bagdá, Adel al-Ghurairi, disse que a estrutura proposta pelos EUA, incluindo o chamado "Conselho de Paz", a força de estabilização e o comitê de transição, permanece em grande parte apenas no papel, com o desarmamento e a retirada israelense ainda pendentes.
"Os principais elementos do roteiro, desarmamento, retirada israelense e quem governará durante a transição, continuam inacabados", disse ele.
Nos bastidores, os Estados Unidos desempenham um papel profundamente contraditório, disseram observadores à Xinhua.
Ali Al Hail, professor de ciência política da Universidade do Catar, disse que o papel de Washington como principal mediador é prejudicado por sua ajuda militar e apoio diplomático a Israel, levantando questões sobre sua imparcialidade e permitindo que o conflito persista.
"Os Estados Unidos desempenharam um papel duplo: continuam sendo o principal aliado estratégico de Israel, ao mesmo tempo em que são um ator essencial nos esforços diplomáticos", disse ele. "Essa posição dupla levanta questões sobre a eficácia com que podem atuar como um intermediário aceitável para todas as partes".
Al-Ghurairi acrescentou que os Estados Unidos querem o fim da guerra, mas não demonstraram vontade de realmente forçar esse desfecho. "A ausência de um mecanismo multilateral genuíno e a dependência da hegemonia unilateral americana tornam qualquer acordo frágil".

Uma criança é vista em um acampamento improvisado de tendas na Cidade de Gaza, em 7 de outubro de 2026. (Foto de Rizek Abdeljawad/Xinhua)
PROPAGAÇÃO DO CONFLITO E A SOLUÇÃO DE DOIS ESTADOS
Em toda a região, analistas consideram que o conflito remodelou profundamente o cenário geopolítico.
O analista político sudanês, Mohamed Amin, observou que a propagação regional do conflito foi sentida no Mar Vermelho, onde os Houthis do Iêmen atacaram navios no que descrevem como apoio aos palestinos.
"Isso transformou parte das repercussões da guerra de Gaza em uma questão que envolve a segurança da navegação e do comércio internacional", disse ele.
O equilíbrio de poder entre a aliança EUA-Israel e a frente de resistência liderada pelo Irã, incluindo o Hamas, os Houthis e o Hezbollah do Líbano, sofreu alterações, acrescentou Al Huwaihi.
"Israel passou a acreditar que, após o que considerou ganhos em Gaza, o confronto deveria se voltar para o Irã, principal Estado que apoia esses grupos", disse ele. "Posteriormente, conseguiu persuadir o presidente dos EUA a iniciar uma guerra contra o Irã em 28 de fevereiro".
Diante de tamanha complexidade, a visão predominante é a de que uma paz verdadeira e duradoura permanece impossível sem a implementação plena da solução de dois Estados e a restauração dos direitos legítimos dos palestinos.
O analista político libanês, Youssef Diab, disse que a causa palestina pode continuar sendo um conflito central que molda a região.
"Ou haverá paz para os palestinos, incluindo o estabelecimento de um Estado palestino soberano com autoridade genuína, ou continuará havendo instabilidade e caos", disse ele.
"A estabilidade regional também dependerá da capacidade das potências regionais e internacionais de conter tensões interconectadas no Irã, no Iêmen, no Mar Vermelho e no Golfo, e de estabelecer arranjos de segurança e políticos mais amplos", acrescentou Amin.







