As novas negociações entre Rússia e Ucrânia trarão a paz?-Xinhua

As novas negociações entre Rússia e Ucrânia trarão a paz?

2026-10-25 16:55:13丨portuguese.xinhuanet.com

Foto tirada em 8 de setembro de 2026 mostra um cenário após ataques russos em Kiev, na Ucrânia. Sete pessoas morreram depois que a Rússia atingiu a região de Kiev com drones e mísseis durante a noite. (Foto de Peter Druk/Xinhua)

Moscou, 23 out (Xinhua) -- Estão previstas negociações trilaterais entre Rússia, Estados Unidos e Ucrânia em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, na primeira quinzena de novembro. O foco será em questões de segurança após um eventual acordo de paz, informou na sexta-feira o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.

Na quarta-feira, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reiterou sua disposição de "congelar" os combates ao longo das linhas de frente atuais, apresentando isso como uma "maneira real de encerrar esta guerra".

O presidente dos EUA, Donald Trump, disse que Moscou e Kiev estão, "talvez agora, mais perto do que nunca" de chegar a um acordo para encerrar o conflito.

Será que a retomada das negociações trará uma paz real?

IMPULSO POR NEGOCIAÇÕES

Desde o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, em fevereiro de 2022, já se passaram mais de quatro anos, marcados por uma sucessão de tentativas de negociação em busca de uma solução.

Em uma nova iniciativa diplomática, antes das eleições de meio de mandato nos EUA, o enviado especial americano Steve Witkoff reuniu-se com Zelensky em Oslo, na terça-feira, antes de viajar para São Petersburgo para encontrar o presidente russo, Vladimir Putin, no dia seguinte. As discussões abordaram garantias de segurança para a Ucrânia, a reconstrução pós-guerra e a possibilidade de retomar as negociações trilaterais envolvendo Kiev, Moscou e Washington.

Putin concordou, "em princípio", em reiniciar as negociações após o dia 10 de novembro, com foco no estabelecimento de um sistema de segurança para a Rússia e a Ucrânia após o fim do conflito, segundo Yuri Ushakov, assessor do Kremlin para assuntos externos.

Zelensky disse estar disposto a considerar o congelamento do conflito ao longo das atuais linhas de frente, como uma forma de alcançar um acordo de paz com a Rússia e encerrar, por meio da diplomacia, o conflito que já dura anos.

"Nós chamamos de cessar-fogo... O presidente Trump chamou de congelar e parar", disse Zelensky, ao ser questionado se concordaria em interromper os combates ao longo das atuais linhas de frente, mantendo o controle de "75% ou mais" do território ucraniano anterior à guerra.

Washington não esconde sua impaciência em garantir um acordo para a Ucrânia. Na terça-feira, Trump instou Zelensky a firmar um acordo com a Rússia para encerrar o conflito.

"Queremos que Zelensky faça um acordo", disse Trump a repórteres na Casa Branca. "Se não fizerem um acordo, a situação só vai piorar".

"Demos uma quantidade enorme de recursos à Ucrânia; não recebemos nada em troca. A não ser o diesel caro", disse Trump. "Os contribuintes americanos estão cansados ​​disso".

"É hora de fazer um acordo", acrescentou ele. "A Rússia gostaria que isso fosse concretizado".

O presidente dos EUA, Donald Trump (direita), e o presidente russo, Vladimir Putin, participam de uma coletiva de imprensa conjunta após concluírem suas negociações em Anchorage, no Alasca, nos Estados Unidos, em 15 de agosto de 2025. (Xinhua/Wu Xiaoling)

AGENDAS DIVERGENTES

A urgência de Washington em levar Zelensky a aceitar um acordo rápido é evidente. Na segunda-feira, Trump declarou publicamente que Zelensky "não quer parar" o conflito e "não está ajudando muito. Acho que é hora de outra pessoa negociar em nome da Ucrânia".

O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, teria adiado a transferência de mísseis interceptadores Patriot, provenientes de aliados europeus, para a Ucrânia, uma medida que pode enfraquecer a capacidade de defesa aérea do país.

Paralelamente, o acesso da Ucrânia ao sistema Starshield foi significativamente restringido em meados de outubro, prejudicando operações com drones e as comunicações no campo de batalha. A agência Reuters informou que a ordem partiu de dentro da Casa Branca, embora Trump tenha negado qualquer envolvimento.

As relações entre os EUA e a Ucrânia se deterioraram acentuadamente desde que Trump anunciou, em 9 de outubro, um acordo de fornecimento de diesel com a Rússia, parte de seus esforços para reduzir os preços dos combustíveis antes das eleições de meio de mandato, previstas para o início de novembro. Com os preços elevados dos combustíveis alimentando a frustração interna em relação ao custo de vida, a urgência de Washington em obter um cessar-fogo pode também refletir a pressão crescente sobre os republicanos antes da votação.

Segundo o jornal americano Washington Post, a Rússia poderia aproveitar a oportunidade atual para melhorar seus laços com Washington sem fazer concessões significativas em relação à Ucrânia.

Putin disse que as negociações deveriam se concentrar em garantias de segurança para a Rússia e para a Ucrânia, bem como em uma estrutura de segurança europeia mais ampla. Ele reiterou que a Rússia busca um acordo duradouro, e não apenas um cessar-fogo temporário.

As disputas territoriais continuam sendo um grande obstáculo, uma vez que Moscou exige que a Ucrânia ceda toda a região de Donbas. Para a Rússia, a retomada das negociações oferece uma oportunidade de ampliar sua margem de manobra estratégica.

Enquanto isso, a Ucrânia busca um cessar-fogo e garantias de segurança robustas para evitar novos ataques. Após conversas com Witkoff em Oslo, Zelensky declarou que suas propostas incluíam garantias nos moldes do Artigo 5º da OTAN, ressaltando, contudo, que as questões territoriais precisam ser discutidas no mais alto nível.

A proposta da Ucrânia de retomar as negociações trilaterais e sua abertura a um acordo de paz baseado no congelamento das atuais linhas de frente poderiam ajudar a aliviar as tensões com Washington e sinalizar a disposição de Kiev em resolver o conflito por meio de negociações.

Participantes das negociações trilaterais entre Ucrânia, Estados Unidos e Rússia deixaram o local após o primeiro dia de conversas em Genebra, na Suíça, em 17 de fevereiro de 2026. (Xinhua/Ma Ruxuan)

PERSISTEM DIVISÕES PROFUNDAS

Embora a Rússia, os Estados Unidos e a Ucrânia possam retomar as negociações, um acordo de cessar-fogo entre Moscou e Kiev está longe de ser garantido.

"Como a experiência mostra, o simples fato de negociações estarem ocorrendo não significa que um acordo de paz será alcançado tão cedo", disse o cientista político ucraniano Volodymyr Fesenko.

Segundo relatos, Witkoff apresentou a Putin uma proposta de paz atualizada, elaborada em coordenação com a Ucrânia e parceiros europeus após conversas em Oslo. No entanto, Ushakov disse que as propostas continham pouca "substância". Moscou concordou, em princípio, em retomar as negociações trilaterais, mas sua resposta pouco entusiasmada evidenciou a falta de consenso sobre como encerrar a guerra.

Atualmente, a Rússia e a Ucrânia permanecem profundamente divididas em duas questões fundamentais: território e garantias de segurança.

As disputas territoriais continuam sendo um grande entrave. Em uma entrevista à imprensa na quinta-feira, Zelensky sinalizou que Kiev não aceitaria a exigência russa de retirada da Ucrânia da região de Donbas, enquanto Moscou continua insistindo que toda a região deve passar para o controle russo. Declarações recentes sugerem que nenhum dos lados alterou significativamente sua posição.

As duas partes também divergem quanto às garantias de segurança. A Ucrânia busca garantias de segurança dos Estados Unidos e da Europa como parte de um acordo de cessar-fogo, ao passo que a Rússia se opõe firmemente ao envio de pessoal e à instalação de infraestruturas militares ocidentais na Ucrânia.

Chen Yu, vice-diretor do Instituto de Estudos Eurasiáticos dos Institutos Chineses das Relações Internacionais Contemporâneas, observou que as questões centrais do conflito permanecem sem solução, com pouco espaço para concessões e um impasse no campo de batalha, o que torna improvável uma solução política a curto prazo.

Michael Kimmage, especialista em política externa do think tank Brookings Institution, disse à mídia americana que a "teoria da administração Trump é a de que, ao se distanciar da Ucrânia e bajular os russos, seria possível alcançar algum resultado na mesa de negociações".

Ele, contudo, não está otimista quanto ao sucesso dessa estratégia.

"Na ausência de uma agenda clara por parte da Casa Branca e sem exercer pressão realmente contundente sobre a Rússia, algo que a administração Trump tem evitado fazer, é muito difícil imaginar qualquer avanço na mesa de negociações", disse ele.

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