
Foto tirada em 17 de outubro de 2026 mostra um veículo em chamas durante um protesto em Paris, na França. (Xinhua/Wu Huiwo)
Frankfurt, 21 out (Xinhua) -- Protestos recentes por toda a Europa colocaram em evidência tensões sociais e econômicas, refletindo preocupações que vão além dos preços, abrangendo habitação, renda, serviços públicos e segurança econômica. Os governos enfrentam uma pressão crescente por respostas. Contudo, o alto endividamento, os orçamentos restritos e problemas estruturais de longa data tornam escassas as soluções rápidas ou fáceis.
MANIFESTAÇÕES POR TODA A EUROPA
Segurando um cartaz de papelão com a frase "Tenho 81 anos e estou sendo despejada", a aposentada Maria Teresa Faleiro juntou-se a multidões em Lisboa para protestar contra a disparada do custo de vida e o agravamento da crise habitacional.
Embora nunca tenha deixado de pagar o aluguel mensal de 724 euros (813 dólares americanos) pelo imóvel onde vive há 22 anos, Faleiro enfrentou um processo de despejo após os proprietários se recusarem a renovar seu contrato de locação. Sem ter para onde ir, ela planeja recorrer da decisão judicial de despejo, disse ela.
A situação de Faleiro ilustra o drama crescente enfrentado por muitos aposentados em Portugal na busca por moradia acessível. O caso também reflete um cenário mais amplo de aperto no custo de vida em toda a Europa, onde milhares de pessoas foram às ruas protestar contra o aumento dos preços de habitação, alimentos, combustíveis e energia, mesmo em um momento em que a inflação geral tem desacelerado.
Na França, os protestos, que começaram com estudantes exigindo melhores condições escolares e um maior número de profissionais de ensino, expandiram-se para manifestações em nível nacional, motivadas pela alta do custo de vida e por insatisfações sociais mais abrangentes. A violência logo surgiu à margem de alguns atos, com registros de confrontos, saques e incêndios criminosos em diversas cidades. A histórica prefeitura de Limoges foi, em grande parte, destruída pelo fogo.
Na Espanha, mais de 50 protestos ocorreram em Madri e em dezenas de outras cidades espanholas no dia 3 de outubro, exigindo medidas contra a disparada dos aluguéis, os despejos e a falta de moradias acessíveis, após o fracasso do governo em aprovar uma legislação habitacional de emergência.
Em outros lugares, protestos na Itália e na Bélgica refletiram um conjunto mais amplo de preocupações, envolvendo salários, preços, serviços públicos e o aperto fiscal. Em Milão, no sábado, centenas de manifestantes vestidos de preto ocuparam a Piazza del Duomo, lançando bombinhas e garrafas contra a polícia. Pelo menos quatro policiais e 20 manifestantes ficaram feridos, e cerca de 50 pessoas foram detidas, segundo a agência de notícias italiana ANSA.
SEGURANÇA ECONÔMICA SOB PRESSÃO
Além do aumento das despesas cotidianas, as crescentes pressões financeiras alimentam uma sensação mais ampla de insegurança econômica em todo o continente. Embora a inflação tenha recuado em relação ao seu pico, as famílias continuam sentindo o impacto acumulado dos aumentos de preços ocorridos anteriormente.
O Banco Central Europeu disse que, em agosto de 2025, os preços dos alimentos nos países da zona do euro estavam entre 20% e 57% mais altos do que no final de 2019. Novas pressões nos custos de energia agravaram a situação: a inflação dos preços de energia para o consumidor na zona do euro atingiu 18,9% em setembro de 2026, segundo o Eurostat.
As dificuldades habitacionais são particularmente graves entre os jovens europeus. Dados divulgados pelo Eurostat mostraram que, em 2025, 26,9% dos jovens entre 15 e 29 anos na União Europeia (UE) viviam em domicílios superlotados. Além disso, 9,1% deles residiam em lares que comprometiam pelo menos 40% da renda disponível com moradia, um índice bem acima dos 7,7% registrados para a população em geral.
Pressões semelhantes são observadas fora da UE. Na Bósnia e Herzegovina, os preços dos imóveis subiram cerca de 70% nos últimos cinco anos, disse o corretor de imóveis Haris Kadic à agência de notícias FENA.
A mídia local também relatou que alguns moradores estão recorrendo a empréstimos ou à ajuda de filhos e amigos para cobrir despesas básicas, diante da alta nos custos de moradia e combustível.
Emmanuel Conte, vereador de Milão responsável pela área de habitação, declarou ao jornal italiano la Repubblica este mês que, quando as pessoas que mantêm uma cidade em funcionamento já não conseguem arcar com o custo de viver nela, a habitação deixa de ser apenas uma questão social e econômica para se tornar uma questão política.
Da mesma forma, Jean Faniel, diretor-geral do Centro de Pesquisa e Informação Sociopolítica da Bélgica, disse ao veículo belga BRUZZ que a violência observada em protestos recentes deve ser compreendida no contexto de uma crescente frustração social.
Faniel observou que manifestações pacíficas e confrontos violentos podem estar interconectados, em vez de serem fenômenos totalmente distintos. Ele ressaltou que sucessivas medidas de austeridade têm exercido uma pressão crescente sobre as condições de vida da população, gerando frustração e ressentimento.

Uma loja depredada durante um protesto é vista em Paris, na França, em 18 de outubro de 2026. (Xinhua/Wu Huiwo)
DESAFIO DE EQUILIBRAR NECESSIDADES FISCAIS E SOCIAIS
Governos europeus implementaram medidas de apoio à habitação, à energia e à renda. Contudo, o elevado endividamento, o envelhecimento populacional e as demandas concorrentes, como gastos com defesa e investimentos, têm restringido a margem de manobra para novas ações.
A Comissão Europeia prevê que o déficit da França alcance 5,1% do PIB em 2026 e que a dívida pública chegue a 118,1%. Oliver Nachtwey, sociólogo da Universidade de Basileia, disse que os esforços franceses para conter a dívida pública por meio de cortes de gastos deixam menos margem para investimentos em escolas, professores e outros serviços públicos.
Especialistas apontam que o desafio consiste em conciliar disciplina fiscal e estabilidade social. Thomas Decreus, pesquisador do Departamento de Filosofia da Universidade de Tilburg, alertou que o enfraquecimento das proteções sociais básicas pode comprometer a paz social. "Um orçamento precisa ser sólido, mas investimentos sociais também são necessários", disse ele.
O ex-ministro da Economia da Croácia, Ljubo Jurcic, declarou à Xinhua que o congelamento de preços pode ajudar a conter pressões imediatas, mas os governos precisam considerar quem, afinal, arcará com o custo. A longo prazo, uma produtividade mais elevada e uma estrutura econômica mais robusta oferecem uma proteção mais sustentável para as famílias, observou.
Embora subsídios e controles de preços possam proporcionar um alívio relativamente rápido, a ampliação da oferta de moradias, a melhoria dos serviços públicos e o aumento da produtividade são processos que podem levar anos, avaliam os analistas.
O desafio dos governos é encontrar maneiras de responder às demandas por resultados imediatos, ao mesmo tempo em que buscam implementar reformas que podem levar muito mais tempo para gerar benefícios tangíveis, disseram os especialistas.

