
Foto tirada por drone em 27 de agosto de 2026 mostra alces caminhando na Reserva Natural Nacional do rio Nanweng, na província de Heilongjiang, no nordeste da China. (Foto de Zhuang Yu/Xinhua)
Yerevan, 22 out (Xinhua) -- O primeiro copo de água que você bebe hoje vem acompanhado de uma conta invisível. Por trás dele, existe uma vasta rede de vida, de florestas e áreas úmidas a organismos microscópicos, que ajuda a manter o abastecimento de água limpo e confiável.
As Nações Unidas chamam esse sistema interconectado de "teia da vida", da qual dependemos para obter alimentos e medicamentos, além de água e de um clima estável.
A biodiversidade é a variedade de vida que compõe essa teia.
Na 17ª reunião da Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17), que ocorre na capital da Armênia, Yerevan, os países buscam formas de conter a perda de biodiversidade e transformar promessas em ações concretas.
O VALOR DA BIODIVERSIDADE
De bactérias e fungos a florestas e recifes de coral, a biodiversidade que vemos hoje é o resultado de 4,5 bilhões de anos de evolução, cada vez mais moldada pela atividade humana.
Polinizar plantas, dispersar sementes, sustentar cadeias alimentares... cada espécie desempenha um papel na natureza. A perda de uma única espécie pode significar a perda de relações ecológicas e recursos genéticos acumulados ao longo de milhões de anos de evolução.
A dimensão dessa perda é alarmante.
O Relatório Planeta Vivo 2026, do Fundo Mundial para a Natureza (WWF, na sigla em inglês), mostra que o tamanho médio das populações de vida selvagem monitoradas encolheu 73% entre 1970 e 2022.
Enquanto isso, a conservação tem apresentado avanços.
Na Colômbia, conservacionistas estão criando, reintroduzindo e monitorando o crocodilo-do-orinoco, espécie criticamente ameaçada de extinção, com o objetivo de restaurar populações selvagens autossustentáveis, em vez de simplesmente soltar mais animais.
A Armênia solicitou financiamento ao Fundo de Biodiversidade de Kunming para apoiar projetos voltados à conservação da biodiversidade do lago Sevan, incluindo a proteção da truta-de-sevan, uma espécie endêmica, informou o ministro do Meio Ambiente da Armênia e presidente da COP17, Hambardzum Matevosyan.
E os projetos vão além de salvar uma espécie específica de peixe. Eles visam preservar a diversidade genética, o que ajuda as espécies a se adaptarem a condições em constante mudança.
Essa diversidade é de grande valor prático para os seres humanos: variedades de culturas agrícolas podem conter genes que conferem resistência à seca ou a doenças, enquanto organismos naturais fornecem compostos utilizados na medicina. Segundo a OMS, mais da metade dos medicamentos modernos têm origem na natureza.

Foto tirada em 18 de outubro de 2026 mostra a cerimônia de abertura da 17ª reunião da Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17) em Yerevan, na Armênia. (Xinhua/Chen Junfeng)
SERVIÇOS INVISÍVEIS
Os cientistas denominam os benefícios fornecidos pela natureza, como a purificação da água, a polinização e o armazenamento de carbono, de "serviços ecossistêmicos".
Eles raramente aparecem em contas domésticas ou balanços financeiros de empresas, mas sua perda pode acarretar custos muito reais, que vão desde a piora na qualidade da água até danos a plantações e maior exposição a desastres ambientais.
Segundo as Nações Unidas, mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB) mundial depende, em grau moderado ou elevado, da natureza. Mais de 1 bilhão de pessoas dependem das florestas para sua subsistência. Além disso, os ecossistemas terrestres e os oceanos absorvem mais da metade das emissões de carbono.
No início da COP17, os incêndios florestais na região de Kalimantan, na Indonésia, já haviam afetado mais de 57 mil hectares, com a fumaça chegando a comunidades na Malásia e em Cingapura, relatou Theiva Lingam, copresidente da organização Friends of the Earth International.
Ela descreveu os incêndios como "um lembrete contundente da crise de biodiversidade mais profunda que se desenrola em todo o Sul Global".
A vulnerabilidade das turfeiras ajuda a explicar por que danos ambientais dessa natureza podem ter consequências que vão muito além das áreas diretamente afetadas.
As turfeiras cobrem apenas cerca de 3% da superfície terrestre do mundo, mas armazenam aproximadamente o dobro de carbono que todas as florestas da Terra. Quando drenadas ou queimadas, essas áreas podem liberar grandes quantidades de carbono armazenado, perdendo, ao mesmo tempo, sua capacidade de regular a água e sustentar a vida selvagem.

Aves descansam no lago Nakuru, no Grande Vale do Rift, Distrito de Nakuru, no Quênia, em 26 de agosto de 2026. (Xinhua/Liu Qiong)
ARCAR COM OS CUSTOS
Os ganhos econômicos provenientes de atividades que prejudicam a biodiversidade são, muitas vezes, compartilhados globalmente, enquanto os custos ambientais e sociais recaem de forma desproporcional sobre países em desenvolvimento e comunidades locais, disse Lingam.
Para ajudar a corrigir esse desequilíbrio, o Artigo 20 da Convenção sobre Diversidade Biológica exige que os países desenvolvidos forneçam "recursos financeiros novos e adicionais" para auxiliar os países em desenvolvimento a arcar com os custos acordados para a implementação da convenção.
Da mesma forma, o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, adotado em 2022, estabelece que o financiamento internacional para a biodiversidade destinado a países em desenvolvimento deve atingir, pelo menos, 20 bilhões de dólares americanos anualmente até 2025, e 30 bilhões de dólares até 2030.
Evitar danos é particularmente importante, uma vez que a extinção é irreversível, ao passo que a restauração de ecossistemas degradados pode ser custosa e apresentar resultados incertos, disseram especialistas.
Celine Beaulieu, que trabalha com financiamento para a biodiversidade no WWF, ressalta que o aporte de recursos precisa se traduzir em resultados e instou os países a "avaliar o financiamento para a biodiversidade não apenas pelo que é prometido, mas pelo que é implementado".
Como pontuou o vice-ministro do Meio Ambiente da Armênia, Aram Meymaryan, a conservação deve ser avaliada pelos resultados concretos: as ameaças foram reduzidas? As chances de sobrevivência das espécies melhoraram? Suas populações estão se recuperando?
A natureza pode nunca nos enviar uma fatura, mas o custo da perda dos ecossistemas que a sustentam é real. Proteger a biodiversidade não é apenas um ato de generosidade para com a natureza; é um investimento nos sistemas que sustentam a vida de todos.









