A quase 40 quilômetros a nordeste do Rio de Janeiro, a chuva bate contra o teto de telha de zinco enferrujada de um pequeno barracão de dez metros quadrados numa favela em São Gonçalo, produzindo um barulho ensurdecedor em uma das maiores comunidades carentes do Brasil.
Porém, dentro dele, o ar é denso, tomado pela umidade e suor -- dezenas de crianças e jovens em quimonos desfiados fazem uma reverência em silêncio, guardam sua posição no solo e trocam golpes de finalização.
SOUNDBITE - Rogério Moura - Fundador do projeto "Vencedores em Cristo"
"O projeto foi lançado em 2008 e estamos nessa batalha já há bastante tempo. A gente está com uma base de uns 300 alunos no jiu-jitsu. Eu quero que eles sejam um cidadão de bem e mostrar para eles que o jiu-jitsu dá oportunidade de vida, que pode ser uma ferramenta de trabalho. Hoje a gente tem os representantes do projeto, que estão lá na China. A China está com o horizonte muito aberto para o jiu-jitsu."
Renan Vieira, 25 anos e natural de São Gonçalo, está experimentando uma vida diferente ensinando aos alunos chineses o mesmo esporte.
Há quinze anos, então com dez anos de idade, Renan era um menino retraído em São Gonçalo, calado pela dor da perda do pai. Sua mãe trabalhava em turnos ininterruptos.
O passaporte que levou Renan da favela em São Gonçalo à Shanghai é o Jiu-jitsu Brasileiro.
SOUNDBITE - Renan Vieira- Professor da academia BUSHIDO Gym
"Foi um projeto que me ajudou e ajudou muitas crianças nessa época. O jiu-jitsu abriu muitas oportunidades na minha vida, esporte onde eu trabalho, com o jiu-jitsu. Hoje eu moro aqui na China, conheço nova cultura, novas pessoas, estou aprendendo novos idiomas, estou muito feliz com isso. E eu acredito que eu estando aqui, eu sirvo de exemplo, sirvo de impulso para os outros jovens, as outras crianças. "
Na opinião de Renan, o Jiu-jitsu pode ser uma ponte cultural entre o Brasil e a China.
SOUNDBITE - Renan Vieira- Professor da academia BUSHIDO Gym
"Os alunos chineses aqui eu acredito que são muito animados para aprender. Eu fico feliz em ensinar eles, porque eles são umas pessoas muito dedicadas, eles aprendem rápido. Eles param a todo momento pra me perguntar sobre o esporte, sobre as posições. Isso é muito importante para o aprendizado deles. Eu acredito que assim vocês desenvolvem muito rápido o esporte."
Impulsionado pela febre mundial do Ultimate Fighting Championship e por estrelas locais como Zhang Weili, o Jiu-jitsu brasileiro explodiu como uma grande tendência de fitness nas megalópoles chinesas. Esse crescimento gerou uma escassez de instrutores faixa-preta qualificados.
É assim que Saulo viu uma oportunidade de conectar esses dois mundos. Nos últimos dois anos, ele recrutou sistematicamente os principais talentos do projeto de Moura.
SOUNDBITE - Saulo - Professor de Jiu-Jitsu
"O esporte está crescendo, você já tem muito incentivo no país, você já tem competições, você já tem academias. Culturalmente também, por exemplo, a roupa, o uniforme, que já é produzido na China. Então o jiu-jitsu movimenta muitos setores diferentes. A China está abraçando mais e mais o jiu-jitsu."

