Rio de Janeiro, 19 out (Xinhua) -- Uma única espiga de milho preto, que deu origem a outras 60, permitiu recuperar uma variedade ancestral considerada sagrada pelos povos indígenas Avá-Guarani do Brasil. O projeto combina pesquisa científica e conhecimentos tradicionais para preservar a biodiversidade agrícola, fortalecer a autonomia alimentar e manter vivas práticas culturais transmitidas ao longo de gerações.
A iniciativa é desenvolvida em comunidades indígenas de Guaíra e Terra Roxa, no estado do Paraná, com a participação de pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e de um banco de sementes de uma escola indígena em Dourados, no estado de Mato Grosso do Sul.
O projeto possibilitou a recuperação de duas variedades tradicionais de milho, conhecidas como Saboró Branco e Saboró Preto, cujo cultivo havia se perdido em algumas comunidades. As sementes foram reintroduzidas por meio da cooperação entre pesquisadores e instituições indígenas, com o objetivo de restabelecer práticas agrícolas ligadas à alimentação, à espiritualidade e à identidade dos Avá-Guarani.
O pesquisador Alberto Feiden, da Embrapa Pantanal, explicou que o processo começou após um diagnóstico realizado em setembro de 2023 em nove aldeias indígenas de Mato Grosso do Sul, no qual foi identificada a perda de diversas variedades agrícolas tradicionais, incluindo algumas consideradas sagradas.
"Mais do que retomar uma cultura agrícola, o processo representa uma tentativa de reconstruir vínculos entre território, alimentação, espiritualidade e identidade", afirmou Feiden à Xinhua.
Um dos resultados mais expressivos foi a reprodução do milho Saboró Preto. A partir de uma única espiga, obtiveram-se 60 novas espigas, que foram distribuídas a outros três agricultores indígenas para ampliar o cultivo nas próximas safras. A estratégia prevê a realização de novos plantios em diferentes períodos, visando reduzir o risco de perdas causadas por fenômenos climáticos e multiplicar as sementes entre as famílias das comunidades.
O projeto também dedica atenção especial à conservação genética do milho. Os agricultores selecionaram áreas de cultivo isoladas de plantações vizinhas, a fim de diminuir o risco de contaminação por pólen de variedades transgênicas e limitar a exposição a agroquímicos utilizados em propriedades agrícolas nos arredores.
As instituições participantes atuam como intermediárias no processo de recuperação, enquanto as comunidades indígenas mantêm o controle das sementes e de sua reprodução -- uma condição considerada fundamental para preservar as variedades tradicionais.
Para os Avá-Guaraní, o milho representa muito mais do que uma fonte de alimento. As variedades recuperadas são utilizadas no preparo de pratos tradicionais, como pamonha, canjica, rorá e chicha, além de serem consumidas assadas ou cozidas. Esses preparos estão ligados a cerimônias religiosas e práticas culturais que integram os saberes transmitidos entre gerações.
A recuperação das sementes está, ainda, vinculada ao conceito guarani de *Ñande Reko* -- expressão que remete ao modo de vida da comunidade e à relação entre território, alimentação, espiritualidade e organização coletiva.
O cacique Raúl Medina, da aldeia Tokoha Yvyraty Porã, destacou que o cultivo tradicional reflete uma concepção de agricultura baseada na suficiência e na troca comunitária.
"A cultura guarani valoriza a suficiência e a partilha. O milho é cultivado para alimentar a comunidade, não para gerar lucro", afirmou Medina.
Os agricultores também associam o milho a outras culturas, como a mandioca e o feijão-de-corda, que aproveitam o espaço disponível e permitem diversificar a produção. Após a colheita, as espigas são conservadas sobre o fogão, onde a fumaça auxilia no seu armazenamento.
A iniciativa ressalta a importância da cooperação entre comunidades indígenas e instituições de pesquisa para recuperar variedades agrícolas ameaçadas e preservar conhecimentos tradicionais.
Neste caso, a colaboração com o banco de sementes da escola indígena Jaguapiru, em Dourados, Mato Grosso do Sul, permitiu o acesso a variedades que, posteriormente, foram reintroduzidas nas comunidades Avá Guaraní.
A multiplicação das sementes busca garantir que essas variedades possam continuar sendo cultivadas e transmitidas às gerações futuras, reforçando a autonomia alimentar e a continuidade das tradições culturais indígenas no Brasil.

